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Archive for outubro \26\-03:00 2006

Concurso Literário

Peço licença aos leitores do Blog, para externar minha felicidade em ter sido escolhido um dos vencedores do Concurso Literário do Inter “Histórias Coloradas – As 100 melhores histórias campeãs da América”. Devido a normas e regulamento, não posso divulgar o texto, que fará parte do livro a ser lançado na Feira do Livro de Porto Alegre. Mas enfim… É com muito orgulho que recebo esta primeira premiação. Valeu, Inter.

Todos sabem o quanto essa conquista foi importante para mim – e para toda a Massa Colorada. Agora, ter a oportunidade de contar em um livro tudo o que aconteceu, junto de pessoas como Fernandão, Sóbis, Tinga, Clemer… É algo que nunca imaginaria acontecer.


O Livro

O livro “Histórias Coloradas – As 100 melhores histórias campeãs da América” será composto de histórias de 100 diferentes colorados, estando entre elas as de todos os jogadores campeões, comissão técnica e dirigentes do departamento de futebol do Sport Club Internacional. Um livro para eternizar os momentos engraçados, inusitados, dramáticos e felizes da maior conquista dos 97 anos do Inter.

Fabio

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Anti(doto)

Acabo de aderir ao novo. De soltar as amarras que apertavam meus punhos e a coleira que me rotulava de ideologias. A história acabou há vinte anos; queda de muros, fim dos camaradas? Pois agora eu me incorporo a neopolítica. Chega de ser a favor, chega de clamar por uma vida mais digna para todos, de chatear os empresários cobrando mais do que a esmola da responsabilidade social. Chega de pegar a bandeira, vir pra rua e participar. A moda nestes nossos tempos é ser anti. É criticar sem fundamento, acumular argumentos vazios. Isso. Quem conseguir enfileirar o maior número de palavras numa mesma frase sem expressar o menor conteúdo ganha.

Por isso já defini o meu lado. Ocupei o meu chão e risquei a giz: daqui eles não passam. Eles são todos aos quais eu sou anti. Sou antiPrivatizações, antiCidadãodeBem, antiConstruçõesdePresídios, antiManiqueísmoSocial. A lista carece de nomes próprios. Mas certamente eles estão representados nessas medidas e práticas acima. Na sua arrogância e vacuidade política.

Para ilustrar a minha campanha vou confeccionar um adesivo inspirado naquele de quatro dedos destinado ao Lula. Resta apenas uma dúvida: desenho o sorriso de Coringa da Yeda ou as narinas infinitas do Geraldo?

Uma última observação: não sou antiPT. Seria clichê demais.

Guilherme

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Inerte Compaixão

Ela acorda todos os dias no mesmo horário. 7h15. A alvorada ensolarada a deixa bem humorada. Levanta, veste suas roupas, toma um rápido café da manhã, e, a pé, segue em direção a escola. O seu allstar vermelho, já desbotado, parece deslizar nas calçadas desniveladas, de forma sincronizada com a música “todos estão surdos”, – versão da Nação Zumbi -, que em altos decibéis, toca em seu I-Pod. Veste uma saia longa, de tom marrom claro, e uma blusinha azul, de marca qualquer. Vive o auge dos seus 17 anos. Com pernas alongadas e delineadas, poderia tranqüilamente se enquadrar no padrão estereotipado de beleza, se não fosse uma mínima saliência no abdômen. Ela não liga.

No caminho, se distraí com a paisagem não muito atrativa, observando pessoas com aparência estressadas, movendo-se rapidamente, como minhocas em um balde de pescaria e recorda com pesar que não teve tempo de arrumar seu quarto. É organizada. Na cabeceira, deixou recostado o livro 100 Anos de Solidão, marcado nas páginas finais. A penteadeira abriga alguns porta-jóias e um porta incenso. Abaixo do mural de fotos, guarda seus livros prediletos: Garcia Marques, Galeano, Marx, e Machado de Assis. Almeja um futuro promissor. Sonha poder ver mundo melhor.

Ao atravessar a rua, percebe um olhar libidinoso proveniente de um rapaz vindo no sentido contrário. Ao se cruzarem, o jovem torce o pescoço ao máximo, para continuar apreciando as suas curvas. Ela ri. Até da uma olhadinha para trás, para retribuir o gracejo… Mas, acaba encontrando um ícone de miséria, e esquece o garoto.

Qualquer menina de sua idade, nem ligaria para o indigente. Ela sentiu-se mal. Sabia que tinha uma parcela de culpa.

Entendia que colocar as razões deste problema somente no governo era muito cômodo e não resolveria absolutamente nada. E, pensando nessa situação, seguiu seu caminho.

A imagem voltava em sua memória castigando sua consciência. “Você que está sentado, levante-se! Há um lider dentro de você!!! Deixe-o falar…”, convocava o vocalista da Naçao Zumbi, em seus fones de ouvido. Era a música adequada ao momento. Ela queria isso… Despontar em uma liderança para ajudar a quem precisa, mostrar a si que a vida tem algum sentido, sentia-se motivada. Apesar da humildade, estava convicta que era acima da média. No entanto, precisava colocar o que sabe em prática… “Deixe-o falar”, insistentemente pedia o cantor. Ela não deixou. Desligou o rádinho, respondeu a chamada e silenciou.

Por que? …

Ela acredita que este dia irá chegar. Um dia sem desculpas bobas, sem dúvidas nem “pé atrás”. Sabe que pode. Porém, enquanto isso não acontece, continua com sua rotina, lendo muito para fugir do tédio e, também, para estar municiada de conhecimentos para quando for necessário. Aonde vai, leva consigo as frases ouvidas naquela ocasião.

Você que está sentado, levante-se. Há um líder dentro de você!!! Deixe-o falar.

Fabio

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Deserto Verde, Imprensa Marrom

A cobertura jornalística da invasão à Aracruz Celulose, em março de 2006, será tema do seminário Deserto verde, imprensa marrom, que acontece dia 9 de novembro, às 18h30min, no auditório da Faculdade de Comunicação da Ufrgs – Ramiro Barcellos, 2705, em Porto Alegre.

A programação começa com a exibição do documentário Rompendo o Silêncio, que trata da mobilização e articulação entre Movimento das Mulheres Camponesas, MST, Movimento dos Pequenos Agricultores, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral da Terra e Movimento dos Atingidos por Barragens.

A entrada é gratuita.

Fonte: Portal 3

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Desencanto

Um dia o desencanto simplesmente invadiu a casa e estirou-se pelos cômodos. Um dia ele reparou nos olhos marrons que tanto lhe fizeram bem e chorou pela indiferença que sentia: os matizes que antes brilhavam com deleite estavam desbotados e enfraquecidos.

Um dia ela deixou o tempo escorrer longe dele. E na solidão prolongada esvaiu-se em desejos promíscuos. Os segundos, os minutos, as horas passaram vagarosamente. Num frescor desconhecido e sedutor.

Guardaram as fotografias, dividiram os cds, rasgaram as poesias; e a lembrança desmoronou aos poucos, como os grãos fininhos e nada apressados de uma robusta ampulheta.

Monologaram em diferentes locais da cidade; sob o som da televisão e o estalido sincronizado do relógio: enfim, sós.

Guilherme

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Eleições “Indiretas”

Nos últimos dias, vêm acontecendo diversos debates políticos, tanto em âmbito Estadual como Nacional. Assistindo o “Bigode” limpar sua marca registrada durante um dos enfrentamentos contra os tucanos, essa semana, lembrei de um pleito histórico, ocorrido em 1998, que marcou a minha vida. A escolha dos líderes da Turma 82.

Era uma manhã de sol. A aula transcorria normalmente, até que, a professora de português avisa que em breve aconteceria a escolha dos representantes de turma. Prontamente, criamos a nossa chapa. Lançamos o Pitt como candidato a líder, e eu como vice. (No caso, eu já tinha experiência no cargo – era vice-líder da turma 72). Já o Jonas, lançamos sem “histórico político” nenhum. Apesar das eleições serem diretas, os colegas votavam no Líder e no Vice, como acontecia nas eleições anteriores – pelo menos, em Guaíba.

Deixando de lado os partidos nanicos, a nossa candidatura era forte. Representávamos a esquerda – sem saber. Dois jovens vindos da classe média adentrando em um centro de ensino da Burguesia. Éramos audaciosos. Quase revolucionários. Na verdade, não. Surgíamos apenas como opção para derrotar a outra chapa, que também vinha forte, com dois integrantes da classe alta, famílias renomadas, carros importados e muita “pavonisse no corpo”. Sabíamos de nossas limitações e nossos pontos fracos (O Pitt chorava nas aulas de matemática), mas fomos convictos de obter a vitória.

Começa a votação. Primeiro voto:

– Fulano e Ciclana.

A burguesia começou na frente. Chegou a ficar a 4 votos a 0. Até que começam a entrar os votos dos nossos eleitores, e começamos a emparelhar a briga. Vibrava, olhando para frente, sem olhar para os adversários. O ponto baixo é que nossos votos já tinham entrado e ainda estávamos atrás.

– A “Nata” guaibense, como diria a diretora da Escola, não colocaria dois pobretões em um cargo destes, – já lamentava.

Foi aqui que começou acontecer um fenômeno estranho.

– Fulano e Fábio.
– Fulano e Fábio.
– Fulano e Fábio.
– Fulano e Fábio.

Ria sozinho. Era o reconhecimento do trabalho feito no ano anterior. Meus olhos brilhavam. Meus ouvidos pareciam mais limpos do que nunca, ao ouvirem a voz irritante da professora, citando meu nome. A partir do 15º voto a favor comecei a comemorar abertamente. Não tinha mais como perder. Lamentava pelo Pitt, mas ficamos, ao menos, com um representante. Creio que aquele choro na aula de matemática o eliminou.

Na saída para o recreio, recebia os cumprimentos da turma, alguns tapinhas nas costas de quem eu tinha a plena certeza que não tinha votado em mim, mas gostava mesmo assim. O líder, representante da burguesia, veio me parabenizar – até já não achava ele tão chato.

A candidata derrotada, não sabia perder. Os olhos enegrecidos, raivosos, me acompanhar até a saída do pátio. Em voz alta, e com dedo em riste, questionava quais eram os meus projetos para o ano.

– Não, Não. Não tenho projeto nenhum. Só queríamos um representante. – serenamente, respondi.

Bufava. Saiu como um touro brabo, alertando que ia reclamar com a direção. Não deu em nada. No fim, o mandato da burguesia e do proletariado foi bem razoável. Organizamos uma viagem ao Beto Carrero e alguns outros passeios.
Hoje, considero a nossa atitude de entrarmos em um pleito sem nenhuma proposta, algo meio leviano. Infantil. Afinal, tinha 14 anos. Se bem que, se olhar para os candidatos a alguns deputados eleitos… Me vem na cabeça uma publicidade de um colégio de Porto Alegre.

Fabio

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Política e Esporte

FOTO – INTER

Bonita, a foto tirada no Estádio Beira-rio, no último domingo, 8, antes da partida Inter e São Caetano. Só mesmo o Inter para colocar tão próximos o dep. estadual Mano Changes(PP), e a deputada federal mais votada no Estado, Manuela D´ávila (PC do B).

Uma demonstração sadia da união entre política e esporte. Confesso que até então, não sabia o time da Manuela. Subiu no meu conceito. Já o Mano Changes, tinha o conhecimento que é conselheiro colorado coisa e tal. Mas até aí tudo bem. Clube é clube, política é política.

Manuela com a sua “cara da mudança”, como diria a Jussara Cony, chegou a mais de 270 mil votos, sem mencionar uma vez sequer o clube que torcia. O recorde surpreendeu muitas pessoas que não conheciam o seu histórico. Não votei nela, pois já tinha candidata, mas sei de sua representatividade no seu partido, na direção da União da Juventude Socialista (UJS), enfim… Não chegou no Congresso por acaso.

E o Mano Changes? Qual seu histórico? Musico.. Conselheiro do Inter? ( se alguém souber outra coisa, comente!). Acho muito válida a iniciativa do deputado progressista em ingressar na política. Também não votei nele, mas como dizia o seu jargão. “Chega dos mesmos”.. Fico pensado aqui, assim como foi tentado com o vinho, será que ele irá sugerir transformar maconha em alimento? “…maconha no almoço, maconha no jantar. Maconha ta virando produto alimentar…” Piadinha de mau gosto. OK. A minha indignação com Changes deu-se nessa semana. Estava assistindo um programa destinado ao público jovem, no canal 36, onde ele discursava solenemente falando da importância da educação, usando frases de efeito, e aquelas “prontas” de político. Até aí ia bem. Entretanto, quando a apresentadora pertinentemente questionou sobre a ligação “Mano x Inter x Assembléia”, ele desconversou dizendo que isso não era assim, que têm muitos eleitores gremistas, e que não faria nada em prol do Inter, e coisas do tipo. Peraí. Lembro perfeitamente de receber mais de cinco “santinhos” em um jogo apenas (Inter e LDU), se bem me recordo, com a seguinte frase. “Inter Forte: No Brasileiro, Na Libertadores e Na Assembléia, com uma foto do candidato beijando o símbolo do glorioso Internacional. Será que ele esqueceu? “Inter forte na Assembléia”. Só pode ter esquecido.

É uma pena. Mas ele não é o único. Creio que os outros, pelo menos, não esquecem do que fazem. Como sócio colorado, recebi no mínimo três cartas fazendo alguma ligação entre o meu time e um candidato X. No rival acontece o mesmo, lá pela Azenha ocorrem até mesmo invasões de campo, que, certeiramente dão ótimos resultados nas urnas. É lamentável a atitude de alguns políticos que misturam a paixão pelo futebol, com a política.

Bem fez o Homem do Tempo. Sem precisar se envolver com nenhum clube foi eleito o deputado estadual mais votado do Estado. Como diria meu sogro, “É dose pra elefante”.

Fabio

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O Fim do Bairrismo

O gaúcho, por natureza, considera-se melhor que o brasileiro. Não que seja, realmente melhor. Mas, costumeiramente reconhece um feito realizado por um gaúcho, como de maior valor do que o mesmo feito, realizado por um brasileiro “qualquer”. Um bairrismo sadio. Prepotente. No esporte, esta tendência aumenta. Caso o Inter seja roubado por um time paulista, certamente os gremistas vão cornetear à vontade. Entretanto, após, reconhecerão os “erros” e irão afirmar que os gaúchos sempre são prejudicados. Uma defesa bairrista.

A Daiane dos Santos. Ah essa é gaúcha. O Ronaldinho Gaúcho (sem comentários), a miss universo, o Dunga, Bento Gonçalves, Gomes Jardim.. enfim, todos gaúchos. Glória gaudéria.

-E o Getúlio?

Claro. O Getúlio é gaúcho. Saiu dos pampas para acabar com o “café com leite”. E as leis trabalhistas hein? Hein? Dalhe chimarrão. Na política ainda têm o Brizola, o Simon (para alguns), “Rigottos, Brittos e Olívios” e por aí vai. No pleito deste ano o Rio Grande está prestes a romper uma grande barreira, (machista, talvez) elegendo a 1ª governadora da extinta Republica Rio-grandense. No Estado Machão, uma mulher. Vejam só. Conforme pesquisas recentes, a candidata da Coligação Rio Grande Afirmativo tomará as rédeas e comandará os pampas nos próximos quatro anos. Sem entrar em uma discussão política, temos que reconhecer como um grande feito. Seria o auge para o povo gaúcho se vangloriar. Entretanto, deverá sofrer um pequeno demérito. Ela é paulista.

Fábio

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Um dia daqueles

“… pé canhoto na bola pra Fernandão, Tinga de cabeça no poOOOSTE, sobro pra Sóbis atiro e GGgoolll… gGOOOOOOOOOOOOL… É DEMAAAIS… É DEMAAAAAIS.. O Inter liquida o São Paulo, o Inter rasga a camisa do São Paulo e Pisa nela… O inter humilha Campeão do Mundo…” Este certamente foi um dia daqueles.

Um dia daqueles para o sê-lo tem que marcar nossas vidas, nos induzindo a rir sozinho, apenas pela sua lembrança; tem que nos remeter a apreciar pequenos detalhes, muitas vezes imperceptíveis – pelo menos no momento em que acontece – e, principalmente, têm que nos passar aquela vontade de voltar no tempo, revivendo tudo o que aconteceu, sem mudar um detalhe sequer.

Dia destes, começou em uma quente tarde de verão, aqui em casa. Os raios solares adentravam pela janela estrategicamente entreaberta, para anão causar reflexo na televisão, que rodava o DVD do Eric Clapton. Tomávamos sorvete de R$ 1,99. Eu e o Luciano. No dia anterior, tinha sido seu padrinho de casamento no civil, mas, no momento preferíamos não tocar no assunto, soltando apenas comentários superficiais sobre o futuro da dupla Gre-Nal, ao invés de transparecer nosso nervosismo, que antecedia o matrimônio. Quando o Clatpon iniciou serenamente o solo de Wonderful Tonight, em sua guitarra alaranjada, dei uma coçada na cabeça e não resisti.

– De hoje não passa negão.
– To bem tranqüilo, até – enganava-se.

Só não dei um trago nele – e, conseqüentemente tomei – porque havia prometido pra minha cunhada que não faria. Pelo Luciano, teríamos começado cedo.

Conforme combinado antes de seguir para a Igreja, fomos à casa de minha noiva. Encontro-a, linda em seu vestido azul, maquiagem feita, cabelo arrumado, e… Muito nervosa. Ao encontrar minha sogra, fico surpreso. Trajava um vestido de tom avermelhado, forte, denso, de destaque, que caiu muito bem, por sinal, entretanto, jamais imaginaria vê-la vestida desta forma. Ali, tive a certeza que seria um dia daqueles.

Na igreja, o clima tenso dos familiares mais próximos era bem semelhante a angustia da torcida colorada nos minutos finais entre Inter e São Paulo no Gigante. A diferença era que desta vez não estava de mãos atadas. Além de padrinho, assumi o papel de mestre de cerimônias, acertando horários de entrada, músicas e coisaetal. Não estava tão carregado, mais.

Nervosismo que, voltaria minutos mais tarde. Na entrada dos Padrinhos, a música solicitada, não rodou. Eu e a nega ali. Esperando. Foram os piores 90 segundos do dia. Dezenas de pessoas olhando para nós com as caras “Mas por quê que eles não entram, hein?”. Constrangedor. Usei a minha costumeira tática de olhar para os pés, ou fixar um ponto no nada.

Foi uma cerimônia bonita. Apesar do calor. Na saída, eu e meu sogro invertemos as posições e saímos atrás da noiva – só os mais chatos perceberam.

A FESTA

Tive a grande honra de conduzir o veículo que levou os noivos até o Salão de Festas – quer dizer, teria… Se tivesse habilitação – então, deixei a bronca com a nega. A janta foi servida, e, assim como minha sogra, não consegui comer nada. Detalhe: Ela não bebe.

Lá pela quarta ceva já me sentia à vontade para passar o sapato do Lulu, pedindo grana. O máximo que consegui foi uma de vinte, e uma camisinha de chocolate – valor simbólico, ao menos. No percurso, uma singularidade.

– Meu amigo jornalista! Como vai a Tribuna, aquele nosso jornal comunista… ???, alegremente questionava um tio emprestado, de mais idade, da nega.
Na verdade, ele confundiu a Tribuna do Povo, do pilantra Reginaldo, com algum jornal comunista da sua época. Não tive coragem de desmentir e digo até hoje que vai indo numa boa.

Por motivos óbvios, naquela noite, o Luciano estava eufórico.

-Tu é meu parceiro – e enchia meu copo de ceva, por várias vezes.

Eu, como padrinho, retribuía a homenagem e o servia também. Menos de duas da manhã, já estávamos para lá do aconselhável. Dançava alegremente com a nega, não querendo que a noite terminasse, enlevado com a motivação do Tio Paulinho, disparado o mais sorridente de todos. Em meio a uma música que não me recordo, percebo a aproximação de desconhecidos.

– Fábio, tão te chamando ali.

O pessoal criou um “queijinho” em uma das mesas.

– Sobe. Sobe. Sobe.

Fui no embalo. Apesar da dificuldade pra subir, consegui me equilibrar bem. Com estilo até, ensaiando alguns passos sobre a mesa, agradando, ao menos, a minha sogra, que na entrada do Salão, me fitava sorridente. Terminada a canção, meus olhos alcoolizados, procuravam um local adequado para descida, como um cachorro que se prepara para um salto.

– Não pula. Não pula – pedia, a recém-casada.

Pulei. E não cai. Senti-me tão seguro que faria um quatro se fosse preciso. Creio que passaria por são, se não fosse um inoportuno pedido de uma colega da noiva, para que eu anotasse um número de telefone celular. Por azar, – não lembro porque – tinha que gravar em um cel que não era o meu.

-É 99…

Errei. Putz. Vamos de novo, pensei.

– 99…

O cel não cooperou.

– Bahhh. O Fábio já ta bêbado – caçoava a diretora do Vila-Lobos.

Não passei pelo segundo teste.

Na volta pra casa, lembro de pouca coisa. Mirei uma mancha escura, – provavelmente de mofo – que se destacava num muro, atrás do carro e a segui. Em linha reta. Cheguei no veículo e ninguém percebeu meu estado. Sabia disfarçar.
No dia seguinte, o Luciano acordou podre do estômago. Eu até não. Ia passar batido, se não fosse a lembrança da sogra.

– Ontem o Fábio veio pro carro tortinho – brincava, defendendo a ressaca do Luciano.
A minha tática de olhar para o muro não funcionou. Depois entendi.

É que se tratava de um dia daqueles.

Fabinho

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Inadequado

A cada dia que saio na rua me sinto um pouco mais inadequado; anacrônico; obsoleto; ultrapassado. É muito fácil se sentir assim. Não tenho a pretensão de ser vanguardista. Experimente. Avance pela calçada, caminhe alguns passos, não precisa ser muitos, logo os seus ouvidos reconhecerão o barulho. Tum-tum-tum-tum-tum. E como treme aquele carro. Não sei se anda mais para frente ou para os lados; rebola – talvez seja o desejo secreto do dono – ao som de uma música cantada numa língua estrangeira, completamente ininteligível para ele. Ou pior. Toca Racionais Mcs. Ele deve pensar que o Mano Brown é americano. Canta em inglês, como outros tantos que aparecem na MTV. Não consigo acreditar que ouça as músicas, que preste a mínima atenção nas letras. É só tum-tum-tum-tum. E o Mano Brown grita: “Eu não preciso de status nem fama / seu carro e sua grana já não me seduz / e nem a sua puta de olhos azuis”. Ele sorri para a loira ao seu lado. Ela eleva uma das sobrancelhas. Tenta fazer alguma ligação da música com a realidade. Tenta pensar. Fracassa. E sorri de volta.

A cada dia que saio na rua e não tenho ao meu lado um pitt bull, me envergonho. Aquela masculinidade toda que recende de sua expressão viril, os músculos das patas bem torneados, os olhos febris e inquisidores. Nunca vi cachorro nenhum provocar briga. Até essa raça ser criada. Ele deve pensar: vou tirar esses humanos desprovidos de caninos tão perfeitos pra otários; esses trouxas e medrosos bípedes; esses frágeis e desarmados idiotas. E abocanha uma perna com sua mordida de tubarão. Não é a raça, é o dono que faz ele ser violento. Não acho. Nesses casos acontece exatamente o contrário: o cachorro é o cérebro da dupla. É o único que pensa. O outro rumina esterco na cabeça. Fedorenta e inútil.

A cada dia que saio na rua desejo ter ficado em casa. Mas quando fico em casa ela treme. Vou até a janela. O vidro gagueja a sua tepidez. Há alguns descerebrados lá embaixo. Inclinam o corpo no banco do carro. Uma mão na direção. A outra coçando o rosto imberbe. O rádio esgarçando a voz do Mano Brown. E o Golf vermelho se arrastando a centímetros por hora. Cumprimenta o filho do dono da loja de roupa. Cumprimenta o filho do dono da empresa de papel. Cumprimenta o filho do traficante (de madeira). Cumprimenta o filho do secretário de segurança. Cumprimenta o filho do dono da cidade. Cumprimenta a si mesmo no espelho retrovisor.

deixo a janela. ligo a televisão. desligo a televisão. volto à janela. é mais divertido. cumprimento um aba reta. cumprimento um vira-lata sarnento. cumprimento o rio, o sol, o céu e aquele retardado do Golf vermelho. ele faz que não me vê. eu não ligo.

Guilherme

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