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Posts Tagged ‘Libertadores’

Ali onde os parentes menos abonados da coruja dormem

O Santos já é campeão da Libertadores. E o fiador maior deste título, é bem verdade que assessorado de perto por um cobrador de faltas e escanteios competente, Elano, por um treinador calejado e vencedor, Muricylha, acompanhado no protagonismo até a metade da competição por um Ganso confuso fora de campo e seguro dentro dele, o fiador maior deste título, resisto o que posso e prolongo o parágrafo porque sei que ele encerrará com seis letras que maculam para sempre a história de La Copa, seis letras que representam a verdade do futebol brasileiro e americano atual, seis letras que sustentam um moicano emo, doses carregadas de pretensão e futebol abundantes, o fiador maior deste título atende pelo nome de Neymar.

E Neymar é a personificação de tudo aquilo que sempre rebaixei à categoria escatológicas do bom futebol, a personificação de arestas dispensáveis e arabescos que prendem a atenção muito mais pela pose do que pela posse da bola, a personificação sulamericana da doutrina fundada em Cristiano Ronaldo: o jogador que divide a atenção na bola com a preocupação permanente com câmeras e ângulos favorecidos.

Ocorre que o neófito da Vila, embora refém das mesmas idiossincrasias no comportamento que reduzem o futebol de jogadores talentosos à mera extensão de suas personalidades controversas, carrega consigo uma herança que nem o Ronaldo gajo, tampouco qualquer outro europeu receberia: a malícia do futebol brasileiro. Há no talento de Neymar qualquer coisa de Romário quando espalma a mão no peito e intima o companheiro a reconhecê-lo como o destino inexorável do passe, há no taleno de Neymar qualquer coisa de Ronaldo quando anuncia numa pedalada premeditada o lado que escolherá para avançar e ainda assim esnoba no arranque a marcação resfolegante e frustrada, há qualquer coisa de Pelé na cabeça erguida, no chute certeiro, aquele que retira goleiros das fotografias mesmo nos lances de bola rolando. Se a elegância de Ganso remete à parcela europeia de nosso futebol, o jogador aristocrata que decide jogos sem macular o uniforme, Neymar encarna com fidelidade o estereótipo do guri que jogaria da mesma forma descalço em campos calvos e inóspitos o que joga nos melhores gramados do mundo, ainda que tenha sido preparado desde o nascimento para as chuteiras, ainda que nunca tenha jogados em praças sem grama, algo que se explica somente em teorias que versam sobre heranças congênitas ou esprituais.

O empate de 3 a 3 na noite de ontem no Defensores Del Chaco reafirmou duas certezas: o Santos será campeão da América e Neymar é jogador de Libertadores. Como deve confirmar-se também, com o devido tempo, jogador de Copa América, Champions League, Mundial de Clubes, Copa do Mundo e qualquer outro torneio deste ou de outro sistema solar. Apesar do moicano emo, apesar de couverizar Cristiano Ronaldo, apesar das arestas. Porque o jogador talentoso, feito escritor de mesma capacidade, anula qualquer idiossincrasia moral com uma obra prima. Neymar está construido a sua.

 

A outra semifinal:

Hoje, às 21h50min  VÉLEZ  x  PEÑAROL

 

Guilherme Lessa Bica

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Não há desculpas possíveis para o fiasco protagonizado pelos clubes brasileiros na noite de ontem. Os quatro times que entraram ostentando a bandeira verde, amarelo, anil e branco, fizeram relembrar um tempo remoto, quando as transmissões televisivas da Libertadores eram escassas, a violência em campos portenhos, abundante, os calções pareciam lavados por uma máquina incompetente e obstinada em encolhê-los e as  camisas não absorviam o suor, o que compunha uma paisagem grotesca sob as axilas dos mais suarentos, a famosa fatia de pizza. Estou falando dos anos 60, 70 e 80, prestimoso leitor, décadas amplamente dominadas por argentinos e uruguaios em La Copa; décadas em que, além da empáfia aristocrata que resiste, o povo do Prata ainda tinha os bolsos cheios de dólares.

Ocorre que os bolsos do Prata esvaziaram. E ocorre ainda mais: não se perde apenas para os times do Prata. Perde-se para chilenos, colombianos, paraguaios. Perde-se com mediocridade e convicção, caso do Grêmio; perde-se com surpresa: casos de Inter e Cruzeiro; perde-se, por fim, por falta de culhões, caso do Fluminense.

 

O estrangeiro

E eu querendo ser campeão da Libertadores

Renato Portaluppi é gremista. Mas Renato é, acima de tudo, um ator. E carioca. E atores, como todos sabem, são vaidosos. Sobretudo os cariocas. Então, que os deuses do futebol despejem alguns raios na cabeça daquele estrangeiro bebedor de água de coco e adorador de praias belas e mulheres quentes. Porque eu quero para comandar meu time alguém mal humorado, conservador, defensor da família e temente a Deus. Já estou de saco cheio, e sei que não invoco essa raiva só, daquelas caretas à beira do gramado traduzindo expressões que, se verbalizadas, diriam “E eu ainda fazendo o favor de treinar o Grêmio”, toda vez que Fernando acaricia a bola com a canela ou Lins pratica aquela modalidade que somente ele pratica em campo, mas que certamente não se trata de futebol.

E foi novamente essa a contribuição de Renato à beira do gramado, no Chile. Escalou o time que as lesões, a miguelice e as outras razões para ausências permitiram escalar, mas sempre, inexoravelmente, do primeiro ao último minuto, vazava os olhos, amparava as mãos na cintura, simulava um sorriso amarelo e transparecia a mesma má vontade que qualquer carioca transpareceria caso fosse obrigado a exilar-se no inverno gaúcho em detrimento das benesses fluminenses. Alguém, por favor, informe a Renato que não há obrigação nenhuma, compre sua passagem de volta e traga para a casamata tricolor um homem sério, de preferência, de bigodes.

O jogo? Partida morna, o Grêmio organizado e limitado, administrando o empate, nos melhores momentos refém de Douglas, Mario Fernandes e Viçosa, sistematicamente atrapalhados, é claro, pelos tumores malignos Gilson e Rodolfo. A Católica? Um time de futebol. Zaga regular, mas segura. Um camisa dez insinuante e habilidoso, Cañete, e, sobretudo, um centroavante – Lucas Pratto – como deve ser: corpulento, técnico e de boa impulsão. Venceu o melhor time. Um a zero.

 

Falcão, o campeão dos campeões*

Beira Rio emula Centenário

No princípio, foi Oscar. Uma infiltração repentina, o gol inesperado, um prenúncio de goleada. Então se perscrutou a escalação colorada: os mesmos quatro defensores, os mesmos cinco meio-campistas, o mesmo atacante solitário em brava luta contra a zaga adversária. E em cada pigmento vermelho daqueles onze uniformes o fantasma do bigode invisível pairava. Em cada contra-ataque do Peñarol, cada gol perdido pelo Inter, e não foram muitos na primeira etapa, o que aumentava a desconfiança, o sarará de beiços salientes pela falta de bigodes era relembrado pelos milhares que acorreram ao Beira Rio.

Sobreveio a etapa derradeira, e com ela uma sucessão de etapas derradeiras. No princípio, foi Alejandro Martinuccio, um argentino com pinta de uruguaio que fatiou a defesa rubra e feriu o ângulo de Renan como há muito não se via fazer com tamanha convicção. E foi já nesse momento que as máscaras começaram a cair e as trombetas do apocalipse iniciaram sua melodia aterradora. Cinco minutos mais tarde, o golpe de misericórdia. O mesmo Olivera que eliminou Adenor Tite, o Bacchi, com a La U de Montillo na Sulamericana de 2009, o mesmo centroavante comprovou que nasceu para jogar no Grêmio e fazer gols no Inter, e lançou de vez o querosene que faltava para inflamar a chama de tradição do Peñarol, fazer renascer o amarelo e preto de cinco Copas e três Mundiais e decretar o dois a um definitivo.

Resta-nos a melancolia da decisão provinciana. Dois Grenais fadados ao fracasso. Aos perdedores, talvez um novo técnico, o que me impele a torcer por dois empates e uma digna derrota nos pênaltis. Aos vencedores, a obrigação de caçoar do rival aos cochichos, sob pena de ouvir gargalhadas caso algum torcedor por de trás das fronteiras gaúchas surpreenda sua alegria ingênua e comezinha.

 

Guilherme Lessa Bica

 

*Homenagem nonsense a Sylvester Stallone

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Multidão acampou em frente a sede do TFC para exigir a volta do Blog. Diretoria cedeu à pressão

 

O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo, poder-se-ia ler em algum para choque de caminhão cujo condutor avançou o sinal dos lugares comuns. Uma parada estratégica, contudo, pode ser interessante, desde que o vivente tenha tesão de, num futuro próximo, inflar o peito, colocar suas intimidades (Vulgo cacete!) pra fora e dizer: chegou a hora.

Pois bem, enquanto o suposto mártir Bin Laden está fornicando com suas dezenas virgens abraçado em Alá; enquanto os eloquentes torcedores do maior rubro-negro do sul do Brasil profetizam que o Paraná vai acabar; enquanto o Juventude vira time Distrital; enquanto o torcedor do Grêmio comemora pesquisa Data Folha; é neste momento épico, em que a mulher do Valdívia tem seus minutos de fama falando algumas peraltices e bonde do Ronaldinho leva o título do Campeonato Carioca, neste momento a equipe Tisserânica atende a dezenas de e-mails, cartas e abraços bêbados: estamos de volta.

 

Dama de Cabaré

Tenho o maior respeito pelo primeiro e único time gaúcho a sagrar-se campeão intercontinental, no longínquo ano de 1983. Bem como, admiro a força de vontade das profissionais que trabalham no serviço de acompanhantes. A única forma que encontro, no entanto, para externar o sentimento do último Gre-Nal, que garantiu o Inter na final do Tradicional Gauchão, é de ter comido uma puta de cabaré. Na hora, até rola uma euforia, uma animação, depois vem um remorso. Desprezo.

As bandas da Azenha estão com elenco medíocre. Apesar de dominar 70 minutos de jogo, fizemos apenas um gol; o aloprado Guiñazu aprontou a dele e quase deu zebra. A sorte acompanha os bons, diria algum medíocre. E pode ter sido isso. Ser melhor que o Rival é pouco, muito pouco.

 

O Gigante me Espera

No melhor horário para prejudicar aqueles que irão ao Estádio Beira-Rio, no vespertino desta quarta, às 19h30min, o Inter enfrenta o Peñarol no jogo de volta das oitavas, podendo defender um valioso empate em zeros para ficar com a vaga. Gostaria até que anulassem dois gols legítimos do adversário, tal qual 2006 contra o Nacional, e dar uma dose de alegria na noite do coirmão.

A preliminar da partida do Beira aconteceu na tarde de terça-feira, entre Barcelona 1 x 1 Real Madri. Joguinho mais ou menos, diga-se de passagem.

Fabio Araujo

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Ontem, o Inter fez o seu terceiro aniversário da histórica conquista da Libertadores da América.  Para comemorar, a equipe do TFC divulga novamente o texto do articulista Fabio Araujo, publicada no livro Histórias Coloradas II – As cem melhores histórias campeãs da América.

EQUIPE TFC

O Maior Psicólogo que Existiu

Acordo com um barulho estridente em meus ouvidos. Eram 7h45 de 16 de agosto. Maldito celular. Lembro que foram menos de 3 horas de sono. Meus nervosos pensamentos passaram a noite vagando instintivamente em busca de um resultado positivo que, almejava presenciar na final do dia seguinte. O irritante som “nokia tune” selecionado em toque crescente, ecoava pelas paredes mofadas do meu quarto. Quem me ligaria a esta hora? Pensei no Carvalho. Em uma chamada eufórica, o Presidente estaria convocando os guerreiros alvirrubros para atropelar o tricolor paulista, na maior batalha vista no Gigante da Beira-rio. Mas não.

 

– Amoreco, o pai está mal. Está indo para o Hospital – contou-me entre soluços, minha noiva.

 

Não queria acreditar. Após um breve consolo, liguei para meu local de trabalho avisando que não poderia comparecer, dando as devidas explicações – certamente devem ter pensando que faltei por causa do jogo. Ao chegar na casa dela, tentei transmitir somente palavras positivas, mas, também muito abatido, não obtinha grande sucesso. Toda a programação pré-agendada pensando em concentração, bebida, tinha ido por água baixo. Não sentia vontade de sorver um gole de cerveja sequer. Rezava. Torcia muito pela recuperação do sogro, sem saber o que aconteceria nas próximas horas.

 

– Vai pro jogo, Amor. Eu vou ficar bem – disse.

 

Sentia-me orgulhoso. Ela sabia o quanto este jogo era importante para mim. Com o coração apertado, me despedi e voltei para casa, separar o manto sagrado, cada vez mais nervoso. Ora pela proximidade da grande final, ora por não ter mais notícias do sogro. Minha carona chegou em torno de 15h. Contei a situação para a esposa do meu ex-chefe, durante a viagem pra Poa, e fico mais calmo. Na capital, paramos pra pegar o seu marido que assumiu o carro, já muito entusiasmado. Atravessamos a Avenida Farrapos ao som de Festa no Apê.

 

– Fabinho, hoje é dia de festa pra gente! – comemorava meu ex-patrão, o Norberto.

 

Continha-me a um sucinto “É isso aí”. Não conseguia esquecer da situação de saúde que havia deixado para trás. Entramos cedo no estacionamento do Beira. Os caminhos enlameados nos levaram até uma vaga, um pouco longe do Estádio, próximo a Avenida Beira-rio. Desci do carro e recebi emprestada uma capa de chuva do Inter.

 

– Pega aí, piá – disse Norberto, já antevendo a chuva que chegaria nos minutos seguintes.

 

Vesti a capa e segui em direção as sociais – portão 24 -, já com o grupo de colorados, que juntos, acompanhamos toda a caminhada colorada na Libertadores. Os portões nem haviam sido abertos, mas as filas já se entrelaçavam pelo Gigante. Ficamos no final da fila da superior, que, sabe-se lá como, foi parar na Rampa de acesso ao Portão 24. A nossa fila, não achamos. Milhares de colorados, tentavam organizar de forma desordenada, dezenas de conglomerados que aumentavam rapidamente. Quando os brigadianos responsáveis pela revista, começaram a subir a rampa, foram veementemente aplaudidos pelos torcedores. Fato raro. As primeiras gotas de chuva caíram enquanto tramávamos uma estratégia para furar a fila que, nem ao menos sabíamos onde estava.

 

– É simples, quando o portão abrir, todo mundo se vira. Ao invés de ficarmos como os últimos da fila da superior, seremos um dos primeiros da nossa rampa – conjecturou um dos colorados.

 

Funcionou. Antes das seis e meia, já estava sentado, aguardando o início do jogo. Tempo que usei para fazer um lanche, ficar ligado no radinho e, aos poucos, vislumbrar o Estádio ser pintado de vermelho. Começava a me emocionar. Entretanto, a cada vez que ouvia “Serviço de Utilidade Pública” ecoados pelas caixas de som, imaginava, apavorado que viria um recado para mim. Não veio.

 

Minha festa começou pouco antes da partida. Mais de 50 mil colorados cantavam alegremente “Vamô, Vamô, Inter..” a espera da entra do time. Um cântico fortalecedor, de guerra, de paixão, de luta, de apoio incondicional ao colorado. Pela primeira vez no dia, deixei cair algumas lágrimas. O Hino Rio-grandense, cantado pouco antes, foi emocionante. Mas nada comparado à força do canto dessa torcida que tinha a certeza da Conquista da América. Com os olhos avermelhados, pensavam que todos ali tinham problemas, enfrentando suas mais variadas barreiras, mas mesmo assim estavam ali. Felizes. Com o Inter. Felicidade Plena.

 

Durante as próximas horas, senti-me leve. Coisa que nem um psicólogo conseguiria com inúmeras consultas. É a Força do Inter. Força que precisou ser mostrada dentro de campo, para garantir um emocionante 2 a 2 e a Conquista da América. O melhor jogo da minha vida. A maior festa que o colorado me proporcionou. Mesmo com a situação adversa, sem beber absolutamente nada, a torcida me enlevava a momentos de glórias inesquecíveis que levarei comigo, e, certamente, contarei para meus netos.

 

Obrigado, Inter. Obrigado, Beira-rio, o Maior Psicólogo que Existiu.

 

Fabio Araujo

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Ele não merece

Ele não merece

 

Sejamos francos, o goleiro Fábio não poderia ser campeão da Libertadores. Olhe para ele, caro leitor: os olhos de criança inocente, melancólicos e indecisos, os cabelos arrepiados de adolescente ingênuo a procura de uma causa nunca encontrada e aquela proteção de pugilista que ele não sabe utilizar da forma digna como Rock Balboa, e transforma numa chupeta de infante. Não bastou nem o comportamento aguerrido de Kléber, a canhota malígna de Wagner ou a resistência etíope de Ramires: a Libertadores é uma senhora preconceituosa em suas escolhas, e sua mística não se permite a goleiros como Fábio. Por isso o Estudiantes venceu. Também por Verón e alguns outros bons e matreiros jogadores argentinos, mas sobretudo por Fábio, por sua presença, por sua atitude.

 

Não que ele tenha falhado clamorosamente; não que ele seja mau goleiro: não o fez; não o é. Mas um goleiro que uma única vez dá as costas para a bola, como ele há dois anos, é, a curto prazo, um goleiro irrecuperável. Como aqueles cães ovelheiros que experimentam a carne fresca de cujos animais devem pastorear e se transformam em seus maiores predadores, mortalmente inconfiáveis.

 

O jogo foi em seu maior tempo um tanto enfadonho. A primeira etapa era eletrizada apenas pela loucura dos torcedores e alguns pontapés e cotoveladas mútuos. No período derradeiro, enfim, se viu o futebol que levou os dois times à final. O argentino, de aproximação e progressão vagarosa mas tenaz. O brasileiro, em frenética velocidade, inversões amalucadas e dribles insolentes. Mas para voltar ao personagem principal deste texto, apenas um, dos três gols que deram o título ao Estudiantes, decorreu de falha: o primeiro dos portenhos. Verón clareou o campo adversário e descobriu Cellay solito pelo flanco direito. O competente ala centrou a bola na pequena área, Tiago Heleno não alcançou e Fábio lembrou João Gabriel em alguns Grenais no começo deste século, encurtando os braços e permitindo a Gata Fernandez derramar aquela caixa d’agua enregelada sobre a torcida Azul.

 

Ocorre que nem foi uma falha daquelas que o Mundo desaba sobre a nuca do goleiro. Mas ela não aconteceria a Marcos, Rogério Ceni, Danrlei, Dida, Zetti, Clemer (Será?), e até Carlos Germano – todos campeões da Libertadores por times brasileiros em Tempos Modernos –, não numa final. O que houve foi uma clara influência dos espíritos libertadores deste continente, os mesmo que negacearam e continuarão a negacear a Wanderlei Luxemburgo e Fernando Henrique a conquista maior das Américas. E, enquanto Fábio encarnar aquela atitude de ator da Malhação com seríssimas pretensões sobre a novela das oito, não há quem resolva.

 

Mas nem tudo está perdido para ele – está quase. Para que realmente mereça ambicionar a Copa, é preciso que raspe aquele cabelo de roqueiro emo, que avermelhe os olhos com o sangue que todo arqueiro deve exibir e, para extirpar em definitivo o ar de mancebo melancólico, deixe crescer um frondoso bigode a la Rodolfo Rodrigues. Então pode voltar a merecer a confiança de Adílson, dos cruzeireses e até a minha. Por hora, sigo exaltando minha previsão solenciosa de que em algum momento Fábio falharia de forma bizarra, o que de fato não aconteceu. Mas que foi repelido pela Libertadores como já foram tantos outros pagãos, ah, isso não há quem consiga me convencer do contrário.

 

Guilherme

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Exagerou no chiclé de tuti-fruti

Exagerou no chiclé de tuti-fruti

 

Dezenas de milhares de pessoas fizeram pactos tácitos de não espirrarem nem soltarem perdigotos nocivos à saúde alheia, tampouco dividirem copos de refrigerante; e encaminharam-se todos ao estádio Ciudad del Plata para acompanhar o entrevero entre Estudiantes e Cruzeiro. Para a sorte daqueles que não estavam infectados pelo resfriado regado a Tody que anda assombrando as autoridades competentes, o placar permaneceu imóvel até o final do jogo e impediu aqueles abraços calientes do pós-gol e outras manifestações de afeto que o grande momento do futebol gera nos torcedores. Muito disso por responsabilidade de Fábio, arqueiro de Minas, e outro tanto pela inoperância do ataque portenho.

 

O Estudiantes é aquele mesmo time traiçoeiro que quase usurpou das mãos coloradas a Sulamericana do ano passado. A defesa ganhou em lentidão e violência com a entrada de Schiavi, mas segue com a segurança do agora selecionável Andujar e do coleguinha de delegacida de Grafite, De Sábato. A meia cancha toda respira, caminha, arrota, come, dorme e copula sempre sob ordens de Sebastian Verón. Há uma carimbada arbitrária de La Brujita no caminho que a bola faz da defesa para o ataque. E o ataque segue o mesmo, baixo e árido em convicção, com Boseli como centroavante.

 

Pois ontem o Estudiantes fez uma apresentação que explica cada uma das características dos três setores da equipe: defesa sólida e açougueira; meia refém de Verón, assessorado com qualidade menos por Benítez e mais por Perez; e atacantes incapazes de tomar resoluções rápidas.

 

O jeito foi especular o gol de Fábio com bolas paradas e longos lançamentos diagonais de Verón. Logo nos primeiros minutos ele conciliou força e mira na mesma cobrança de falta espalmada pelo goleiro do Cruzeiro a escanteio. Ainda no período inicial o indolente meia Perez recebeu passe enviesado de seu capitão, tabelou com Gata Fernandez e obrigou Fábio a nova intervenção complicada. Ele ainda encerraria o rol dos bons momentos da primeira etapa num voo em câmera lenta para defender um chute parnasiano de Verón, de plástica admirável mas de clara falta de força e serventia.

 

O segundo tempo iniciou até com certo ímpeto do Estudiantes, novas investidas contra a honra de Fábio, mas sempre aplacadas com seriedade pelo guarda-redes de BH. Schiavi testou com força, mas numa altura que facilitou o tapa do goleiro, em escanteio venenoso. Boseli recebeu passe e foi novamente impedido por boa defesa do cruzeirense. Pois chega uma hora, como o ataque gremista já mostrou com competência em 2009, que as pessoas cansam, deixam de acreditar na boa fé da bola em cruzar a linha adversária. E foi o que aconteceu a patir daí com os argentinos.

 

Então os mineiros começaram a dar aqueles escapadinhas de guri travesso que conhece os atalhos pra fugir da surra . Jonathan, Gérson Magrão, Ramires e Kléber ensaboavam-se e escapuliam da marcação de meia idade de Schiavi e De Sábato, e achavam certa liberdade pelas pontas. Tanto que espremeram três chances de gol: o cabeceio cambaleante de Leonardo Silva depois de cruzamento de Jonathan; uma crise de estrabismo em Kléber, o que levou-o a olhar para a goleira e chutar para longe quando Andujar jazia inofensivo e medroso na pequena área; e uma última tentativa de Wellington Paulista, aparando, com força e sem direção, diligente passe de cabeça de Kléber.

 

Tudo terminou por adiar-se para a próxima semana, no estádio Mineirão. O Cruzeiro volta ao Brasil trazendo imaculada sua meta, o que lhe decalca na poupança um adesivo diminuto, mas importante de favorito. O Estudiantes chegará na terra de Tira Dentes com a ambição de arrancar um canino ou outro e afrouxar os molares que começam a aparecer nas bocas cruzeirenses depois do alvissareiro resultado de ontem.

 

Guilherme

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Toca aqulela do Milton Nascimento, toca!

Toca aqulela do Milton Nascimento, toca!

 

Há uns irresponsáveis que dizem dominar a arte dos fenômenos físicos, e alardeiam de forma ignominiosa e vil, encharcados do escrúpulo que a Academia lhes outorga, a tese de que dois raios não desabam no mesmo lugar. Pois a Porto Alegre da noite de ontem, embebida naquela subversão que tanto a diferencia do restante do país, provou que eles não sabem é nada da matéria da qual Albertinho é um dos pais maiores. O Grêmio sofreu os mesmos dois gols sofridos pelo Inter no primeiro tempo, providenciou a expulsão de Adílson para que sua torcida se inflamasse tal qual os rubros com a saída do pré-adolescente D’alessandro no dia anterior. E também com um a menos espremeu com certo sacrfício o empate em 2 a 2. O gosto amargo só não chegou a nossa boca pelas visões oníricas da noite quarta.

 

A atmosfera para a partida foi construída corretamente. Da convocação do torcedor, às afirmações de otimismo de dirigentes e jogadores, tudo seguiu uma métrica adequada para uma decisão. Também por isso o Grêmio controlou o Cruzeiro nos 37 minutos iniciais, articulando jogadas, rondando o gol de Fábio com algum perigo. Como se os mineiros se estendessem numa faixa central que ocupava todo o seu campo, os gremistas souberam avançar pelos flancos, pacientes, ainda que sempre reféns da limitação técnica. Assim surgiram chances como um chute de Souza que desviou na zaga, anulou Fabio, mas passou sobre o gol. Assim também Réver e Maxi López cabecearam com perigo faltas cobradas dos vértices da grande área do Cruzeiro por Tcheco. Mas sempre se pecava na conclusão.

 

E o futebol, como todos sabem, não é como Deus que sai perdoando qualquer pecadinho que vê pela frente, alisando aquela barba alva e passando a mão na cabeça de suas ovelhinhas. Não, o futebol é pagão. E ficou claro no giro competente de Kléber sobre Fábio Santos e a assistência precisa para Wellington Paulista iniciar a onda de coincidências negativas. Ela que teria sequência logo logo, com um Grêmio catatônico e o Cruzeiro confiante, Johnatan pegou nossos defensores de calças curtas e achou novamente o algoz maior, o Judas, mais conhecido como Wellington Paulista, que mergulhou no gramado do Olímpico como quem pega jacaré na solidão da água marrom e leitosa do Quintão, feito banhista de olhos abertos e sorriso maroto no rosto. Pois que ele volte pra Minas e fique escutando aquelas porcarias de Skank, Jota Quest e Pato Fu, e não nos encontremos nunca mais. Três gols em dois jogos!

 

A partir daí o jogo se transformou num daqueles enredos de filmes do Clint Eastwood. A vida é uma merda, mas pelo menos temos que passar por ela com alguma honra. Foi nessa toada que o Grêmio voltou a pressionar os cruzeirenses na segunda etapa. De forma atrapalhada e apressada, mas pressionava. O ímpeto ofensivo gerou descuidos na defesa, e num contra-ataque e mais um passe iluminado de Kléber, Adílson operou as pernas de Ramires. Era o último jogador antes de Victor, portanto estava expulso. As coincidências negativas chegavam ao fim.

 

A expulsão não diminuiu a vontade e as investidas no ataque gremista. Souza e Tcheco seguiam articulando jogadas, promovendo lançamentos. Num deles, Herrera dominou no peito e obrigou Fabio a boa intervenção. O time insistia pelas laterais, único espaço encontrado para atacar, e assim cansou de levantar escanteios para a área mineira. Réver aproveitou num cabeceio correto um deles, descontando e iniciando a fase das coincidências positivas. Fase que foi completada pelo chute pretensioso, mas consistente de Souza, confirmando-o como grande jogador do Grêmio na competição.

 

A desclassificação não é algo grave. É ruim, nunca se espera a derrota, mas o time que hoje oscila durante os jogos e perde gols em demasia, deu mostras de que pode melhorar com a sequência do trabalho de Autuori. De resto, fica o recado aos homens da lógica que ainda acreditam que a vida é um quadrado simétrico e banal: Porto Alegre mostrou que pode se travrestir de Para-raio para desmenti-los. Ainda que nem isso tenha bastado para fazer de seus filhos mais ilustres no futebol, os vencedores desta semana.

 

Foto: Terra

 

Guilherme

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