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Bokowski se foi mas deixou seus representantes

Bokowski se foi, mas deixou seus representantes

 

Enquanto tremulava uma grande faixa de uma torcida de vanguarda gaúcha, mostrando-se livre de preconceitos, rompendo fronteiras, chegando à terra onde as misses imperam e são orgulho de um povo amordaçado por uma ditadura branca, nos pagos do sul, os torcedores colorados, no auge do chauvinismo masculino, em momento de profunda sinceridade etílica, deixaram transparecer o seu temperamento machista, tendo como cortina a vitória de 3 a 1 sobre o Coritiba pela Copa do Brasil.

 

Por ter um preparo físico semelhante ao do Viola, nos dias atuais, não são todas as partidas que permaneço no Olho do Furacão da Popular. Generoso que sou, não fui pedir para ninguém se amontoar ainda mais, no centro da arquibancada, e parti em direção à outra goleira, o único local que poderia escolher o assento que bem entendesse, com apenas uma ressalva: bem ao lado da torcida do Coxa.

 

Estava sóbrio, logo, calculei os riscos de entrar em uma confusão, chegando à conclusão que estes seriam mínimos. Como em quase todos os outros setores, os companheiros rubros ao meu redor estavam embriagados em demasia. Naquele local, no entanto, havia a adrenalina de estar a menos de oito metros da torcida adversária.

 

Terra de ninguém

Terra de ninguém

 

Por ser de menor expressão, era comum os xingamentos argumentando de que nunca tinham ganho uma libertadores, segunda divisão e outros clichês. Até aí, tudo beleza. Mas não demorou muito para uma torcedora se destacar no meio da multidão. Uma loira de aparência bem semelhante à Kelly Key, com uma calça preta milimetricamente colada em seus membros inferiores – conhecidos também pela alcunha de seu time – e uma camiseta verde, rente ao tórax, deixando a barriguinha um pouco saliente. No popular, é do padrão estereotipado como “torta”. Essas, seriam algumas qualidades que, por si só, chamariam a atenção da Maior Torcida do Rio Grande; mas ela precisava de mais. Não confiando somente nos seus atributos, apelou: ergueu os braços, de forma que conseguisse deixar em destaque o distintivo e o patrocinador da camiseta, e mostrou solenemente a manta da Geral da Azenha. Pronto. Até as mulheres passaram a lançar olhares furiosos, tanto pela manta, quanto pela conduta dissimulada da torcedora. A partir daí, caro leitor, até o gol do Alecsandro quase passou despercebido.

 

De início, os xingamentos mais adequados para o momento.

 

– PUriTAna…

 

– VAGA….

 

– Ei, Geral, senta no meu PALito…

 

Mas ela gostava. Acenava aos colorados, sentia-se desejada. Por vezes, girava o corpo em 180 graus, mostrando a manta azul, tendo a certeza que os olhares famintos estariam fitando o patrocinador abaixo do número da camisa.

 

A camisa, pelo menos, era a mesma

A camisa, pelo menos, era a mesma

 

Num misto de desejo e raiva, os mais embriagados perdiam a compostura, convidando-a para conjunções carnais pouco convencionais, preferencialmente pela porta de trás.

 

– Contigo, só assim, mulher de vida fácil! – sugeriam.

 

A torcida começou a perder a compostura, quando a aspirante a Sexy Simbol juntou o polegar opositor com o indicador, fazendo um circulo, movimentando o ante-braço para cima e para baixo, simulando uma descabelada no Ronald McDonald, caçoando dos que já estavam enamorados. Um clamorosa afronta aos vermelhos.

 

Os mais exaltados partiram na busca de honrar seus princípios, ordenando que fosse lavar pratos e limpar cuecas freadas. Por minutos, os chauvinistas masculinos ecoaram dezenas de xingamentos machistas que só serviram para criar antipatia entre as coloradas. Pois a Coxa Branca continuava a distribuir sorrisos para os Colorados.

 

Sem saber o que fazer, um senhor de meia idade, um dos líderes do movimento – trabalhador, pai de família, acredito – sem medo de ser feliz, abriu o zíper, arriou as calças, mostrando o cidadão rendido, em estado de sonolência alcoólica, sendo repreendido pelos colorados mais próximos.

 

– Pô, tiozão, não é pra tanto. Daqui a pouco, os porcos vêm encher o saco.

 

– Mas é isso que aquela precisa, não é? Hein, Hein?!

 

Para tristeza da dona da manta da Geral, em instantes, o Andrezinho marcou o terceiro.

 

E o profeta das calças arriadas, redimido, saiu a gritar aos quatro ventos.

 

– Eu falei que nós íamos virar essa por…

 

Fotos: Bukowski: myspace.com; Cartaz do filme: dvdlight.com.br; Musa do Coxa: lanceactivo.com.br.

 

Fabio

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A Razão

Primeira parte do conto ‘(Ir)racional’.

As noites por aqui são conservadoras. Nunca há mudanças significativas. Minha rua é silenciosa, parece aquietar-se em respeito ao sono dos moradores. Afora televisores que cochicham pelos apartamentos, o silêncio é quebrado por um ruído quase imperceptível. Distante, porém sistemático. A duas quadras de minha rua pupulam os barzinhos de corpos que perseguem algo. Não sabem exatamente o quê. Trabalham, estudam, chegam em casa e livram-se dos aparatos que denunciam essas duas atividades. E encaminham-se para cá. As mesas lotadas de garrafas, latinhas e cinzeiros. O que move todos eles é algo que ainda não consegui decifrar.

(ainda que esteja diante de meus olhos e logo saltará à vista)

Divido a mesa com alguns conhecidos. Eu, Carla; Paulo, Melissa. Dois casais. Caso pertencessemos à outra espécie, não estaríamos reunidos e compartilhando rotinas, embriagados. Talvez alguma situação de perigo nos obrigasse a uma aproximação, puro instinto de sobrevivência. Nada além disso. Eu estaria comendo a Carla no apê (toca, habitat, sei lá) dela. O Paulo, a mesma coisa com a Mel em algum outro lugar. A função que perpetua as espécies. Mas não é assim que funciona. E isso sempre torna as coisas mais difíceis.

Entre intervalos regulares, um de nós fala alguma merda. Tudo enrolação, encheção de linguiça, saliva gasta sem sentido. Olho ao redor, as pessoas conversam. Jorge Ben segue descrevendo a menina mulher da pele preta com a voz de adolescente que devia usar aparelho mas optou por uma chapa chiada. E nessa atmosfera, quando a maioria já começa a deixar o bar, depois de cogitar todos as possibilidades menos óbvias, sentencio: é, todos estão aqui na esperança de trepar mesmo. Exceto pelo cigarro, a bebida e as roupas, não estamos muito longe das outras espécies, soluciono a questão satisfeito, porque bêbado; e o riso auto-suficiente que ensaio no canto da boca irrita Carla.

Depois de empreendermos todos os subterfúgios possíveis para velar nosso objetivo, marchamos eu e Carla, Paulo e Mel, em direções opostas, ainda que movidos por razões semelhantes: ensaiar a perpetuação da espécie; trocar sensações prazerosas na horizontal; fazer amor; tá bom, chega de eufemismos: pra trepar mesmo.

Guilherme

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Michel Houellebecq é uma metralhadora, um serial-killer literário, como definiu Juremir Machado da Silva. Não há concessões para ele. Não há, como nunca deve haver e como, infelizmente, estamos acostumados a ver entre os medíocres, o menor resquício de pena na literatura dele. Apenas sentimentos nobres sobrevivem em seus textos. O que há, e em robusta quantidade, é amor – seja na ausência (Velada), na busca (Insinuada) ou na reflexão (Explícita) sobre ele. O mesmo amor que adensa as obras de Dostoievski, Neruda e Cortázar. Quem passa os olhos pelos romances do francês misantropo pode experimentar tudo, exceto a indiferença. Ninguém que tenha coragem de dizer o que Houellebecq diz, tem direito a ela. Ninguém.  Extensão do domínio da luta (1994), seu primeiro livro, comprova isso.   

A história é narrada por um francês de trinta anos, bem empregado no ramo da informática, solteiro (um casamento frustrado às costas), mais, solitário – como todos nós, segundo Houellebecq. A narração trata, na realidade, da decadência deste homem – ou, mais especificamente, da decadência de uma geração; ou, ainda mais especificamente, a decadência de uma espécie: a entidade homem. As liberdades conquistadas, sobretudo a partir da segunda metade do século vinte, são expostas como marco inicial de uma letargia afetiva e social nas reflexões do protagonista. Há liberdade para comer quantas muheres ele quiser; para ganhar quanto dinheiro lhe contentar; para experimentar todas as sensações que a luxúria lhe apetecer. Mas isso não basta. E a exposição é simples: “A sexualidade é um sistema de hierarquia social”. Tanto no campo sexual quanto no financeiro, há quem triunfe, mas há quem decline. O narrador vence financeiramente, mas fracassa com sobras em relação ao sexo. O trabalho o entedia, a publicidade o segrega, as mulheres o ignoram e as ilusões dos vinte anos ressecaram. Por isso as assertivas soam como o monólogo de um espectador amargurado. O que é, de fato, uma definição simplista. Mas quem melhor do que um espectador para julgar ou analisar algo, já que os protagonistas estão sempre cegos de tanta luz?

Contudo, é Raphael Tisserand, colega de trabalho do narrador, figura que encarna a antítese do ideal estético atual – baixo, gordo, atarracado, calvo e de uma feiúra comovente -, que ascende como principal personagem ou personifica com maior propriedade a derrocada dessa geração. Também empregado de informática, bem remunerado, carrega uma castidade forçada pela repugnância que causa nas mulheres. Apesar dos dissabores que a vida de três decadas lhe acumulou, ele não desiste, e cumpre com empenho o papel de lutar até o fim, até mesmo quando não acredita mais que vá encontrar algo de bom.   

Houellebecq manipula e analisa o homem, a espécie, com a mesma compaixão e seriedade que o narrador manipula e analisa Tisserand: cientistas que apegam-se a suas cobaias. É isso que pode causar tanta estranheza e revolta numa primeira leitura; mas não resiste a uma nova passada de olhos. É um romântico travestido de pragmático, como outros tantos gênios literários. Embora muitos não queiram enxergar, ele já garantiu um lugar cativo na história da literatura. Pode-se odiar, ofender, maldizer, criticar Houellebecq. Silenciar sobre ele, jamais.

Quem se interessar pela escrita cáustica do francês, pode aproveitar para adquirir os outros três romances dele, posteriores ao Extensão: Partículas Elementares, Plataforma e A possibilidade de uma ilha.  

Guilherme

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The Nose

* Conforme anunciado aqui no blog, participamos da Antologia “Vôo Independente 6” da Associação Gaúcha de Escritores Independentes. Para quem não teve oportunidade de comprar o livro (quem quiser, avise no comentts), aí vai o meu conto, dividido em duas partes. Mesmo para quem já leu o livro, vale a pena conferir, pois aqui no TISSERAND, o texto está na íntegra, sem os cortes de Edição da AGEI. Boa Leitura.

Parte 1

O azul cerúleo acompanhado de vapores condensados na atmosfera em gotas de dimensões muito reduzidas emoldurava o ambiente. Era um suntuoso dia de verão, daqueles que, ao final da tarde, os despretensiosos raios solares deixam de resplender e iluminar as ruas, convidando uma garoa preguiçosa a lhes fazer companhia e aguardar ternamente a visão singular da construção do arco-íris. Ele nem liga. Segue a caminhada, depois de mais um desgraçado dia de labor. Rafael De La Crus. Com S. Responde sempre, ríspido, ao ver escreverem seu nome errado. Rapaz jovem, cabelos castanhos na altura das orelhas assimétricas, que acabam por ser esquecidas, devido ao caroço protuberante no nariz, o qual lhe rendeu diversas alcunhas pejorativas na infância. As duas últimas quadras atravessou sem olhar para os lados, confiando fielmente na sua esguelha, ou melhor, não parou desejando sentir um frio na região abdominal e tornar um pouco mais relevante a pacata noite de sexta-feira que estava por vir. Chegou em casa seis e meia. Abriu uma Skol. Riu do tilintar da lata, e, sem perceber, acabou embaraçado de estar ali bebendo sozinho, sem uma comemoração especial. Ligou a tevê, zapeou os canais com certo desprezo, findando as mudanças justamente na emissora que condenava. A chamada da novela das oito o derrubou. “A Bunda da Negrini!”. Ergueu o copo de requeijão com a galhardia de estar segurando uma taça de cristal do mais desejado champagne, e após um afônico “Tim-Tim” sorveu o líquido de uma vez, deixando o copo sobre a mesa, apenas com uma espuma esbranquiçada e o cheiro de álcool acabou por lhe obscureceram as vistas e o aroma de início de trago o fez companhia em seus sonhos libertinos.

Era um rapaz decente. Comedido em suas atitudes, esforçado, e, até certo ponto, culto. Contudo, executava o novo labor, conseguido há alguns meses, a contragosto, não dando o melhor de si. O trabalho de oito horas por dia o angustiava. Considerava um atraso. Obcecado por livros, esbanjava apurados conhecimentos em literatura, o que não acrescentava em nada no emprego de vendedor de artigos importados, – de baixo custo, destinados às classes y e z – , comandado pelo Valdir: um empresário pangaré, quarentão, de bigode com fios alongados e negros, pouco mais de um metro e sessenta e cinco de altura, e noventa e oito quilos. Grande parte destes na barriga. Deslumbrado como novo-rico, despejava todas as segundas e quartas um olhar soberbo com um irritante ar de superioridade frente a seus clientes, diga-se de passagem, os responsáveis pela sua enlevada ascensão. Quando ia, era certo que reclamava de De La Crus. Ao pisar no soalho encerado da entrada principal, o comerciante o procurava. “The Nose, já com essa cara de sonso de novo…Vamo trabalha”, resmungava. Apesar de maldoso, o apelido agraciado na primeira semana de trabalho foi visto com bons olhos por Rafael. Era fã do Gogol. Ele nunca diria isto ao Pança. Jamais entenderia. E o pior: poderia inventar outro apelido. Arrumando os pacotinhos de abridores de vinho, discursava contra a ignorância, divagando suas inquietações rompendo contra os princípios da empresa, e assim o tempo corria como um guepardo no auge de sua virilidade. “Que árdua é essa vida de escravo do Pança. Atrás dessa falsa felicidade tem de haver um monstro. Um explorador filho da puta. Acha que estás me fazendo um grande favor ao jogar sobre o balcão migalhas de notas de dez reais, completando meu ordenado de menos de 400 pilas. Um dia, alguém chega aí e dá um tiro. Não eu. Ele merece apenas a minha indiferença. Mas aquele ordinário há de ouvir. Acha que sou piá. Posso ter vinte e poucos e não me sustentar, para a felicidade dele. O decadente, entretanto, é a sombria vida que leva dentro do seu próprio vazio. Triste vida é a sua, que enche o rabo de dinheiro, explora uma parcela da população que não tem acesso ao conhecimento, e prega que traz a eles a felicidade. Covarde. Não quero que o matem. Ao menos tomar um pau. Isso poderia”. Antes que algum bem-feitor abraçasse a causa do Nose, ele acordou, pouco mais de dez e meia.

Tshik. Abriu mais uma Skol. Enquanto bebia compulsivamente, arriscou uma olhadela pela fresta da veneziana da cozinha e vislumbrou uma noite um tanto nebulosa e pouco estimulante para uma investida na madruga porto-alegrense. Separou outra lata, vagarosamente foi à sala de estar, acomodou-se na poltrona do papai, e folheou desconcentradamente uma edição de “Diário de um louco”, de bolso. A tonturinha não deixava se prender na beleza do texto. As letras embaralhavam-se e os pensamentos libidinosos esvaíam-se com volúpia e logo imaginava-se com uma loira ao seu lado, executando carícias instigantes e acabava por deixá-lo rijo. Precisava sair e arranjar uma guria. Desistiu da leitura, foi ao quarto trocar de roupa. Vestiu uma camisa de flanela, justa em demasia, deixando explícita uma pequena saliência na barriga ressaltando a vida de acomodado. Colocou uma calça jeans, das novas, reservada para ocasiões especiais, avisou a mãe que iria sair, pegou o carro do pai, abriu mais uma lata e se foi. Rindo sozinho.

Fabio

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