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Archive for abril \23\UTC 2007

Programa de Domingo

oe·Para casais com mais de quatro anos de relacionamento, uma das opções de distração para a tarde de domingo é ir ao shopping; seja para ir ao cinema, fazer compras, ou simplesmente para ficar no geladinho do ar condicionado, olhando as últimas promoções destacadas na vitrine. Comigo não é diferente. Dia desses, presenciei uma desavença entre um casal de meia idade e resolvi relatar aqui.

Carrego aquela sacola cinza olhando pela terceira vez o painel com uma manequim de pernas alongadas, vestindo uma calça jeans na promoção por R$ 29,90. Faço o possível para fazer “cara de bunda” e sutilmente deixar meu protesto. Minha distração nesse momento é prestar atenção na vida dos outros. Divirto-me, sozinho. Antes de chegar ao provador feminino, me prestei a contar o que carregava: três blusas, duas calças e um casaco. Não era dos piores. Até soltei um sorriso de canto-de-boca.

No caminho começo a pensar se, pelo menos, terá um assento livre. Para minha surpresa, estava lá. O melhor de todos, bem no canto. Naquele dia até parecia maior, porém continuava com aquele cinza claro entediante, com estofamento de segunda linha, pouco confortável. Mas estava vazio, era o que importava. Ao me acomodar, percebo a proximidade dos assentos com as atendentes dos provadores da Renner, e vejo que elas faziam cara de bunda bem melhor do que eu.

Não demorou muito e chegou um companheiro para a espera. E a mulher dele vinha muito mais carregada: duas sacolas cinzas. Olhei com pesar, e dei um sorriso complacente, me solidarizando com o vizinho de banqueta.

– É. Vamos ter que esperar. Fazer o que. – disse o homem, de uns 35 anos, aparentando ser de classe média alta.

Respondi com um “uhum”, distraído, mostrando que não tinha interesse em dar continuidade na conversa.

– Vou aproveitar e escolher uma gravata pra mim -, novamente argumentou.

– Isso aí -, rebati, fingindo que atendia o celular.

Voltou em menos de cinco minutos, com uma gravata violeta. Estranhei a velocidade, sabia que o setor masculino era em outro andar.

– Bonita, ela né?

– … -, por educação, levantei as sobrancelhas, inclinando levemente a cabeça para o lado direito, dando a entender que tinha sido uma boa escolha.

Já estava começando a ficar angustiando com a espera da minha noiva, quando vejo a esposa dele – creio eu -, saindo com uma blusa azul e uma saia creme.

– Gustavinhooo, Gustavinho… Não estou linda???

– Estas sim, meu bem. Como sempre.

– Eu não acredito Gustavo. Me achou feia de novo? Mas que merda. Sabia que não ia gostar.

-Ficou bem. Estou dizendo.

– Agora não adianta tentar dizer que não, tu já disse – saiu bruscamente resmungando de volta ao provador…

– Mas eu disse que ficou bom… – falou ele, para as atendentes.

Todos no local fizeram que nada tinha acontecido a fins de evitar maiores constrangimentos. Desta vez, não me dirigiu a palavra.

Poucos minutos depois, raivosa, a jovem senhora voltou e jogou as sacolas para as funcionárias que não entediam o que estava acontecendo.

– Vamos embora que não vou comprar nada – sentenciou.

– Eu vou levar essa gravata, vamos ao caixa.

Não era a hora para esse tipo de comentário e todo mundo sabia disso. O Gustavinho não.

– Lilás???

– Me diz uma gravata que combina com lilás? Hein? Hein?

– Aquela minha branca, Bem!

– Mas para aquela branca tu já tem a azul-marinho, Gustavo. Tu só ta querendo me fazer de troxa é? É sempre assim.

– Não, Bem. Gostei dessa.

– Vamos embora, tu já estragou meu fim-de-semana.

– Eu só to querendo o melhor pra nós, Bem…

– Agora já foi… Tu estragou meu Programa de Domingo…..

Fabio

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O Pasto de Pablo *

Pablo escuta um hip-hop afú enquanto alonga os músculos volumosos dos braços para concluir mais uma tarde de academia. Equilibra o supino com cuidado, mas se permite escutar o tilintar dos quatro halteres de vinte e cinco quilos cada dependurados no ferro seguro pelas suas mãos. Pablo bufa e faz algumas séries de dez levantadas. Mira o espelho, ajeita a camiseta de manga cavada molhada nas áreas que margeiam o sovaco e deixa o local.

Agora Pablo acelera a Toyota do pai que pegou emprestada com a condição de que se dedique mais ao curso de engenharia mecânica para o qual foi matriculado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pensa em Anabela e uma careta de insatisfação lhe atravessa o rosto e ele não entende como ela pôde dispensá-lo sem uma justificativa aceitável. Pablo lembra das palavras de Anabela que dizia eu acho que não quero mais ficar contigo; tu é bonito e forte, tem grana e um pau relativamente bem-dotado, mas o Roger também tem tudo isso e ainda por cima não me deixa tantas marcas no rosto, o que fica bem mais fácil de esconder com uma maquiagem eficiente. Pablo balança a cabeça negativamente e avista um cachorro na calçada que faz poses de fisiculturista e abana para ele, repetindo o movimento de trocar uma lâmpada com a pata dianteira direita. Pablo tenta responder com um oi, mas é surpreendido com um latido grave e cordial saído de sua boca.

Pablo esfrega os olhos quando pára na sinaleira e começa a ficar assustado e acha que aquela visão pode ser fruto dos anabolizantes e das injeções para cavalo que conseguiu com o Mano, que começou a trabalhar de balconista numa farmácia do centro, mês passado. Depois daquilo, algumas brigas ocorreram em festas, alguns braços de adversários fraturados, supercílios recortados e explicações pacientemente decoradas e escarradas na sala abafada do juizado criminal do fórum da cidade.

Pablo sente-se aliviado ao contornar a esquina da rua onde mora e avançar com a certeza de que em poucos segundos estará sob a proteção dos muros de sua casa. Mas metros antes ele avista um terreno baldio onde alguns cavalos se alimentam da grama recém banhada pela chuva e, sem compreender-se, estaciona em sua beirada. A boca de Pablo saliva e ele sente as mãos tornarem-se rijas e cerrarem-se. Abre a porta do carro com dificuldade e atravessa o arame farpado e nem nota o pequeno corte talhado no ombro esquerdo. Aos poucos o corpo começa a se curvar e os pés sofrem o mesmo processo que as mãos, até tornarem-se todos patas por inteiro. Então o rosto másculo de Pablo que, acrescido do corte de cabelo raspado a gilete, garantia agradáveis comparações ao de Vin Diesel foi tomando contornos eqüinos, e os dentes brancos e fortes ganharam ainda mais força e tamanho.

Pablo virou um cavalo. Com crina e rabo compridos, trotar elegante e um relinchar de garanhão. Voltou a olhar o capim úmido e se ainda fosse humano choraria com emoção ao primeiro toque de sua boca de beiços salientes e peludos na seiva doce de seu mais novo pasto.

Guilherme

* Texto inspirado na Teoria do Pasto, elaborada por Pedro Schenkel.

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a formiga

a diminuta e laboriosa e disciplinada e incansável formiga caminha com seu passo miúdo e carrega um pedaço de grama com duas vezes o seu peso. arrasta-se no chão claro e um tanto áspero da laje em volta da piscina. o sol maltrata o dorso da formiga; o peso pressiona-lhe as patas; e a fila que se prolonga a sua frente desestimula a pressa que mantinha de chegar logo em casa.

o inesperado movimento de uma mão humana que coça a sua palma riscada por três linhas curvas no chão para fazer os insetos perderem o rumo descuida-se e acerta em cheio a formiga. ela voa alguns milímetros e desaba no abismo de cinqüenta centímetros que separa a laje do gramado. a formiga não resiste à queda. morre abraçada ao pedaço de capim. as seis patas retesadas como se uma dor lhe corroesse as entranhas; e o corpo inerte como um cacho de três uvas anãs colhido antes do tempo.

Guilherme

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