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Refinamento a serviço do Real Madrid

Nome:  Fernando Carlos Neri Redondo.

Idade: 41 anos.

Cidade Natal: Adrogué, Buenos Aires – Argentina.

Clubes: Argentinos Juniors, Tenerife, Real Madrid, Milan.

Títulos mais importantes: Ligas Espanholas (1994/95, 1996/97), Liga dos Campeões (1997/98, 1999/00).

Função: renovar a doutrina forjada em Beckenbauer nos anos 70, cuja teoria outorga ao volante a função de sustentação técnica da equpe, nascedouro maior das jogadas de ataque, e não somente de guardião do próprio gol. 

Estilo: aristocrata liberal. De um refinamento encontrado apenas nos meias de futebol mais elegante – Zinedine Zidane –, provando não haver contradição em privilegiar a técnica atuando numa posição de natureza destrutiva. O caráter monarca do futebol de Redondo rendeu a mesma postura fora de campo. Um exemplo: a resistência à poda das madeixas argentinas que o treinador Passarela promoveu na Copa de 1998. Apenas Redondo e Caniggia desobedeceram. Apenas Redondo e Caniggia mantiveram a rebeldia do rabo de cavalo. Apenas Redondo e Caniggia não foram à França.

Influências: todo defensor que privilegiu o passe lúcido em detrimento do balão estérico – Nilton Santos. Todo canhoto cuja simplicidade genial suplantou a sedução de dribles parnasianos – Gersón. O nome Fernando Carlos já indica alguma herança real, alguma carga genética orinunda de algum reino esquecido nalgum canto do interior argentino para onde deve ter voltado após encerrar a carreira em 2004. 

Relevância: figura central na mudança de paradigam sobre os volantes. Redondo assumia com frequencia a função de meia. Na marcha paciente e persistente que a habilidade incomum para o corpo longilíneo que ostenta permitia, não raro alcançava a área adversária, conciliando os desarmes obrigatórios à função com assistências de camisa 10. O caso mais marcante ocorreu no segundo jogo semifinal da Liga dos Campeões de 1999/00, em Old Trafford. Redondo roubou a bola de um jogador do Manchester, avançou para a lateral da grande área, aplicou um drible desconcertante no zagueiro Berg, algo que mesclou toque de calcanhar e meia lua, até rolar para Raul classifica-los à final. Sir Alex Ferguson, já treinador dos Diabos Vermelhos à época, perguntava para os outros, para si mesmo, para os deuses, as mãos compondo movimentos desconexos como quem pede clemência aos céus: “O que este jogador tem nas chuteiras? Imãs?”

 

Guilherme Lessa Bica

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El Loco Bielsa, aquele senhor desavergonhado e corajoso que já treinou a Argentina e hoje é o comandante Kamikaze que levará o Chile a mais uma Copa, manteve sua postura insana e atacou o Brasil sem pudores, mesmo fora de casa. É verdade que jogávamos com alguns reservas, sem Kaká, Luis Fabiano e com Julio Baptista com a 10 (Pecado mortal!). Mas havia Nilmar, que começou a cavar com suas pernas de gazela a cova de Robinho, e Daniel Alves, cuja atuação mostrou uma capacidade de adaptação em qualquer posição – ambos responsáveis maiores pelos 4 a 2.

 

Nos demais jogos das Eliminatórias Sulamericanas, o Equador, presença certa nas duas últimas Copas, confirmou a recuperação engendrada no segundo turno com a vitória por 1 a 3 sobre a Bolívia na estratosférica e nada oxigenada La Paz. Já em Assunção, Maradona novamente cumpriu seu papel de estátua cover de Almodóvar à beira do gramado e assistiu sua seleção perder mais uma. Valdés classificou o Paraguai e rebaixou os portenhos ao constrangedor quinto lugar.

 

Confere aqui a classificação. E abaixo as cenas mais marcantes dessa rodada.

  

 

Conto de Fadas: Dunga, o Anão, e Shrek, o Ogro

Conto de Fadas: Dunga, o Anão, e Shrek, o Ogro

 

Daniel Alves mostra que tamanho não é documento

Daniel Alves mostra que tamanho não é documento

 

Paraguaio de cavanha sonhando em desatolar o short

Paraguaio de cavanha sonhando em desatolar o short

 

Paredes, um herói brasileiro

Valdés, um herói brasileiro

 

Melhor que enterrar a sogra

Melhor que enterrar a sogra

Guilherme Lessa Bica

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Depois de um longo hiato, volto a publicar uma crônica da série A Melhor Copa. A figura central, Diego Armando Maradona, e sua extinção precoce, ao menos para um garoto de nove anos que recém fora apresentado ao seu futebol. Os outros textos da série podem ser conferidos aqui.

 

Canhota sem paralelo

Canhota sem paralelo

 

Aos nove anos, invejava os canhotos. Ambicionava ainda ser jogador, e tinha, de fato, para um guri dessa idade, algum talento. O sonho de vingar no futebol esmoreceu junto de tantos outros, mas minha relação conflituosa com aqueles que chutam de canhota permaneceu. O canhoto é um torto, ainda que simétrico. Dependente crônico de uma só perna, mas tão hábil com ela que dispensa a utilização da outra – andaria como saci caso fosse possível. Lá em 1994, havia Carlos Miguel surgindo no Grêmio; Neto começava um regime de engorde cujo final seria a aposentadoria; e Sávio aparecia no Rio com suas pernas frágeis de dribles tenazes. Mas o maior de todos eles finalmente deixaria de habitar somente meu imaginário mirim. Aquele que conhecia apenas pelos relatos de meus pais e tios estaria em campo naquela Copa, para temor e despeito de meus parentes ainda assustados com o Mundial da Itália: Diego Armando Maradona, o 10 argentino, de lembranças trágicas para Lazaroni.

 

Aquela Argentina o tinha como maestro. Um maestro rebelde, onipresente, egocêntrico, embrenhado em escândalos com entorpecentes, mas de futebol superior a quaisquer ou eventuais desvios de caráter. E foi assim que Maradona conduziu seus asseclas nas duas primeiras partidas. A estreia, mesmo que sempre nervosa, era uma baba. Os gregos ainda estavam longe de formar o time eficiente e maduro que venceu a Euro de 2004. Os portenhos, por outro lado, ruminavam ainda o vice campeonato de 1990, sedentos por chegar a uma inédita terceira final consecutiva – o que não conseguiriam e, para desespero deles, nós o faríamos em 2002. O 4 a 0 saiu naturalmente, inclusive com uma bucha de Maradona, depois de troca de passes insiuante, como só os argentinos – maledetos! – sabem fazer.

 

O jogo seguinte já trazia consigo uma carga maior de dificuldade. Não se sabia, como ainda não se sabe ao certo, o que esperar de uma seleção africana. Os nigerianos estreavam em Copas, e como todo jovem, não sabiam dosar suas forças, entregavam-se desde o primeiro minuto de forma inequívoca. Assim abriram o placar e ameaçaram derrotar os argentinos. Mas quem acompanha futebol sabe que a fadiga precoce compromete qualquer time. Nem os talentos de Okocha e Anikashi souberam lidar com o cansaço. E Caniggia virou o jogo, sempre coordenado por Maradona.

 

Ao final desse embate, um silêncio trepidante perpassou as salas, os bares, qualquer espaço social brasileiro. Maradona voltara. Renascera das cinzas ainda não completamente cicatrizadas de quatro anos antes. Acima do peso, mais lento, com alguns litros de álcool e quilos de entorpecentes a mais transitando no sangue, mas sem jamais perder a presunção que identifica os craques.

 

Então a cena que realmente ficou nítida em minha memória aconteceu. Como tantos outros brancos do primeiro mundo que o haviam estendido a mão supostamente amiga para logo abandoná-lo no meio da selva antropofágica da imprensa, nos tempos de Napoli e Sevilha, uma enfermeira de cabelos loiros e pele alva, com ar inofensivo, como todas as enfermeiras têm, conduziu com zelo Maradona ao teste de dopagem. Acabava ali o sonho argentino de ser tricampeão. No mesmo dia ou no seguinte, a Fifa anunciava que ele utilizara Efedrina, substância encontrada em remédios para acelerar o metabolismo, cuja finalidade seria diminuir aqueles visíveis quilos de sobra.

 

Ainda assisti ao jogo entre Argentina e Romênia pelas oitavas de final. Hagi, Monteanu, Popescu, Dimitrescu e o restante daquela competente seleção romena fizeram troça de um time órfão. Confesso que até torci pelos argentinos, possivelmente por perceber que não passariam às quartas, que mais um degrau, talvez o maior deles, não era vencido, mas fora extirpado de nosso caminho. A Romênia, de Hagi, outro canhoto que merecerá uma crônica dessa série, cairia diante da Suécia, e o enlace feliz do enredo todos conhecem. Mas uma frustração nasceu em mim naquele dia. A partir dali, descobri que ninguém passa impune à morte futebolística de um grande craque.

 

Guilherme

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FifaFever

 

O futebol deixou de ser apenas um esporte para tornar-se fenômeno social há muito tempo. E talvez a Copa do Mundo seja a síntese dessa afirmação. Para entender isso, o livro Futebol ao Sol e à Sombra, do uruguaio Eduardo Galeano, é a fonte ideal. Mas quem quer apenas admirar lances, times campeões e ídolos, sem muita preocupação com o que não está sendo dito ou a forma com que está sendo, existe um documentário imperdível.

 

FIFA Fever (2005, 195 minutos, narração em português do inacabável Orlando Duarte e sim, foi produzido nos States) é um documentário que pretende comemorar o centenário da entidade máxima do futebol – 1904 / 2004 – contando histórias de todas as copas disputadas até aquele momento, desde 1930 até 2002. A Hungria de 54, a Holanda de 74 e 78, o Brasil de 58, 70, 82 e 94, a Argentina de 86, a Alemanha de 90… Todos esses grandes times famosos estão lá, mas lado a lado com ilustres desconhecidos. Para alguns isso tira o brilho do projeto. Para outros este fato torna este documentário muito mais saboroso.

 

Confesso que pensei em apontar alguns pontos negativos do filme, como o pouco tempo destinado à grandes craques e para jogos clássicos e finais. Mas imagine ter de contar a história das Copas em duas horas, que é o tempo do documentário sem os extras? Tarefa inglória e que nunca agradaria a todos. Pensei também em elogiar muito a produção, mas com o material que os velhinhos lá da Suíça liberaram pros produtores, era praticamente IMPOSSÍVEL fazer algo ruim. Mais ou menos como um diretor de cinema estragar um filme do gênero “assaltantes charmosos, corajosos e sedutores”. Tem que se esforçar para conseguir!

 

 

O filme é dividido em várias capítulos e listas dos 10 mais, que vão auxiliando na amarração da narrativa. Desde os óbvios maiores técnicos (Zagallo, Guus Hiddink, Bora Milutinovic, Bilardo…), goleiros e defesas monumentais, (Yashin, Kahn, Carbajal, Banks…) e craques com lances de encher os olhos (Pelé, Maradona, Cruyff, Platini, Zidane), até listas inusitadas e com lances e imagens pouco vistas, como os 10 maiores gols de fora da área e as dez maiores “trapalhadas” (Gíria Sessão da Tarde), tudo bem ao estilo americanóide de ver o Soccer.

 

Mas dois capítulos em especial chamam a atenção, até pela estranheza: vários minutos falando sobre as Copas do Mundo de futebol feminino (domínio total dos EUA, daí o fato de darem tanta importância) e sobre os Mundiais Sub-20! Como Brasil e Argentina são os focos deste segmento, é possível reconhecer vários jogadores que hoje são estrelas, outros que até já pararam e alguns que sumiram do mapa. Alguns exemplos: D’alessandro, Saviola, Pablo Aimar, Nilmar, Daniel Carvalho, Ronaldinho Gaúcho, Dudu Cearense, Norton, Dunga, Simeone e por aí vai…

 

FIFA Fever é um belo documentário sobre futebol. Porém é indispensável para quem gosta do esporte mais popular do planeta (há controvérsias…) pelas imagens inéditas dos mundiais disputados na primeira metade do século. Gols de jogos obscuros do torneio disputado no Brasil em 1950 são apenas um aperitivo para cenas recuperadas da Copa de 1930, a primeira, jogada no e vencida pelo Uruguai. E ainda algumas imagens da Celeste Olímpica de Andrade “Maravilha Negra”, campeã dos Jogos de 1924 e 1928. Emocionante para quem só conhece esses jogadores pelas páginas de livros, como o de Galeano.

 

Felipe Conti é colorado, gaúcho, canoense, goleiro, esquerdista, aspirante a jornalista. Nascido para ser do contra, desde março de 86. Escreve costumeiramente no Grenalzinto e, a partir de hoje, é titular das sextas aqui do Tisserand.

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