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Archive for junho \24\UTC 2008

 A Revista experimental do Curso de Jornalismo da Unisinos, produzida pelas turmas de Redação Experimental em Revista – no qual me incluo – traz nesta edição “Preocupações” como tema principal.

 

 

 O lançamento, realizado na noite de segunda-feira, 23, teve apresentação ao piano do meu colega Rafael Tourinho Raymundo; apesar de quase ninguém prestar atenção, ele deu show. Mais detalhes no Portal 3 e no Link Publicações.

 

Dando prosseguimento nas postagens, o texto Eterno, enviado para o site Centenário do Inter. Quem tiver tempo e gostar do texto, dê seu voto no site. É rápido e fácil.

 

  

Eterno

  

Existe uma máxima que argumenta a seguinte tese: o ser humano, ao saber que sua morte está prestes a chegar, vê um filme dos momentos mais importantes de sua vida. Comigo foi diferente. Explico: em meados de abril de 2001, voltava de Farroupilha acompanhado de minha família, e resolvemos dar uma pausa para um lanche, numa padaria beira de estrada, em São Leopoldo. Logo após entrar, percebo uma movimentação estranha e, antes de esboçar qualquer reação, sinto um revólver nas minhas costas.


– Fica parado que tu vai morrer, seu filha-da-puta de merda, me dá a grana e a chave do carro que vou te matá.

Naquele momento tinha a certeza que não sabia o verdadeiro sentido da palavra medo. Olhava para o lado e via meus familiares apavorados com olhos marejados, tremendo. Esperando a bala perfurar a paleta, vejo o filme começar a passar: via o Inter sendo campeão de verdade, comemorando com a massa vermelha e pensava, ah, pensava… Aqueles instantes foram mais revoltantes, pois sabia que não tinha vivido aquilo. Seu ladrão de merda, tu não tá vendo que eu não posso morrer ainda?, pensei em dizer, apenas pensei, e continuei vendo o Inter erguer uma taça de verdade – jamais imaginaria que seria do Mundial FIFA – até que, após roubar nossos pertences, ordenaram que contássemos até 50 em voz alta, de olhos fechados. No 17, começava a entender que não iria morrer. E ficava feliz com isso.

 

 
Passaram-se os anos e o amor incondicional pelo nosso Colorado crescendo cada vez mais. Voltei a lembrar desse episódio na partida final em Yokohama, quando o Ronaldinho se preparou para cobrar aquela maldita falta: o medo voltou. Mas tinha a certeza que não morreria sem ver o Inter Campeão. Depois daquele lance, recordo pouca coisa. Nada mais seguraria o nosso Inter.

 Hoje, mais calmo, analiso os fatos por outra vertente. Naquele assalto, ocorreu uma coisa óbvia: assim como em todos os momentos importantes da minha vida, o Inter estava ao meu lado. Foi assim com meu primeiro time de botão, meu primeiro gol com aquelas bolas-bexiga do Inter, o primeiro gol na escola e meu primeiro jogo no Beira-rio. Foi o hino colorado que cantei, quando tive medo ao descer no Elevador do Beto Carreiro World; cantei quando meu avô gremista morreu e, novamente, quando perdi um emprego. Até quando fui assaltado de novo e o ladrão me deixou uma passagem de volta pra casa. Dê-lhe, Celeiro de Ases. Foi enaltecendo o Inter que comecei a soltar piadas-cantadas para minha noiva; e são as músicas da Popular que canto quando escrevo os textos motivadores do Consulado de Guaíba; ou quando saio atrasado pro trabalho; ou a passeio; ou andando de carro; ou quase sempre – pelo menos uma vez por dia. 

Para selar esse amor insaciável, com a proximidade do Centenário, em abril desse ano tatuei o símbolo do Colorado nas costas, que me acompanhará até o dia de minha morte. Quero dizer, assim como todos os colorados, o meu Amor pelo Inter irá muito mais além dessa vida. É Eterno.


Fabio

 

 

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Ela

 

“Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.”

Pablo Neruda

 

 

            Sabe aqueles dias que, apesar da alvorada ensolarada, parecem ser turvos e enevoados. Mesmo com os cânticos dos pássaros, a única vontade que tenho é continuar dormindo esperando a chegada do meio-dia para almoçar e pensar que o crepúsculo está prestes a anunciar o fim de mais um dia angustiante. Saco. Mesmo assim, levanto. Ao movimentar os membros superiores para cima, procuro estralar os ossos – pouco calcificados na infância – que estavam retesados, após descansar pouco menos de três horas de sono.  O movimento só não foi completo, pois quando estava quase no ápice olhei-me no espelho e veio a raiva do mundo. Por quê tão feio? Ah, e não me venha dizer que não ocorre isso com você, porque ocorre sim. Acho que é normal. Ou não. Vou para a cozinha, busco a Zero e leio as manchetes para me manter informado. Tou cagando se o Busatto foi burro e o Feijó um pau-no-cú antiético. Parafraseando o Wander, Queria é ser bonito, mas eu não consigo.

 

            E fico com esse sentimento de culpa até umas 11 horas, momento em que começo a me preocupar com os problemas realmente relevantes e vejo que o dia será bem pior do que imaginava. Filhos, uma das coisas que mais queria na vida, tenho; uma esposa fiel, meiga, que me ama, tenho; um título mundial FIFA, tenho; realização profissional, tenho; porque diabos então, deixo ser inebriado, sucumbindo nesse degradante e retrogrado mau-humor. Chega seis horas, penso. Quero ir embora desse antro de malévolos que dão um dedo pra botar no meu rabo, ou no deles. Antes de ir embora, sou agraciado com um a Portuguesa ganho, Gustavo, te fu. Pff.

 

            Era pra ser um dia caído no esquecimento. Mas ela estava lá, no meu ônibus, puxa. Com os caracóis caindo até o ombro, balançando com o vento de forma sincronizada com o piscar tímido dos seus lindos olhos cor de mel. O sorriso dela é único. Tenho certeza que ela não sabe disso. Sorri um sorriso encantador. Queria dizer para ela. Olha moça, devias ter orgulho desse sorriso, que em menos de dois minutos tira o meu mau-humor, deixa-me enlevado, contemplando tua silhueta com devoção. Dizer que tu és linda, a mais linda, cairia na vala comum. Tu mereces mais.

 

Eu tenho minha esposa, tu deves ter o teu, mas fico feliz de estar aqui. Apenas a te olhar. E digo-te, só sei de uma coisa: Queria ser agraciado todos os dias com o teu belo, meigo e sincero sorriso, cheio de mistério; seria o fim dos meus dias de mau-humor.

 

Fabio

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O Tisserand ganha nova morada. Para quem já conhecia, não apenas a roupagem foi alterada, mas novos recursos são adicionados. Os textos mantêm o formato e as experimentações já tão utilizadas no antigo endereço. A nova organização só esbarra na anarquia pela qual os autores primam seus textos, ou não. Para começar, um conto/monólogo/lamento: Volta, de Guilherme Lessa Bica.

 

 

 

Volta, moço. Não tá fácil sem tua presença. Essa praia imensa, as areias balançadas pelo vento que não cansa nunca de cantar a tua falta. Ainda me pego esperando à porta quando o sol cora as plantas mais altas do jardim e depois logo morre me deixando só, emprestando um pouco de luz às telhas, antes de se despedir. Já tem tanto tempo que partiu, me perco nas contas e nas lembranças. Bastava cuidar o portão por essa hora que ouvia teu passo cauteloso, como se arrastasse e distendesse minha saudade por uns bons segundos derradeiros, provocando-a, para que meu carinho ganhasse em calor ao tocar teu rosto, ao roçar tua pele morena, e minha voz era oprimida por esse estado presente teu, era a presença em demasia que me alimentava em adundância e avidez.

 

Não trabalhamos em nada que nos comova, agrade ou enobreça. Eu sei. Nunca juntamos aquelas moedas que anunciam à sociedade a prosperidade do casal. Não temos nem teremos herdeiros – nenhuma provocação a qualquer deus nessa escolha de não contribuir para a perpetuação da espécie, apenas uma questão de coerência com esse amor consumista. Jamais seremos lembrados nas décadas posteriores a nossa morte. E isso não tem a menor importância, moço. A tua presença, aquela presença em demasia, me basta. E essa existência auto-sustentável, essa dependência simples requer um entendimento que as outras pessoas não possuem. Nem seria leviana a ponto tentar explicá-la. Como poderia ilustrar esse medo que encontra meu peito quando vejo teus olhos; nada que anuncie um perigo físico ou uma temeridade pela minha vida, mas uma morte deliciosa, uma entrega que amedronta pelo simples fato de requerer-me toda: teus olhos de poeta chileno me despem numa piscadela.

 

E é despidos que derrotamos todas aquelas convenções: as moedas perdem valor quando os corpos nada vestem e nada deles elas podem comprar; o tu empregado, o tu número no crachá, subordinado, morre, e renasce dono de uma nova morada, lúbrica e espaçosa, mas de uma abstração tamanha que reuniria as terras todas desses senhores que outorgam para si a condição de ricos, sem jamais alcançarem um quarto de teus intentos; a posteridade é eliminada da mesma forma, nos adonamos do tempo, outra – ou a maior – das abstrações e dos enganos, e guardamos o passado, o presente e o futuro dos dias em nossos corpos em horizontal: quando deitada, a ampulheta não escorre grãos. Deixemos as lembranças, os odores e os sons que produzimos para estes móveis obedientes e silenciosos, para esta casa acolhedora.

 

Mas isso tudo espera. A morte aguarda paciente a vida acontecer e terminar. Assim como eu espero tua volta, moço: resignada e atenta. Logo anoitece, e não quero adormecer novamente só. O vento sempre canta durante a madrugada, é compositor inquieto e provocador. E quando me vê abandonada, a única canção que lembra é a melodia da tua ausência.

 

 

Guilherme

 

 

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