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Archive for outubro \06\UTC 2008

Dia destes andei pelo bairro. Pra respirar o ar daqui, me acostumar com ele. Era dia de jogo do Inter. Jogo no meio da semana com horário de final de semana. Saí atrás de uma papelaria, e já palmilhara três quadras sem nenhum sucesso. Caminhar por um lugar desconhecido é o mesmo que escutar uma letra de música pela primeira vez. Decora-se o trajeto recém percorrido por uns poucos segundos; ele desliza por alguma prateleira delgada do cérebro, até se fazer a curva na próxima rua ou verso, e esquecer do antecessor sem culpa alguma.  

 

Dia destes andei pelo bairro sem pressa. Tava de camisa e bermuda, havaianas nos pés. Um aspecto e andar de vagabundo. Não é fácil simular as duas coisas. O ócio é uma arte em extinção em nossos dias. Passei por outros vagabundos muito mais convincentes. Mas são vagabundos por questão de classe. Andarilhos cujos corpos desconhecem um banho há semanas. Senti que eles me reprovavam. Caminhava já com dificuldade, as pernas assimétricas, como qualquer pessoa normal fica quando está sendo observada por mais de um espectador. Sobretudo espectadores que nos reprovam.     

 

Dia destes saí pelo bairro e pisoteei as calçadas marcadas pelas frutas que despencaram das árvores e foram esmagadas por pedestres apressados. Eu não esmago frutas na calçada. Eu e meus companheiros que me reprovam. E não sou mais convincente que eles: barba feita, cabelo aparado; e cruzando com muitos colorados. Era dia de jogo do Inter, acho que já falei. As camisas vermelhas desfilavam pelas ruas. Camisa do Aguirregaray. Camisa do Célio Silva. Camisa do Leandro Narigudo. Camisa do Negão Maurício. Camisa do Gato Fernandez. Camisa do Fabiano Cachaça. Camisa do Fernandão. E nada de camisa do Grêmio. Devia ter posto a minha. Sabia que a tarde de jogo do Inter e a semana de Gre-nal atípico (eufemismo gremista, claro) não ajudavam.

 

Mas quando já havia desistido de encontrar algum incauto tricolor, um barzinho imundo, desses de mesas ensebadas, moscas sobrevoando garrafas abandonadas e balconista bigodudo, um desses barzinhos me salvou. Ele já estava bêbado. Quatro garrafas de cerveja vazias depositadas sobre a mesa. Olhar perdido. Perdido na única latinha em sua frente. E na única latinha em sua frente, o azul sagrado do Grêmio. O azul da resistência. Um velho, cabeleira branca, rugas de cansaço, um rosto que denuncia um possível passado reacionário, sabe-se lá –  pelo asseio, pela sobriedade, pela parcimônia, embora ébrio -, esse velho encarnou alguma revolução naquele momento. Não importa qual, encarnou a subversão, ao menos pra mim. Ele era uma ilha tricolor e nem parecia notar. Impediu que a latinha fosse retirada, protegeu-a, cercando-a com as garrafas vazias. Observou por mais uns segundos o dono do bar que tentara despir a mesa do azul do seu Grêmio há pouco, e logo derramou o olhar em algum ponto que só ele achara, seguro da presença da latinha, satisfeito e sábio como somente os bêbados podem ser.

 

Voltei pra casa sorrindo de cumplicidade daquele velho. Desse algo que poucos conseguem explicar, mas que é o mecanismo responsável por esses elos invisíveis e impossíveis entre torcedores do mesmo time. Tanto que esquecera da papelaria e do material que fora buscar. Não faz mal. Amanhã caminho até a rua do bar. Pra ver se o velho ainda bebe a sua cerveja. Talvez até pare e troque algumas certezas com ele sobre o time do Grêmio. E então passo, sem falta, na papelaria.

 

Guilherme      

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