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Archive for janeiro \27\UTC 2008

Cenário urbano

As casas não podem mais falar. As janelas já fecharam. As casas agora apenas observam, as lâmpadas que brilham lá do meio das salas funcionam como olhos. As casas à noite emudecem.

A rua é um rio de água preta. Nem a luz esforçada dos postes consegue clareá-lo. Parece um destes movimentos inconsistentes que tentam despoluir vales e riachos encardidos com o nosso desleixo. A rua é um vale negro de água rasa.

Os postes são torres abandonadas pelo castelo. Andam em fila, ordeiros, silenciosos, amarrados por linhas intermináveis. Quando os motoristas se distraem, os postes avançam rumo às esquinas. Como se naquele cruzamento pudessem avistar um monte encantado. Os postes são órfãos da realeza.

A calçada é um tapete vulgar. Desses surrados que pertencem aos animais domésticos. É banhada apenas pela chuva, enxugada pelo vento e amaciada pelas palmilhas menos abastadas. A calçada é a mais humilde das vias.

Guilherme

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Certezas

Desconheço quem sou.
Sei que trago duas certezas
(arremedos de esperança)
nesta minha vida:
Viver (de poesias)
e
Morrer (de amores).

Guilherme

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Abalo

Os olhos verdes
– cor de limonada doce –
da morena
me fazem doer o peito,
retesar os braços
e bambear as pernas,
enquanto ela me provoca
com um sorriso despudorado.

Guilherme

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Os cinco Mais

Devido aos compromissos durante as férias (de facul, ao menos) não consegui atualizar o Tisserand essa semana. A seguir, apenas para manter a sequência, um vídeo do Fagner, um dos cinco músicos que me considero Fã. Além dele, Jorge Ben, Chico Buarque, Raul Seixas e Eric Clapton.

Fabio

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O construtor é percussionista pragmático
Dispensa as arestas das canções maleáveis
Manuseia em linha única a partitura
O martelo vibrando no concreto um só nota:
Como um choro contido:
Ou um riso tímido.

Artesão versado em pó e argila
Lutier de paredes invisíveis
As fendas nas mãos indicam a escolaridade.
Mais cavas e longilíneas: curso superior.

O percussionista é construtor romântico
Edifica salas invisíveis de paredes arredondadas
Traz consigo uma caixinha azul-metálica de pedreiro encantado
Vez em quando abre e de lá saem seus gemidos manuais:
Nem tão alto quanto um mestre de obras:
Nem tão baixo quanto um ajudante de pedreiro.

Filho da anarquia
Intui a canção que deseja
Ora desfila sobre as sete notas
(Invejado pelos escravos da partitura)
Ora silencia, abraçado ao mesmo martelo que vibra uma só nota.

(O percussionista é arranjador de pancadas)

Guilherme

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1º Post de 2008


* Como as cores do ano são: vermelho e branco; nada melhor do que um post sobre o Internacional.


Desabafo com o Claudiomiro

Em agosto do ano passado, teve aqui em Guaíba, uma grande festa de aniversário de um ano da conquista da Libertadores. Muita alegria, muita cerveja, e quando vejo, para ao meu lado nada mais, nada menos, que… Claudiomiro. O Claudiomiro que ouvia nos discos do Inter, da época que o colorado ganhava todas. Ali, do meu lado. Tinha que falar. Azar que tava alcoolizado (eu).

Olhei pro relógio. 23h55. Sorvi o restante da ceva servida a instantes, esvaziei o copo e puxei um assunto.

– Porra Claudiomiro, tu é fudido! – enalteci. Ele franziu o cenho, transparecendo uma discreta surpresa, resultado de uma tarimba curtida por anos, acostumado a lidar seguidamente com elogios da massa vermelha.

– To muito feliz de estar aqui contigo – continuei – e vo te conta o motivo. Hoje é um dia de festa; to bebendo todas e acabei me lembrando do longínquo ano de noventa e quatro. Recordo como se fosse ontem, o cheiro desgostoso do travesseiro. O inconfundível fedor de baba seca atormentava meu nariz ranhento e as mandíbulas trêmulas não seguravam o choro infantil, após a derrota para o Ceará. Imagina eu, piá, resvalando em soluço, lamuriando entediado feito bezerro desmamado. O desespero espalhava-se a ponto de ser percebido pelos meus familiares. Tava cagando pra tudo, Claudiô. Porra; podia ser um Corinthians, um Palmeiras, mas, Ceará? Nada contra, mas, um clube de tão despido brilho, não podia atropelar o meu colorado. Não podia. Não acha?

– Foi a pior noite dos meus dez anos. As inquietações seguiram pela madrugada e as três já segurava o choro. Repousava apenas a dor, um aperto no coração – na época, zero bala -, tendo a convicção que seria zoado pelos amigos. Que merda. Seria minha geração fadada a derrota? Nunca vou ver meu time ganhar nada? Eu pensava, Claudiomiro, só no vinil eu ouvia o Colorado ganhar. E Eles sempre ganham. Paus no cu. Peguei no sono pouco antes das cinco, e sonhei com a voz estridente do Haroldo de Souza, aos berros de “só falta um colorado, um golzinho só colorado”. No sonho o gol saiu. Para me deixar mais mau humorado no dia seguinte.

– Acordei perturbado. Vozes estremeciam a sala da casa em uma sinfonia sádica, ao som de tambores sincronizados aos gritos de cagão, cagão, cagão. Precisava de alucinógeno para sair daquele sanatório. Era o momento da admirável providência. Separo a capa rubra do vinil, coloco o disco no aparelho posicionando a agulha com a precisão de um GPS: “Atençãooo… Cobrada a falta, bola na área Figueroa entrou de cabeçaa, gooll.. gooooooolllllllllllllllllll, o capitãoooooo Eeeeliass Figueroaaa cumprimentouu Raul”. Sempre fazia isso. E dava certo. Foda-se que eles ganham tudo. Todos meus amigos são gremistas, e daí? Sou colorado: colorado do Falcão, do Figueroa e de ti, Claudiomiro. Minha geração não ganha nada? Azar. Temos que resistir. Nós, colorados da minha geração, Nós Somos a Resistência – assim eu pensava. Ouvia de novo o gol, e ia jogar botão.

– E hoje, tudo mudou. Sabe por que estamos aqui? Claro que sim, né Cláudiô. Somos campeões da América e Campeão do Mundo. Somos o melhor time do mundo. O nosso Time. Pouco antes deu tomar essas meia dúzia de cevas estava a te aplaudir, em Sessão solene, na Câmara de Guaíba. Assim como as dezenas de colorados da minha geração. Hoje eu estufo o peito e olho pros meus amigos e digo solenemente: EU VI MEU TIME SER CAMPEÃO DO MUNDO. E fico muito feliz em poder dizer isso a ti, que na fase não tão boa do nosso Inter, recorria ao vinil para alimentar a minha paixão incondicional pelo Colorado.

Olhei pro relógio novamente. 23h56. E o Claudiomiro continuava ao meu lado. Com sua camisa de flanela e jaqueta de couro, com um semblante sereno, provavelmente sabendo que eu desejava muito falar com ele, mas até o momento não lhe dirigia uma palavra sequer. Quando surgiu a oportunidade, iniciei da mesma maneira que imaginava.

– Porra Claudiomiro, tu é fudido! – contudo, mudando um pouco o tom do discurso – to meio alcoolizado e não vo consegui descrever a felicidade deste momento. Mas ficaria feliz com uma foto.

– Mas tu nem me viu jogar – ele brincou.

– Tu é do caralho… te ouvia todas as tardes quando era piá.

Ele deu um sorriso sincero e sem olhar pra foto atendeu ao meu pedido.

Agradeci e fui buscar outra ceva. Queria ter falado mais. Ao menos, fica a homenagem aqui no Blog.

Fabio

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