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Archive for julho \30\UTC 2008

Novo Trabalho

Nós, do Blog Tisserand, estamos participando do blog Futebol Diário, com atualizações diárias durante a semana.

Contamos com a visita de vocês.

www.futeboldiario.wordpress.com

Tisserand

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Michel Houellebecq é uma metralhadora, um serial-killer literário, como definiu Juremir Machado da Silva. Não há concessões para ele. Não há, como nunca deve haver e como, infelizmente, estamos acostumados a ver entre os medíocres, o menor resquício de pena na literatura dele. Apenas sentimentos nobres sobrevivem em seus textos. O que há, e em robusta quantidade, é amor – seja na ausência (Velada), na busca (Insinuada) ou na reflexão (Explícita) sobre ele. O mesmo amor que adensa as obras de Dostoievski, Neruda e Cortázar. Quem passa os olhos pelos romances do francês misantropo pode experimentar tudo, exceto a indiferença. Ninguém que tenha coragem de dizer o que Houellebecq diz, tem direito a ela. Ninguém.  Extensão do domínio da luta (1994), seu primeiro livro, comprova isso.   

A história é narrada por um francês de trinta anos, bem empregado no ramo da informática, solteiro (um casamento frustrado às costas), mais, solitário – como todos nós, segundo Houellebecq. A narração trata, na realidade, da decadência deste homem – ou, mais especificamente, da decadência de uma geração; ou, ainda mais especificamente, a decadência de uma espécie: a entidade homem. As liberdades conquistadas, sobretudo a partir da segunda metade do século vinte, são expostas como marco inicial de uma letargia afetiva e social nas reflexões do protagonista. Há liberdade para comer quantas muheres ele quiser; para ganhar quanto dinheiro lhe contentar; para experimentar todas as sensações que a luxúria lhe apetecer. Mas isso não basta. E a exposição é simples: “A sexualidade é um sistema de hierarquia social”. Tanto no campo sexual quanto no financeiro, há quem triunfe, mas há quem decline. O narrador vence financeiramente, mas fracassa com sobras em relação ao sexo. O trabalho o entedia, a publicidade o segrega, as mulheres o ignoram e as ilusões dos vinte anos ressecaram. Por isso as assertivas soam como o monólogo de um espectador amargurado. O que é, de fato, uma definição simplista. Mas quem melhor do que um espectador para julgar ou analisar algo, já que os protagonistas estão sempre cegos de tanta luz?

Contudo, é Raphael Tisserand, colega de trabalho do narrador, figura que encarna a antítese do ideal estético atual – baixo, gordo, atarracado, calvo e de uma feiúra comovente -, que ascende como principal personagem ou personifica com maior propriedade a derrocada dessa geração. Também empregado de informática, bem remunerado, carrega uma castidade forçada pela repugnância que causa nas mulheres. Apesar dos dissabores que a vida de três decadas lhe acumulou, ele não desiste, e cumpre com empenho o papel de lutar até o fim, até mesmo quando não acredita mais que vá encontrar algo de bom.   

Houellebecq manipula e analisa o homem, a espécie, com a mesma compaixão e seriedade que o narrador manipula e analisa Tisserand: cientistas que apegam-se a suas cobaias. É isso que pode causar tanta estranheza e revolta numa primeira leitura; mas não resiste a uma nova passada de olhos. É um romântico travestido de pragmático, como outros tantos gênios literários. Embora muitos não queiram enxergar, ele já garantiu um lugar cativo na história da literatura. Pode-se odiar, ofender, maldizer, criticar Houellebecq. Silenciar sobre ele, jamais.

Quem se interessar pela escrita cáustica do francês, pode aproveitar para adquirir os outros três romances dele, posteriores ao Extensão: Partículas Elementares, Plataforma e A possibilidade de uma ilha.  

Guilherme

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