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Archive for agosto \16\UTC 2006

O Barquinho

Há um barquinho que navega sobre o Guaíba. Nessa tarde cinza e sem graça, sob a chuva de pingos grossos ele luta bravamente contra o vento áspero e frio. Não consigo enxergar com precisão, mas parecem dois tripulantes a bordo. Sobre o que conversam? Alguma aventura mais excitante, mares revoltos e bravios? Talvez. Talvez a amargura de não comandarem mais pomposos navios lotados de figuras da alta sociedade. Os anos passados em oceanos desconhecidos e no frescor dos portos. O uniforme branco feito algodão recém colhido que usavam. As medalhas que luziam sob o sol de alguma primavera.
Mas agora apenas lamentam, tenho certeza. Os amarelentos casacos, as condecorações enferrujadas, o convés fantasma do navio que não mais existe. Apenas as ondas anãs do Rio Guaíba. Apenas a tristeza do barquinho escuro. Protegidos por uma precária lona negra apreciam a derrota com resignação e covardia.

Guilherme

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O choro do rio

Os primeiros raios nasciam
Alaranjados e esguios
Colorindo o rio sem graça
Emprestando vida à alvorada

O sorriso largo da manhã
Desprendia a amargura
Da noite fria e triste
Que a lua despedia

E acossado pelo sol
O rio chorou caudaloso
De suas lágrimas brotou
A vida de som e gozo

Guilherme

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A menina

Olhem para aquela criança desbotada sob o sinal. Olhem para aquela criança de olhar vazio, pés descalços e bainhas das calças carcomidas. Aquela criança que mendiga um real, dois. Aquele bichinho que ainda carrega traços humanos. Aquele amontoado de poucas carnes, muitos ossos e fome. Muita fome. Acelere o carro. Estaque o automóvel no sinal vermelho. Debrie a primeira marcha esperando a sinalização para seguir. Agora, vire o rosto. Aí. Esse é o retrato de seu descaso.

Ela acorda quando o sol nasce. Calça os chinelos tamanho trinta e dois; eles não resistem ao cimento da calçada e rasgam pouco depois. Veste o abrigo tamanho treze anos, que ainda fica um pouco grande, e caminha seis quilômetros da Nova Guaíba até o Centro. Aquece os dedos com baforadas esparsas e parte para a humilhação. “Um trocado, tio?!”. Pede e pede. Procura o pote que deixou escondido no final da tarde de ontem. Cadê? Aqui. Leva-o até o nariz e respira com avidez. Cola. Muita cola. Caminha tonta pela faixa de segurança. Está quase em frente à Pompéia. A fome já passou. O frio, não. Pratica um pouco mais de mendicância. Recebe alguns olhares de desprezo, outros de pura indiferença. Ao avistar a esquina da São José com a Vinte de Setembro, surpreende-se com uma caminhonete Toyota reluzente que dobra naquele momento.

Observa as suas curvas perfeitas, a prata bem tratada, os pneus negros e polidos. O automóvel encosta exatamente ao seu lado. Transforma-se num espelho. A menina se olha. Se toca. Se vê na Toyota. A Toyota é o espelho onde ela redescobre o seu rosto – envelhecido e triste. Ela redescobre os dentes amarelados e desparelhos. Ela redescobre os cachos pretos de seus cabelos – engrossados pela sujeira e falta de banho. Ela redescobre-se por completo, em segundos renasce. Por pouco tempo. O carro solta um apito alerta. Os vidros automaticamente elevam-se. Uma senhora elegante e longilínea, com o rosto coberto pelos óculos escuros e expressão nauseabunda, dirige-se ao brigadeano mais próximo. Como uma empregada doméstica competente que é, ele afasta a sujeira travestida de menina – de olhos tristes e grossos fios de cabelo – para longe da Toyota. Que brilha como um diamante no sol do meio-dia que vigia Guaíba de cima. Como um olho que a todos vê. Quase todos. A menina recosta-se na sombra mais próxima. Senta-se sobre a calçada irregular e inala com vontade seu pote de cola.

Guilherme

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Diálogos de Motocicleta

Fim de tarde em Guaíba. A beira começa a encher. São carros, bicicletas, pernas, braços, bundas e uns poucos cérebros. Numa dessas infelizes tardes, resolvi arriscar-me a caminhar no calçadão. Por descuido ou sorte, jamais má intenção, ouvi um diálogo amorosamente imbecil:

– Tá ou não tá uma belezinha?
– Ai, brigada amor!
– Eu não tô falando de ti, idiota. Tô falando da Angelina.
– De quem?
– A Angelina, sua surda!
– Quem é essa tal de Angelina, Jéferson?
– É a minha moto, Raquel, a minha moto. Tá cansada de saber.
– Hum.
– Olha bem essa curvinha tão bem encerada, esse cano que ronca feito boi bravo, esse guidom dourado que eu instalei. Os guris vão enlouquecer, não vão?
– Vão, Jéferson. Ah se vão.
– Então, monta aí.
– Péra.
– Vrrrrrrrrrrruuuuummmmmm…
– Escuta só!! Fala, Angelina! Fala comigo!
– Vrrrrrrrrrrruuuuummmmmm…
– Quê, Jéferson.
– Eu não tô falando contigo, mas será o pé do cachorro.
– Ué, tu pediu pra falar contigo?!
– Eu tô falando com a Angelina.
– Fala, Angelina!
– Vrrrrrrrrrrruuuuummmmmm…
– Isso, isso. Essa é minha garota. Vê se agarra direito aí, Raquel. Que a Angelina tá brava hoje.
– Ah, meu Deus.

Eles partem. Jéferson, Raquel e Angelina – que cospe alguns metros cúbicos de fumaça, sufoca meia dúzia de pedestres e geme mais alto que o som do carro vermelho rebaixado.
Ah, Guaíba. Terra dos deuses. Somos ou não somos abençoados?

Guilherme

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Bestas tricolores

Eram bestas vestidas de azul, preto e branco. Rosnavam, suando feito leitões alvoroçados com o abate. Eram centenas de anormais e descerebrados. Eram guerreiros idiotas – munidos de ignorância e podridão.

Quando a cerca que separava gremistas e colorados no Beira Rio foi arrancada do chão feito inço do campo pelos torcedores gremistas, no Gre-Nal do dia 30 de julho, a tragédia já acenava de longe. O jogo ainda estava em seu início – que minha memória não me traia – e as equipes se alternavam em ataques despretensiosos. Demorou algum tempo para que a Brigada Militar conseguisse conter o confronto, alguns minutos. Mas era apenas o prenúncio de uma catástrofe maior. Algo que deixaria gremistas, colorados, torcedores de todos os times gaúchos e brasileiros atônitos, inertes.

Ainda no primeiro tempo, a bola é jogada para a lateral do campo, recebe o abraço desajeitado do pé de Jeovânio – mal sabia ela que seriam seus últimos segundos como protagonista daquela noite – e a câmera da televisão desvia sua atenção para as arquibancadas. Um banheiro ecológico é carregado pelos torcedores gremistas como se estivessem num enterro em um cemitério lotado. Ele foi repassado de mão em mão até alcançar a tela de proteção. Em segundos, é arremessado para a Coréia – setor do estádio desativado há algum tempo. Um banheiro. Inaceitável, mas nada que assustasse a todos em demasia. Por pouco tempo.

Outro banheiro é levado para o mesmo local. A situação começa a ganhar contornos dramáticos. Na etapa complementar, o show da desalmada Geral do Grêmio chegou ao seu clímax. Depois de perfilar todos os precários toaletes que a diretoria colorada disponibilizou para os tricolores, um dos desequilibrados ateou fogo no banheiro mais próximo. A chama alastrou-se rapidamente e uma cortina negra de fumaça ergueu-se. Parecia mais uma parede. Como se os deuses do futebol estivessem punindo aqueles idiotas pela barbárie que empregaram, proibindo-os de assistir ao jogo.

O saldo foi muito caro para o Inter. Mais de R$ 165 mil, segundo fontes coloradas. Mas mais caro do que a quantia monetária que levou Fernando Carvalho à loucura, foi a declaração infeliz de Túlio Macedo. Desconfio de que ele não saiba a quantas pessoas representa no cargo que ocupa. A quantos anos de história, títulos. Afirmar que aqueles atos de terror do último domingo são corriqueiros é uma temeridade. Triste. Muito triste.

Mais triste do que a atuação medíocre do Grêmio contra o terceiro time colorado; mais triste do que a décima terceira posição na tabela; mais triste do que a insegurança de Pereira, a arrogância de Hugo e a teimosia de Mano; mais triste até do que a noite fria que agora ganha o céu e escurece lentamente o Rio Guaíba.

Guilherme

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