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Posts Tagged ‘Literatura’

Nação Zumbi

 

Peço licença aos leitores para deixar o futebol de lado por um momento e exercitar descaradamente a boa e velha vaidade.

 

A editora Mojo Books, selo editorial on line, publicou no último domingo um e-book de minha autoria inspirado na obra da banda pernambucana Nação Zumbi.

 

Fome de Tudo, conto homônimo do último álbum do grupo de Recife, conta a história de Jorge, jovem atracado em inércia estável que desperta para a fome de vida quando um poeta chamado Chico recita um verso misterioso.

 

A partir disso, ele é instigado a provar todos os sabores do mundo; mesmo sabendo que não terá o direito de permanecer entre os medíocres ao fim da jornada.

 

Para acessar ou baixar o texto, basta se cadastrar gratuitamente no site da editora.

 

Abaixo, um trecho do e-book:

 

“Cheiros fortes sempre me agradaram. A gasolina deixa a bomba e, devagar, encaminha-se para o carro, sábia do dever de explodir, abnegada serva do transporte, aroma que desperta desejo e repulsa. O cheiro de sexo no quarto enquanto os amantes adormecem exaustos excita até as paredes. O cheiro de bebida amarga embriaga num hausto.

 

Mas o ar que a cidade adquire às madrugadas é o que mais me atrai. O banho de cada dia foi tomado pelo cidadão, agora ele se recolhe ao conforto do lar. O odor que fica nas ruas é de tudo o que foi descartado, esquecido ou ignorado por ele. Esse cheiro autêntico, que não é velado por perfumes – sempre artificiais –, é disso que falo. Caso ele tivesse cor, seria escura; um som, denso; e uma pele, pegajosa: ou seja, incontestavelmente humano.”

 

Guilherme

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O Tisserand ganha nova morada. Para quem já conhecia, não apenas a roupagem foi alterada, mas novos recursos são adicionados. Os textos mantêm o formato e as experimentações já tão utilizadas no antigo endereço. A nova organização só esbarra na anarquia pela qual os autores primam seus textos, ou não. Para começar, um conto/monólogo/lamento: Volta, de Guilherme Lessa Bica.

 

 

 

Volta, moço. Não tá fácil sem tua presença. Essa praia imensa, as areias balançadas pelo vento que não cansa nunca de cantar a tua falta. Ainda me pego esperando à porta quando o sol cora as plantas mais altas do jardim e depois logo morre me deixando só, emprestando um pouco de luz às telhas, antes de se despedir. Já tem tanto tempo que partiu, me perco nas contas e nas lembranças. Bastava cuidar o portão por essa hora que ouvia teu passo cauteloso, como se arrastasse e distendesse minha saudade por uns bons segundos derradeiros, provocando-a, para que meu carinho ganhasse em calor ao tocar teu rosto, ao roçar tua pele morena, e minha voz era oprimida por esse estado presente teu, era a presença em demasia que me alimentava em adundância e avidez.

 

Não trabalhamos em nada que nos comova, agrade ou enobreça. Eu sei. Nunca juntamos aquelas moedas que anunciam à sociedade a prosperidade do casal. Não temos nem teremos herdeiros – nenhuma provocação a qualquer deus nessa escolha de não contribuir para a perpetuação da espécie, apenas uma questão de coerência com esse amor consumista. Jamais seremos lembrados nas décadas posteriores a nossa morte. E isso não tem a menor importância, moço. A tua presença, aquela presença em demasia, me basta. E essa existência auto-sustentável, essa dependência simples requer um entendimento que as outras pessoas não possuem. Nem seria leviana a ponto tentar explicá-la. Como poderia ilustrar esse medo que encontra meu peito quando vejo teus olhos; nada que anuncie um perigo físico ou uma temeridade pela minha vida, mas uma morte deliciosa, uma entrega que amedronta pelo simples fato de requerer-me toda: teus olhos de poeta chileno me despem numa piscadela.

 

E é despidos que derrotamos todas aquelas convenções: as moedas perdem valor quando os corpos nada vestem e nada deles elas podem comprar; o tu empregado, o tu número no crachá, subordinado, morre, e renasce dono de uma nova morada, lúbrica e espaçosa, mas de uma abstração tamanha que reuniria as terras todas desses senhores que outorgam para si a condição de ricos, sem jamais alcançarem um quarto de teus intentos; a posteridade é eliminada da mesma forma, nos adonamos do tempo, outra – ou a maior – das abstrações e dos enganos, e guardamos o passado, o presente e o futuro dos dias em nossos corpos em horizontal: quando deitada, a ampulheta não escorre grãos. Deixemos as lembranças, os odores e os sons que produzimos para estes móveis obedientes e silenciosos, para esta casa acolhedora.

 

Mas isso tudo espera. A morte aguarda paciente a vida acontecer e terminar. Assim como eu espero tua volta, moço: resignada e atenta. Logo anoitece, e não quero adormecer novamente só. O vento sempre canta durante a madrugada, é compositor inquieto e provocador. E quando me vê abandonada, a única canção que lembra é a melodia da tua ausência.

 

 

Guilherme

 

 

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The Nose

* Conforme anunciado aqui no blog, participamos da Antologia “Vôo Independente 6” da Associação Gaúcha de Escritores Independentes. Para quem não teve oportunidade de comprar o livro (quem quiser, avise no comentts), aí vai o meu conto, dividido em duas partes. Mesmo para quem já leu o livro, vale a pena conferir, pois aqui no TISSERAND, o texto está na íntegra, sem os cortes de Edição da AGEI. Boa Leitura.

Parte 1

O azul cerúleo acompanhado de vapores condensados na atmosfera em gotas de dimensões muito reduzidas emoldurava o ambiente. Era um suntuoso dia de verão, daqueles que, ao final da tarde, os despretensiosos raios solares deixam de resplender e iluminar as ruas, convidando uma garoa preguiçosa a lhes fazer companhia e aguardar ternamente a visão singular da construção do arco-íris. Ele nem liga. Segue a caminhada, depois de mais um desgraçado dia de labor. Rafael De La Crus. Com S. Responde sempre, ríspido, ao ver escreverem seu nome errado. Rapaz jovem, cabelos castanhos na altura das orelhas assimétricas, que acabam por ser esquecidas, devido ao caroço protuberante no nariz, o qual lhe rendeu diversas alcunhas pejorativas na infância. As duas últimas quadras atravessou sem olhar para os lados, confiando fielmente na sua esguelha, ou melhor, não parou desejando sentir um frio na região abdominal e tornar um pouco mais relevante a pacata noite de sexta-feira que estava por vir. Chegou em casa seis e meia. Abriu uma Skol. Riu do tilintar da lata, e, sem perceber, acabou embaraçado de estar ali bebendo sozinho, sem uma comemoração especial. Ligou a tevê, zapeou os canais com certo desprezo, findando as mudanças justamente na emissora que condenava. A chamada da novela das oito o derrubou. “A Bunda da Negrini!”. Ergueu o copo de requeijão com a galhardia de estar segurando uma taça de cristal do mais desejado champagne, e após um afônico “Tim-Tim” sorveu o líquido de uma vez, deixando o copo sobre a mesa, apenas com uma espuma esbranquiçada e o cheiro de álcool acabou por lhe obscureceram as vistas e o aroma de início de trago o fez companhia em seus sonhos libertinos.

Era um rapaz decente. Comedido em suas atitudes, esforçado, e, até certo ponto, culto. Contudo, executava o novo labor, conseguido há alguns meses, a contragosto, não dando o melhor de si. O trabalho de oito horas por dia o angustiava. Considerava um atraso. Obcecado por livros, esbanjava apurados conhecimentos em literatura, o que não acrescentava em nada no emprego de vendedor de artigos importados, – de baixo custo, destinados às classes y e z – , comandado pelo Valdir: um empresário pangaré, quarentão, de bigode com fios alongados e negros, pouco mais de um metro e sessenta e cinco de altura, e noventa e oito quilos. Grande parte destes na barriga. Deslumbrado como novo-rico, despejava todas as segundas e quartas um olhar soberbo com um irritante ar de superioridade frente a seus clientes, diga-se de passagem, os responsáveis pela sua enlevada ascensão. Quando ia, era certo que reclamava de De La Crus. Ao pisar no soalho encerado da entrada principal, o comerciante o procurava. “The Nose, já com essa cara de sonso de novo…Vamo trabalha”, resmungava. Apesar de maldoso, o apelido agraciado na primeira semana de trabalho foi visto com bons olhos por Rafael. Era fã do Gogol. Ele nunca diria isto ao Pança. Jamais entenderia. E o pior: poderia inventar outro apelido. Arrumando os pacotinhos de abridores de vinho, discursava contra a ignorância, divagando suas inquietações rompendo contra os princípios da empresa, e assim o tempo corria como um guepardo no auge de sua virilidade. “Que árdua é essa vida de escravo do Pança. Atrás dessa falsa felicidade tem de haver um monstro. Um explorador filho da puta. Acha que estás me fazendo um grande favor ao jogar sobre o balcão migalhas de notas de dez reais, completando meu ordenado de menos de 400 pilas. Um dia, alguém chega aí e dá um tiro. Não eu. Ele merece apenas a minha indiferença. Mas aquele ordinário há de ouvir. Acha que sou piá. Posso ter vinte e poucos e não me sustentar, para a felicidade dele. O decadente, entretanto, é a sombria vida que leva dentro do seu próprio vazio. Triste vida é a sua, que enche o rabo de dinheiro, explora uma parcela da população que não tem acesso ao conhecimento, e prega que traz a eles a felicidade. Covarde. Não quero que o matem. Ao menos tomar um pau. Isso poderia”. Antes que algum bem-feitor abraçasse a causa do Nose, ele acordou, pouco mais de dez e meia.

Tshik. Abriu mais uma Skol. Enquanto bebia compulsivamente, arriscou uma olhadela pela fresta da veneziana da cozinha e vislumbrou uma noite um tanto nebulosa e pouco estimulante para uma investida na madruga porto-alegrense. Separou outra lata, vagarosamente foi à sala de estar, acomodou-se na poltrona do papai, e folheou desconcentradamente uma edição de “Diário de um louco”, de bolso. A tonturinha não deixava se prender na beleza do texto. As letras embaralhavam-se e os pensamentos libidinosos esvaíam-se com volúpia e logo imaginava-se com uma loira ao seu lado, executando carícias instigantes e acabava por deixá-lo rijo. Precisava sair e arranjar uma guria. Desistiu da leitura, foi ao quarto trocar de roupa. Vestiu uma camisa de flanela, justa em demasia, deixando explícita uma pequena saliência na barriga ressaltando a vida de acomodado. Colocou uma calça jeans, das novas, reservada para ocasiões especiais, avisou a mãe que iria sair, pegou o carro do pai, abriu mais uma lata e se foi. Rindo sozinho.

Fabio

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