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Archive for janeiro \29\UTC 2007

A guria da minha vida

Ela gosta de mim e isso é o que mais me impressiona nela. Ela chega com a sua mão de travesseiro macio e joga pra cima de mim o cabelo de algodão doce que desmancha de tão liso e cheiroso que é em qualquer objeto sólido que ele toca. E ela diz que eu sou o cara da vida dela e me beija e ri das piadas engraçadas que eu conto e das sem graça também. E eu recolho o corpo dela nos meus braços e aperto com a força de quem vai ficar sem apertar durante um mês, mesmo sabendo que amanhã eu vou entrar pela cozinha, dar um beijo na bochecha da minha sogra, cumprimentar meu sogro e atravessar a porta para vê-la descansar no sofá e me estender o seu sorriso de satisfação caramelada.

E ela fala que a saudade parecia uma lomba tão íngreme que nem a mais avançada das bicicletas, pedalada pelo mais hábil dos ciclistas conseguiria vencer. E eu limpo o seu rosto de alguns fios de cabelo caídos sobre os olhos e digo que se fosse preciso chegar ao alto desta lomba a pé e sob um sol escaldante eu iria mesmo assim; claro que uma coca bem gelada ajudaria, ressalvo. E ela ri de mais essa piada sem graça e descubro os dentes grandes e brancos da sua boca.

E outro dia eu fiquei só olhando pra ela enquanto dormia. E me deu uma alegria estúpida, uma inquietação paralítica que até faltou ar. E eu fiquei ali só olhando o lábio inferior dela que é maior do que o superior respirar tranqüilo, e eu fiquei olhando os sinais que pontilham os braços e parecem gotinhas de chocolate e eu fiquei olhando até a falta de ar passar e eu pegar no sono de vez.

E de vez em quando eu falo pra ela que ela é a guria da minha vida, mas ela finge que não acredita com aquele olhar de incredulidade apaixonada e eu repito tudo outra vez com a certeza de que ela já havia acreditado na primeira tentativa só pra ver as pálpebras dela se moverem e aquele olhar de soslaio me acertar de novo.

E aí eu abraço ela e ela me abraça até que as forças nos faltem e só consigamos nos beijar. Um beijo doce, o dela. Com gosto de caramelo e sorvete napolitano.

Guilherme

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O casto

Eu não queria ir. Claro que me incomodava o fato de ser o único cabaço da turma. O Fred já comia mulher desde os doze. O Lucio e o Tetê faziam o mesmo há alguns anos. Só eu que me mantinha casto – contra a própria vontade. E naquela noite tudo deveria mudar.

Fomos para a casa do Tetê e levamos algumas cevas conosco. Ouvindo o cd novo do Strokes entornamos dois fardos de lata. Todos tontos tentando decifrar a letra cantada pela voz etílico-nasalada do Casablancas. Observava meus três amigos bêbados. O Fred é o mais bonito de nós. As linhas do rosto bem traçadas, os lábios engrossados e aquela barba irritante com fios de um milímetro de comprimento. O Lucio sempre foi um atleta. Nadador desde os primeiros anos de vida. Tem o corpo bem formado e uma altura de jogador de basquete. E o Tetê, o maior trovador que eu já vi. Decorou meia dúzia de poesias do Neruda que despeja ao pé do ouvido das mulheres que lhe interessam. A mim, pouco ou nada foi conferido por Deus; se é que ele existe. Já agarrei algumas minas, mas nada muito sério. Apenas momentos constrangedores em que minhas mãos suam e as palavras fogem de minha boca, acentuados pela impaciência desenhada no rosto dessas parcas companheiras. Por isso aceitei ir ao puteiro. E só por isso.

Quando a quantidade de álcool em nosso sangue chega a um nível elevado, tendemos a esquentar as discussões. As vozes são irradiadas com maior volume, os argumentos verbalizados ganham a dança enfática de braços e mãos, e os olhos ilustram com maior convicção as idéias. Alimento algumas ideologias típicas de minha idade: distribuição de riquezas, união do povo latino-americano, socialismo utópico e todos os outros ideais de esquerda que são defendidos por jovens apaixonados há algumas décadas – ou séculos. Não tenho a mesma paixão deles. Não grito em passeata, não enfrento a brigada, jamais pegaria numa arma por uma revolução. Mas defendo essas práticas com audácia quando discuto bêbado com os guris. E sempre ganho o debate. Ao menos sou o último a falar.

Mas logo o assunto deixa o terreno da seriedade e parte para a sacanagem. As lembranças sexuais são as preferidas deles. Começam a enumerar suas conquistas e aventuras. O Lucio narra pela centésima vez a transa com a loira de peitos gêmeos bi vitelinos; o mamilo esquerdo com uma auréola de tamanho dobrado em relação ao irmão destro. O Tetê já emenda com a moreninha retaca que ele comeu semana passada. Era dona de seios estrábicos, apontando para lados contrários. E só depois de cansarem e quase esgotarem o estoque de histórias, partimos pra Porto.

Em menos de meia hora chegamos ao local. A quantidade de carros me surpreende para uma terça-feira. Na entrada, para aumentar o meu desconforto, pediram a minha identidade. Tenho vinte e dois, porra! Quase gritei. O Tetê me deu uma mijada e começou a me empurrar porta adentro, antes que o segurança resolvesse engrossar.

O ambiente era escuro, algumas luzes coloridas iluminavam por poucos segundos. Via peitos, bundas, coxas, tiozinhos barrigudos sorrindo e afundando o rosto no pescoço de umas putas e uma tevê rolando o dvd do Calypso. O cheiro também era desconhecido: cigarro, bebida, sexo, tudo parecia compor aquela fumaça densa que dificultava a respiração. Arranjamos um canto e começamos a beber as cevas a que tínhamos direito.

Não demorou e eu senti um apertão na bunda. Já virava com os palavrões decorados para despejar sobre o Lucio, que sempre vem com essas brincadeiras idiotas, quando vi uma baita duma gostosa me olhando. Ela sorriu. Eu também: um movimento autômato fruto do nervosismo. Os guris começaram a pular atrás dela, emocionados. E sem nos falarmos saímos de mãos dadas para o quarto.

Ela começou a tirar a saia preta, que deixou sobre a cômoda ao lado da cama. Desabotoou a blusa dourada e revelou os seios arredondados e turbinados de silicone. Soltou a cabeleira loira, antes presa por uma tiara, e veio juntar-se a mim. Gisele. Quê? Meu nome é Gisele, ela repetiu. Ah, legal. Quer dizer, o meu é Marcelo. Ela me abraçou e senti sua pele quente, lisa e perfumada; e também senti naquele momento que não dava. Fui acometido por uma crise de choro, uma tristeza tão grande que não identificava a origem. Gisele ficou nervosa, perguntou o que eu tinha. E eu soluçava por mim, por ela, pelos guris, por todos que conhecia, e não conseguia responder. Chorava pela imagem dela se despindo naquele quarto iluminado pela luz fraca do abajur, e sem saber porquê. Estava muito bêbado. A única coisa da qual me lembrei de falar naquela hora foi um fragmento de poema que o Tetê repetia sem parar:

“Amo teus dons puros
Tua pele de pedra intacta
Tuas unhas oferecidas no sol de teus dedos
Tua boca derramada por toda a alegria”*

Depois disso ela também começou a chorar e eu pedi apenas um beijo. Só um beijo. Ela consentiu. Ficamos conversando por um tempo, para que limpássemos o rosto e não desconfiassem de nada. Passados quarenta minutos, inclinei-lhe o dinheiro e ela não aceitou. Retocou a maquiagem de boneca de cera, me deu a mão e voltamos para a pista. Os três me receberam eufóricos. Antes de sair, olhei para Gisele. Era beijada e adulada por um senhor com cerca de cinqüenta anos. Agora carregava um olhar vazio, uma reflexão ensimesmada que destoava de suas colegas, algo inexplicável, como as minhas lágrimas. Contaminei-a de alguma forma. E isso me deixou mais triste.

No caminho de volta, o Fred perguntou enquanto dirigia, me olhando pelo espelho retrovisor, como tinha sido. Alisei o queixo, simulei um sorriso e disse convicto: foi bom, foi muito bom. Eles comemoraram orgulhosos, como um feito próprio de cada um dos três. Me encolhi no banco traseiro, mirei o vidro molhado de sereno ao meu lado e chorei quieto enquanto o sono não vinha.

* Trecho extraído do livro Cem sonetos de amor, de Pablo Neruda.

Guilherme

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olhos de censura

Chego numa guria e ela me dá o fora. Chego noutra e me trova que tem namorado. Assim não dá. Vai se fudê. Tomo mais uma cerveja. Ela molha meu bigode ralo e gela minha cabeça que tava estourando. Suava pra caralho. Essa porra desse pagode é muito apertado. Entro numa roda de conhecidas. Encaro uma delas. Cabelo loiro, olhos de ingenuidade cínica, peitos generosos e pernas nuas. Qué dançá? Ela aceita. Não sei dançar; e tô cagando. Começo a baixar a mão. Ela não liga. Roço minha barba de pêlo falho em seu pescoço. Os nossos passos destoam e a pista tá muito cheia. Muda de música e continuamos ali, suando e errando. Convido ela pra dar uma volta, passar no posto, ver o movimento. Me dispensa com um suspiro de enfado, e resolvo dar uma banda.

Na saída ainda encontro um abobado que me abraça e me chama de amigão. Começa a enumerar as minhas qualidades, me apertando com os braços cultivados na academia. Esses caras não têm muita noção da força que adquirem. Há algumas semanas assisti a um deles conversando com uma guria numa festa. Empunhava um copo plástico recheado de ceva na mão direita. De repente, ele amassou involuntariamente o copo e banhou sua amiga. Fez uma cara de mau pra quem o rodeava e falou pra ela que tava quente mesmo, era bom algo que refrescasse.

Mas o retardado continuava me alugando. Eu não sabia mais o que fazer. Queria deixar logo aquele pagode de merda e ligar pra Cléo e saber se ainda rolava alguma coisa. Não queria dormir com o saco cheio de novo. Aí uma conhecida do cara, que estava vomitando perto da saída, gritou e veio na direção dele e começou a falar algumas besteiras. Aproveitei a oportunidade e larguei fora.

Cheguei no posto e o movimento tava fraco. Três pitt boys de camisas moldando o corpo bebiam energéticos e se socavam ao mesmo tempo. Parei o corsa do outro lado e desci pra comprar uma ceva. O atendente, meio assustado com o gritaria da rua, livrou-se de mim rapidamente. Voltei para o carro e liguei o rádio. Coloquei o cd do Led a uma altura razoável, para não escutar o relinchar daqueles três. Nem bem o Jimmy Page iniciou o solo estridente de sua guitarra, um dos retardados avançou o olhar sobre mim. Continuei sorvendo a polar e aumentei um pouco o som. Então todos franziram a testa e estufaram o peito. Tô cagando, ballbuciei. Até que eles não aguentaram. O de blusa vermelha com a cara do Che estampando o peito pulou para dentro da Toyota cabine dupla e deu play no rádio. Aquela musiquinha repetitiva que se escuta em raves foi irradiada e suprimiu a voz de Robert Plant. Opressores e orpimido. Nada mais natural.

Ligo pra Cléo. Tava dormindo. Já são três e meia da manhã!, ela diz. E daí?! Insisto até ela aceitar. Manobro o carro em frente a sua casa dentro de minutos. Estou bêbado. Suado. Cansado. Fedendo. Barbudo: e mesmo assim ela quer dar pra mim. Enquanto eu passo de corsa acompanhado de uma guria na frente do posto, os três idiotas rebolam num ritmo atrofiado sob o som do bate-estaca. Buzino pra eles. Eles abanam. Quando veêm que sou eu mandando à merda, contraem os braços e vociferam alguns palavrões imprecisos. Tô cagando! Acelero o carro para não haver chance nenhuma de saírem atrás, e baixo o vidro pra ver se o vento me tira um pouco do porre. Nem sei se consigo comer a Cléo direito.

Rodamos durante algum tempo enquanto ela me conta como foi seu dia de trabalho. Eu gosto da voz dela. Talvez o corpo não me atraia sempre. Normalmente quando ligo é nesse horário, e pela falta de companhia melhor. Mas o jeito como me trata; a gratuidade de sua bondade e a pele clara e asseada de um frescor que parece recém ter saido do chuveiro também me deixam maluco. Encostamos numa área afastada, próxima a uns sítios, a alguns quilômetros do centro. Estaciono ao pé de um poste de lâmpada fraca. Reclino os bancos com a habilidade proveniente da repetição. O álcool acumulado não chega a atrapalhar. Ela tenta balbuciar mais algumas palavras: você sempre me esquece depois disso. Eu sei, respondo impaciente. A calça jeans da Cléo já está no banco traseiro. Termino de me despir e nos enrolamos entre cintos de segurança, freio de mão, direção e porta-luvas. A buzina dispara. Alguns gemidos curtos em meus ouvidos. Os vidros embaçam e o carro balança num dançar que aumenta gradualmente. Tudo acaba muito mais rápido do que o esperado. Ela se desculpa por isso. “Sinto muito, Carlos”. Aceito o pedido e partimos.

Levo ela em casa. Passo na beira pra apreciar a tranqüilidade da madrugada e rir dos bêbados que esperam mais um nascer do sol. Ligo novamente o cd do Led. Agora sem qualquer obstáculo para me impedir de receber a mensagem de Plant. O corsa avança pelo paralelepípedo irregular que leva ao meu apartamento. As ruas estão vazias. Os primeiros raios de sábado despontam sobre os morros de Porto Alegre. Ainda bem que o fim-de-semana tá só começando.

Guilherme

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