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Archive for dezembro \28\UTC 2007

Despedida

O feriado de ano-novo é o responsável pela antecipação desta postagem. Agora, só retornamos em 2008; com algum devaneio do Fábio.

Ventre pródigo

Os judeus, os católicos, os evangélicos, os luteranos, os muçulmanos
mataram
Os comunistas, os capitalistas, os nazistas, os fascistas, os democratas, os socialistas
mataram
Os getulistas, os leninistas, os stalinistas
mataram
Os empresários, os jornalistas, os advogados, os médicos
mataram

E a natureza
– ventre pródigo –
persiste na ação venturosa de seu
milagroso e cíclico
renascer.

(Poema inspirado na revolta que o Ezio investiu contra os valores católicos em pleno dia de natal)

Guilherme

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O Carregador de Piano

“Não consigo ter vergonha de quem eu sou. Eu sou assim. O mundo que se adapte. Tanta gente por aí morre de tesão pelo buraco por onde se caga, outros milhões só pensam nas tetas por onde se mama, por que cargas d’água eu deveria ter vergonha de sentir tesão pelos pés que pisam? Ora, só me faltava essa agora.”
Alex Castro – LLL

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Ele não se considera um podólotra. Longe. Admite com receio comedido valorizar os traços bem delineados dos membros inferiores femininos. Os que merecem, claro. Em seu entendimento, os pés são a base do todo: De nada adianta cabelos arrumados por horas no instituto, barriguinha malhada em meses de academia, seios robustos e firmes, depois de dezenas de emeéles de silicone, se os pés não estiverem em sintonia com o conjunto. Eles são os responsáveis em transformar mulheres bonitas, em mulheres excepcionais. Ou, repentinamente, jogá-las na vala comum. Muitos não observam a beleza e importância dos pés, assim como, deixam despercebidos os carregadores que levam os pianos até o ponto de destaque no palco, preparado para o grande Concerto. Tolos.

Dia desses, reparei-o confidenciando ao espelho. “Hoje! Isso mesmo. Hoje ela estava de sandália. Não dessas comuns. Uma de solado baixo, com fiozinhos prateados, deixando os dedinhos a mostra: Os cinco. Tentava tirar o olho, mas não conseguia. Era mais forte que eu. O indicador pouco a frente liderando a turma. Os da direita, seguindo perfilados em rumo decrescente. Já o dedão em posição confortável, ameaçava subidinhas animadas, provavelmente sem intenção. O dorso, bronzeado, apresentava curvas tênues e tenras, com uma suavidade semelhante ao leite deslizando no copo, quando servido pela vó numa alvorada de segunda-feira. E eu? Me aproximei dela. Puxei um assunto irrelevante e quando vi estava a tocar no seu indicador, que parecia banhar-se em águas glaciais. O segundo pododáctilo apesar de gélido causava-me uma inquietação que poderia descrever em dezenas de palavras, mas, com certeza, não relacionaria em hipótese nenhuma com frio. Memorável.”

Acho que ficou surpreso com tamanha beleza. Tá certo que não os viu calçando um salto agulha que ressaltaria ao extremo o bumbum arredondado com perfeição, instigando a libido de todos que a rodeiam. Tudo bem. Mas nada vai diminuir a soberba dele, ao explanar solenemente o argumento de que: “O que vale mesmo é o potencial do Carregador de Piano.”

Fabio

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Atualização

  • Na última quarta-feira, o Tisserand ficou sem atualização. No entanto, amanhã voltará ao normal com um texto do Guilherme.

A seguir, um vídeo do Chico Buarque, desmentindo a teoria do Marcelinho sobre a música Jorge Maravilha. (em relação a filha do Geisel).

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O verde dos coqueiros

O sol está sumindo aos poucos. Queria segurá-lo no céu por mais uns minutos. Agora o calor já passou. Agora a praia começa a ficar deserta. Não há postes de luz, farol somente a quilômetros da costa. A areia, as falésias estão alaranjadas; como se passassem o dia trabalhando ao sol e exibissem o olhar cansado e a pele moura na mesa de jantar. É hora da praia beber a água lenta e salgada que molha tímida sua roupa de pó esbranquiçado.

O domingo à tardinha é revestido de melancolia. Funciona como uma iminência de morte. Todas as passagens agradáveis vivenciadas a partir de sexta à noite tomarão outra tonalidade já no alvorecer de segunda. No purgatório, até as melhores lembranças ficam acinzentadas. Mesmo para aqueles que acreditam em deus, resta apenas o purgatório, a penitência do convívio forçado, da subordinação, do animal enjaulado num terno e gravata. Caso o animal aniquile o terno e a gravata e o convívio forçado, a jaula torna-se matéria física e ele é descartado do jogo.

O crepúsculo dominical só perde em dramaticidade para o domingo à noite. Ao encostar a cabeça no travesseiro, é sabido que o ar amanhã de manhã não será mais o mesmo. Voltará carregado pela fuligem da rotina, do horário a cumprir, das reprovações que são maiores que as aprovações.

Enquanto o tempo, animal abstrato, invenção inexorável da qual jamais conseguiremos nos libertar, não consome os últimos raios deste domingo, me deleito com a brisa corada por eles, com a canção que as ondas diminutas imprimem.

Não saio derrotado. No domingo que vem, os coqueiros ainda estarão verdes.

Guilherme

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Estouvado

Plane com a força voraz de um falcão peregrino no rasante contra sua presa fadada a amargura. Engula seco o gosto amargo da penumbra que acolhe o seu espírito vil numa noite aturdida de agosto. Chora tuas mágoas e escorra o ódio pelas maçãs rosadas que acolhem os lábios tesos e inchados de tanto marcar passo nas bocas desgraçadas de mulheres desalmadas que se vendem por quinquilharias a beira da esquina. Escuta o silêncio sepulcral da tua alma fútil e leva contigo essa ignorância cultivada por anos, enriquecendo a bagagem franzina de enlatados consumidos a metros por segundo. Alivia a fadiga constante do teu cérebro infame e vai te embora. Vai, pô. Corre para longe. Some daqui, imundice.

Fabio

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Poema esquecido

Bá, só lembrei da postagem quando já estava em solo alagoano. Atualizo um dia depois do combinado, num computador mais barulhento que o centro de Porto Alegre.

Furta cor

De tanto olhar pra ela
Desbotei a cor de sua pele

Corri, diligente, a um canto do quarto
E troquei a luz da lâmpada pelo sol da janela

Guilherme

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Atualização

* Por motivo de viagem, o Guilherme não conseguiu atualizar o blog no último Domingo. Para não esculhembar a coisa, segue abaixo um poema do Neruda – o qual ele é fã – para dar prosseguimento nas postagens.

Tisserand

Esperemos

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
– há fábricas de dias que virão –
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Pablo Neruda

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