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Archive for fevereiro \28\UTC 2007

Manual de sobrevivência no verão subtropical

Abra os olhos vagarosamente. Distenda os músculos do rosto num movimento que exponha com veemência a campainha de sua garganta à luz da manhã, que entra sorrateira pelo quarto entre as frestas deixadas pela persiana descuidada. Estique os braços divergentes para pontos cardeais contrários e exclame um uhnnn gutural e relaxante. Afaste com paciência as cobertas, que provocaram aquele suador de porco durante a madrugada, como se elas representassem uma figura sensível e agradável. Caminhe até o banheiro calçando as solas dos pés por inteiro no chão sem o auxílio de chinelos, pantufas, alpargatas ou sandálias, para que a temperatura arrefecida do assoalho amenize o desconforto desta estação.

Atravesse o corredor com a lentidão medida antecipadamente, evitando que o suor se manifeste logo pela manhã, e encaminhe-se para a geladeira e o seu sopro polar. Retire a garrafa de água gelada e encha o maior copo de vidro à disposição no armário. Acrescente cinco sólidas pedras de gelo e beba num só gole. Experimente a mesma sensação de congelamento de quando se bebe uma porção de sorvete maior do que a capacidade de absorção do corpo, aquela que ascende do interior das narinas e escala o rosto até o limiar da testa, e que morre refrescando a cabeça, a essa altura já escorada com sofreguidão pelas mãos. Repita a operação outras três vezes – se possível, com a mesma disciplina da primeira.

Vista-se com o uniforme ou a roupa própria para o trabalho e encare o sol, a brisa quente e o calor abrasivo com a coragem e o vigor necessários.

Guilherme

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Uma noite no São Pedro

Ela parecia deslizar lentamente pelo céu, com uma leveza invejável a muitas pombas que, sabiamente, rodeavam o local. O crepúsculo tornava a sua descida mais encantadora. O vento que acolhia a entrada da noite é que definia seu rumo: ora, para próximo da Assembléia Legislativa, ora em direção ao Teatro São Pedro. E eu ali. Com os olhos perdidos, apenas vislumbrando a descida da folha, caída de uma árvore da Praça, há poucos instantes, até sua aterrissagem de forma sublime no solo frio, que servia de assento/cama para um mendigo. Sinceramente, não entendia minha comoção. Sabia que era um dia atípico, com os sentimentos a flor da pele. Mas, como estava na fila para assistir a apresentação de uma Orquestra de Flautas – da Escola Vila Lobos -, relevava serenamente a situação.

– E aí, será se o Inter passa da semifinal do Mundial? – ironicamente, questionou meu cunhado, aproveitando do recurso “futebol”, para criar um assunto, até que os portões do Teatro fossem abertos.

O comentário teve seu lado bom. Após uma resposta comedida, meus pensamentos voaram abruptamente à Terra do Sol Nascente, e, se não fosse à astúcia do meu sogro, veria a nossa fila se dissipar desordenadamente em direção a Porta Principal. O grito de “olha o furo, olha o furo”, entonado rispidamente, pelo sogro, foi ecoado por dezenas de pessoas, inibindo os convidados “espertinhos”, que acabaram esperando a nossa entrada. Em menos de 10 minutos, já desfrutava do conforto da poltrona de honra – segunda fileira, para convidados especiais – do São Pedro. De um lado, meu cunhado, do outro, minha noiva e à minha frente, a Secretária de Educação. Mas naquele momento, sentia-me sozinho. Maravilhado. A beleza dos instrumentos era deixar qualquer musicista com os olhos brilhando e com cócegas nos dedos, aguardando o momento do encontro com seu utensílio de trabalho. Contudo, não me continha aos violinos, que ali aguardavam seus manipuladores. Perdia-me com a perfeição do local. Paredes, andares, lustres, tudo parecia entrelaçado de forma harmoniosa, dando ao ambiente uma vibração fora do comum. Lembrava da minha infância, da primeira vez que fui ao circo. Com a mesma cara de bobo, minha cabeça girava em todos os sentidos, procurando algo novo. Algo que encontraria pouco tempo depois.

As cortinas abriram e, para mim, a apoteose. Crianças, adolescentes, professores, músicos e cantores; todos perfilados, recebendo um aplauso caloroso da platéia, que lotava as dependências do Teatro. Confesso que subiu uma adrenalina, muito semelhante à Entrada do Inter em campo. Uma emoção em ver alguns pequenos, com os olhinhos regalados, faceiros com os aplausos, tive que me segurar pra não soltar um “vocês são foda!”, como costumo fazer no Beira-rio, quando passa o projeto Criança Colorada. Antes mesmo de começarem as apresentações, já era obrigado a disfarçar “coçadas” no meu olho, para esconder as lágrimas que insistiam em incomodar minhas pálpebras. A maior parte da apresentação foi assim. Segurando o choro, transparecendo normalidade. Impressionado com o talento dos pequenos, da qualidade musical apresentada, do empenho dos professores e da beleza do projeto. Uma escola da comunidade. Uma escola que, para muitos da “classe média”, é considera de “Vila” – no sentido pejorativo -, mostrou a que veio, proporcionando um espetáculo jamais visto por mim, até então. A cada música que passava, transpirava…

O Mestre de Cerimônias – professor da escola – esnobava uma impostação de voz, abrilhantando ainda mais o Evento. Com um texto bem preparado e uma galhardia apurada em seus movimentos, demonstrava experiência na função, emocionando a todos os convidados, ao contar a história da orquestra, dando continuidade no Espetáculo. Para mim, o momento culminante foi o show da turminha de percussão mirim. A professora, com os cabelos parecidos com o do Ronaldinho Gaúcho, conseguia “tirar” ao máximo, o potencial dos baixinhos – uns, ficavam pouco acima do meu joelho – que já batucavam com um swing talentoso. No entanto, na música “Que país é este?”, ao ouvir um “entra pô”, vindo de um dos músicos, percebi que o vocalista estava meio perdido na história. Por sorte, a platéia estava como uma acompanhante de cabaré no final da madrugada: louca para ser conquistada. Bastou uma “puxada de palmas” e umas frases demagogas, para vir o aplauso em massa. Que beleza! Ainda nesta noite, teve a apresentação da reconhecida cantora gaúcha, “Sorrentino”… – Aaaveeeee MariiiiIIIiiaaaaa, MariiiiIIIiiaaaaa… – convidada especial. De peso.

Não queria que chegasse ao fim. Ao silenciar a última batida de palma, ainda estava paralisado na poltrona. Suado. Agora, entendendo o real motivo do nome do espetáculo: Uma canção é pra isso. Uma canção é mais do que fazer um sol, é ao mesmo tempo um relaxante e um estimulante; é algo que te deixa num estado fora de si, para cima, feliz, com vontade de seguir em frente. Uma canção é para abrir novos horizontes, dar oportunidades a quem precisa, uma canção é… uma canção é pra isso. Levanto, realizado. Porém, percebo que minha empolgação tinha tido um ponto negativo. Estava “voando”. Comento somente com a nega e sigo o trajeto de volta, pelos corredores do São Pedro, com os dois braços colados no corpo para não passar por nenhum tipo de constrangimento. O Fluxo de pessoas era grande.

– Shiii… Têm gente que ta numa Asaaa… – condenava, minha sogra, calculando que fosse de um dos músicos que passava por nós.

Optei pelo silêncio. Após um risinho discreto para minha noiva, partimos em direção ao carro, com uma convicção. Esse foi o primeiro de muitos, que pretendemos assistir, mas, nas próximas, o Vila Lobos não me pegará desprevenido.

Fabinho

*(Foto/Arquivo Prefeitura Poa). A regência e idealização do projeto é da professora Cecília Rheingantz Silveira. Parabéns, Professora.

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Fontes

Nos meus quase quatro anos de jornalismo, tive oportunidade de conversar, entrevistar, discutir, com os mais variados tipos de fontes. Desde primárias, até artistas, políticos, bandidos, e lideres de Estado – tinha agendado uma coletiva com o Evo Morales, em 2003, mas devido aos “probleminhas” que aconteciam na Bolívia, ele não pode vir ao FSM. Nessa trajetória, pude perceber algumas peculiaridades e semelhanças em meus entrevistados:

Fonte Solidária – Sempre que é preciso fazer levantamento de dados, números e estatísticas, a fonte se “embanana”, mas vem com a desculpa “depois eu te envio”. E, pode esquecer. A não ser, se a fonte for solidária. Daí chegam dados que nem precisam ser utilizados. Uma beleza.

Fonte sem caráter – Numa semana, lança uma denúncia bombástica e abre o bocão. Na semana seguinte, gera uma grande repercussão negativa, ela acaba mudando de lado, e por cima, te chama de mentiroso. Com esses, somente com gravador.

Fonte “Pauteira” – Esta é uma fonte que gosta de ser fonte, ou ao menos, gosta de indicar fontes. Toda semana,uma pauta nova. E o melhor é que nessas dicas saem boas pautas. Outras caem. Quando tu menos esperas, surge ela com uma bomba pra te contar.

Fonte Política – Considero a fonte política a mais difícil de lidar. Sempre sou tratado da melhor maneira possível. Um “puxa saquismo” que parece querer algo em troca. Nessas, assunto é o que não falta. Por mais simples que seja a pergunta, recebo respostas, de cinco, 10, até 20 minutos.

Fonte Insegura – Nunca da certeza nas informações que passam, e ao final vem o famoso “mas por favor, não publica o meu nome!”.

Fonte tímida – Essa geralmente é problema quando se precisa de uma matéria de rádio ou tv… você fica esperando uma resposta de uns 30 segundos e recebe um grandioso “sim”. O número de perguntas acaba triplicando até o final da entrevista.

Fonte Inteligente – Uma das melhores de trabalhar. Além de sair com uma matéria interessante, o repórter acaba adquirindo muitos outros conhecimentos de lambuja.

Fonte Burra – Sempre derruba os repórteres burros. Elas apresentam números contundentes, dados, todo um blá, e, devido ao “dead line”, você acaba divulgando. Depois de pronto, percebe que não era nada daquilo que foi dito. E o erro é seu! Caí umas duas vezes nessa.

Fonte Petulante – Essa te tira pra otário. Fica te questionando até pescar aonde vai o seu conhecimento. Enquanto tu não mostrar que não é um cururu qualquer, não te diz nada.

Fonte Editora – “coloca assim ó…” Com essa eu me irrito… a fonte explica qual o enfoque que quer para a matéria. Mesmo sendo “cortada”, ela continua com a empreitada “não, mas tu tens que colocar assim ó..” Putz. Essa é pra matar.

Fabio

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Coisas que Não Entendo

* Peço desculpa aos leitores que ainda acessam o blog, pelas significativas demoras nas atualizações. Só que no momento estou em dois empregos, enquanto o Guilherme está sem computador em casa.

Não sei se é por costume ou imposição da mídia, mas, sempre estamos com um assunto polêmico para iniciar uma discussão, seja com os amigos, conhecidos, ou até mesmo em uma parada, enquanto o ônibus não chega. Às vezes, fatos sem muita relevância para nós, como a morte da Lady Di; outros de maior importância como o “buraco no metrô”, e, por último, o caso do “menino do rio”, que chocou a todos – para encurtar deixei de fora a morte do milionário da mega sena, crise na aviação, caso “richtofeen”, dentre outros que, já foram nossas pautas, e, rapidamente esquecidos.

Cada um com sua repercussão. O último, ainda em bastante destaque pela Imprensa, trouxe a tona algumas discussões que estavam sendo deixadas “de lado”, pelos políticos. Uma delas é a questão da diminuição da maioridade. Sinceramente, não sei se essa seria a melhor opção. Assim como grande parte de quem estiver lendo isso, também fiquei revoltado com a barbárie acontecida no Rio. Mas acredito que para uma real mudança acontecer, precisa haver um empenho maior da população. A situação está complicada e todo mundo faz que não vê. A desigualdade aumenta e é costumeiro ouvir que “eu não posso resolver os problemas do mundo”, ou frases nesse sentido. Esta na hora da sociedade começar a rever seus conceitos antes que este caso seja esquecido, assim como os outros estão sendo. Logo acontece novamente, mais uma vez ficamos chocados, e segue tudo na mesma.

Entretanto, penso que tudo tem o seu lado bom. Um fato que considero positivo nessa história toda, se é que se pode dizer assim, foi a aprovação na Câmara de Deputados um projeto de lei, que aumenta o tempo mínimo na progressão de pena para o regime semi-aberto, em casos de crimes hediondos – até o momento é de um sexto. Se for aprovado, passará para dois quintos. Posso estar falando uma grande bobagem – não manjo muito de direito, se tiver me equivocando, comentem – mas o que eu não entendo é a razão do cálculo a ser feito para a progressão do regime, a partir do tempo máximo que o detento pode ficar preso, ou seja, 30 anos. Na minha linha de raciocínio, o correto seria contar um sexto da pena – agora poderá ser dois quintos -, do tempo de pena real (alguns casos chegam há 100 anos). Sei que não é permitido ficar tanto tempo na prisão e blá blá blá…., mas se o sexto de pena fosse por uma condenação de 60 anos, o justo seria que bandido tivesse que ficar 10 anos, e não cinco, calculado nos 30 anos de tempo máximo. Não entendo mesmo. Por ai que a coisa tem que mudar. A bandidagem faz o que bem entende, deixa a população aterrorizada e, em pouco tempo, já está apta para o regime semi-aberto. De volta à Sociedade.

Fabio

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