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Posts Tagged ‘Iniesta’

Todos sabemos que Iarley adentrou o Beira-Rio no último sábado e fez com o Inter o que costumava fazer aos adversários colorados em anos pregressos, confirmando-se como o Ryan “Interminável” Giggs do futebol brasileiro. Sabemos mais: que o Grêmio de mais sorte que juízo do Renato fiou mais uma vez uma vitória sua nos pactos e sangrias macabras cujos poderes selam o gol de Victor e inclinam os adversários a atos incompreensíveis, tal qual gols contra de invulgar categoria. Sabemos disso tudo.

Ocorre que isso tudo se reduz à categoria dos acontecimentos comezinhos, ordinários, à segunda rodada de um campeonato enfadonho de 38 delas e sem final. Enquanto isso, no reformado Wembley, também no sábado, um argentino de 24 anos, radicado na Catalunha desde o limiar da adolescência, fez ecoar as trombetas do apocalipse e sepultou qualquer crença sobre a necessidade dos três volantes no futebol, sobre a cultura defensivista, sobre tudo aquilo que Felipão, Celso Roth, Mano Menezes (pré-cariocalização) tomaram como verdade inequívoca e que eu e tantos outros reverenciamos numa liturgia ortodoxa nos últimos anos.

Uma a uma, Li(e)onel Messi fez tombar todas as certezas que o futebol gaúcho ou o futebol gaúcho que eu idealizei firmou durante décadas. E por mais que eu tentasse apagar o televisor, meus dedos não obedeciam. E por mais que eu desejasse praguejar depois de cada gol ou lance inverossímil do Barça, minha boca insistia nas gargalhadas, e as lágrimas eram todas de alegria, uma alegria perversa, mas verdadeira.

E aí o que me resta depois deste fim de semana é voltar a torcer pelo Grêmio, e aceitar que não se trata mais de futebol, trata-se de paixão, de fidelidade com uma bandeira, da construção de uma identidade e do engajamento em defendê-lo mesmo em terrenos inóspitos. O futebol de verdade, provou o Barça novamente no sábado, tem relação estreita com a beleza, e nesses casos o resultado quase é rebaixado à categoria do coadjuvante, numa utopia de se valorizar o jogo, a habilidade, o conjunto, nunca o placar. É claro que a doutrina de vida ocidental condenaria tal escolha e imporia sobre Barcelona algum embargo econômico ou forjaria armas químicas em seu território para não permitir a repetição de sua cultura romântica em outras localidades. Mas quem não pagaria para ver Messi, Xavi, Iniesta e todos os outros artistas catalães jogarem o que sabem, mesmo sem um placar para quantificar em gols o resultado? Restaria a medida da beleza nos olhos de cada espectador, produto abundante em mágica, contudo impossível de apalpar.

Mas nesta final da Champions ainda havia placar, ainda havia a medida pragmática, ainda havia a medida que sonega o real valor do futebol barcelonista. Restou a Pep Guardiola e seus asseclas, então, reafirmarem que vencem nas duas esferas, que alcançaram um grau de entrosamento tal que, mesmo diante de esquadras de erros escassos, esquadras de movimentos sub-reptícios e positivistas, esquadras pragmáticas, como a do Manchester United, reafirmarem que não há no momento time capaz de anular seu futebol vencedor, sua poesia redentora independente de resultados. Pedro, Messi e Villa fizeram os gols azul-grená. Rooney garantiu a honra dos ingleses no placar clássico de 3 a 1.

As próximas quartas, quintas, os próximos sábados e domingos virão, e com eles mais jogos do Brasileiro. O futebol, contudo, adormece até agosto, quando o Barcelona volta aos campos. Até lá, peço a Renato que não tente fazer seu time jogar futebol, peço a Renato que tente fazer seu time ganhar, tente fazer o que é possível, isso basta. O impossível, desde 2008, apenas um clube consegue. O resto é fidelidade, bandeira, paixão inalienável, mas nunca futebol.

 

Tudo sobre a final aqui.

 

Guilherme Lessa Bica

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Há uma dicotomia de cinco séculos, há um maniqueísmo ancestral, há uma clara confrontação de duas visões de mundo irreconciliáveis nessa final da Champions League entre Barcelona e Manchester United. Há mais, muito mais. Há o calor, a pulsação frenética, a natureza sanguinea de uma Catalunha – região onde fica Barcelona e cuja emancipação é reivindicada nos dias de hoje com o mesmo fervor que os estancieiros levantaram guerra por aqui, em 1835 – representada em detrimento da Espanha. Há, de outra parte, o calculismo enregelado, a sobriedade aristocrata, até mesmo o céu plúmbeo industrial de uma Manchester que prova a cada dia ser a capital inglesa do futebol, ainda que Liverpool e Londres insistam em sonegá-la. Há, portanto, o romantismo azul-grená cujo futebol remete a textos de Cortázar, Faulkner, Raduan Nassar, a prosa que se assanha em bailes promíscuos e libidinosos com a linguagem poética. Dividindo o campo com o pragmatismo vermelho britânico que pouco erra, que engendra construções táticas em claro objetivo de anular o adversário e açoitá-lo, no minuto seguinte, em contra-ataques inapeláveis.

A verdade inexorável, vos digo, é que a decisão em Wembley permite a famosa ‘Nega’ no par ou ímpar, pedra tesoura e papel, jogo da velha ou qualquer outro jogo de azar ou sorte que as duas equipes travam em gramados europeus e que resultou num empate de duas Copas dos Campeões para cada lado na última dezena de anos. Além do favoritismo nascido da natureza alienígena que inventou em seu futebol, o Barça traz consigo as lembranças benfazejas da decisão de dois anos atrás, quando derrotou os Diabos Rubros ainda com o patrício, modelo, gogoboy e quilôMetrossexual Cristiano Ronaldo.

Rooney: o leitão rebelde

Ocorre que o gajo não alinha há duas temporadas o time inglês. O que reinstalou a soberania do maior fiador que o Manchester possui em seu futebol há mais de 20 anos. Alex Ferguson. O escocês de tez rosada, olhos pequenos e ruminação eterna de um chicle – que deve ser o mesmo que o ajudou a largar o tabagismo há uns 150 anos –, o escocês e Sir é o treinador eternoem Old Traford, mago incontestável do terreno lindeiro ao campo, responsável maior pela ascensão de seu time ao panteão de grandes europeus, ou retorno a ele, algo que não acontecia desde as décadas de 60 e 70, décadas de Bob Charlton e George Best.

Para a contenda de amanhã, Ferguson aposta em alguns figurões, ainda que o coletivo seja o craque propulsor da equipe. Van Der Sar – El Maledeto! – encerra a carreira em Wembley; Vidic, zagueiro sérvio cuja frieza remete ao lendário Dolph Lundberg, vive seu melhor momento; Giggs, o interminável, aos 37 anos e com as têmporas denunciando a idade avançada numa coloração cinza claro, distribui assistências com a saúde de um neófito; e Rooney, o leitão rebelde, carrega nalgum canto de seu temperamento explosivo um futebol de mesma proporção, basta saber se ele estará disponível desta vez.

Ferguson, contudo, terá que lidar com algo que está além de nossas vãs compreensões, de nossos cérebros arcaicos e subdesenvolvidos de primatas pouco mais elaborados. O Barcelona sempre carregou consigo a empáfia futebol bem jogado, do passe simples e belo, sempre encampou a doutrina do não-balão. O que Pep Guardiola fez nestes últimos anos à frente da principal bandeira esportiva catalã, porém, foi elevar esse conceito ao seu máximo, torná-lo inviável de se copiar em qualquer outro time do mundo que não tenha sido forjado nas canteiras – divisões de base do Barcelona – quintal mágico onde esses homens de agora são iniciados ainda meninos em matérias pautadas na elegância de Beckenbauer, na inteligência de Kroeff, no chute de Rivelino, na condução de bola de Maradona, na realeza de Pelé.

O Barcelona é a prova de que qualquer garoto, por mais desajeitado que seja, pode aprender os meandros básicos do drible, do passe, do chute, vide Piqué e Valdés. Puyol, é claro, configura-se na exceção para confirmar a regra. Xavi, Iniesta, Busquets e sobretudo Messi, o ET Messi, o ‘QuePorraÉEssaQueEleTáFazendo’ Messi, representam o mais alto grau desta crença. Messi desmancha marcações com a mesma facilidade inverossímil que um homem médio derrubaria uma parede grossa de concreto empurrando-a com cuidado, sem forçar nada, como se a marcação, no caso de Messi, a parede, no caso do homem, aceitassem sua condição coadjuvante, e se rendessem ao futebol mágico do argentino.

Xará de Brizola; futebol de Maradona

A dicotomia, o maniqueísmo, o confronto ancestral entre romantismo e pragmatismo não cessará depois deste sábado. Mas que conceitos serão revistos, certezas cairão por terra, sonhos tombarão esquartejados, suor e lágrimas copiosas derramar-se-ão pelo gramado derradeiro, numa resolução bela e trágica ao mesmo tempo, sobre isso não restam dúvidas. As feridas e as alegrias de qualquer final tatuam-se por tempo considerável na pele daqueles que a acompanham mesmo à distância, protegidos pelo anonimato. As feridas e as alegrias de uma final de Champions League cobram sua memória para sempre.          

 

Tanto a imprensa espanhola quanto a inglesa cravaram as escalações nos pergaminhos heréticos de seus jornais, e asseguram que Pep Guardiola e Alex Ferguson adentram o gramado adestrandro os pupilos abaixo.

Barcelona: Valdés; Daniel Alves, Piqué, Mascherano e Puyol; Busquets, Iniesta e Xavi; Pedro, Villa e Messsi.

Manchester United: Van der Sar; Fabio, Ferdinand, Vidic e Evra; Carrick, Giggs, Park e Valencia; Rooney e Hernandez.

 

BARCELONA  x  MANCHESTER UTD (Amanhã, às 15h45min, “Estádio, Tempo, irmão gêmeo do Maracanã” Wembley, Londres/ Inglaterra)

 

Guilherme Lessa Bica  

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Voadora campeã no Capeta

Voadora catalã no Capeta

 

O Vaticano é uma cidade-estado encravada em solo romano desde 1929, doada pelo Tata italiano Benito Mussolini. Pois na tarde de hoje, a alguns quilômetros dali, no estádio Olímpico, um Diabo Vermelho ousou reafirmar seu domínio europeu e estendê-lo inadvertidamente sobre as terras do velinho boa-praça Ratzinger. É claro que Nosso Senhor não permitiu. E o Barcelona mais uma vez ensaiou as ciranda-cirandinhas dos baixinhos Xavi, Iniesta e Messi que tanto encantam e enganam os desavisados e românticos da bola, levando a Copa dos Campeões pela terceira vez em sua história por convincentes 2 a 0.

 

Quem escapuliu do labor enfadonho de todos os dias para espiar o começo de partida e viu apenas os primeiros nove minutos, certamente tomou aquele cagaço quando chegou em casa e conferiu o resultado. O Manchester não só dominou o começo de jogo, mas tomou a iniciativa com arremates e arrancadas incisivas, sobretudo de Cristiano Ronaldo. Todas elas para fora. Todas flertando com a trave de Valdes.

 

Mas foi só. Depois daquele começo insinuante, amedrontando catalães e anulando o pequeno notável Messi, o time de Alex Ferguson se perdeu, virou um amontoado de jogadores medianos e explicitou os equívocos que seu treinador promovera na escalação. Já na primeira investida do Barca, aos 10 minutos, Iniesta recolheu a bola na meia cancha, livrou-se com facilidade de dois adversários e enxergou Eto’o solitário no vértice da grande área inglesa. O camaronês dominou com a afobação habitual, deu um corte telegrafado no zagueiro e bicou a bola contra parte da palma da mão esquerda de Van der Sar, marcando o primeiro tento. A vitória começava a se desenhar com pouco mais de dez por cento do tempo total de partida.

 

Daí para a frente o time de Pepe (Já tirei a vela!) Guardiola transformou a final num treino de dois toques. Sem pressa, chegava como queria na retaguarda britânica. Ao passo que os vermelhos batiam cabeça. O sul-coreano Park parecia aquele guri ansioso nos bancos das quadras de society, à espera de uma chance no jogo de adultos, mas cuja atuação desaponta quando ingressa na partida e é humilhado nas divididas pela desproporção na envergadura das panturrilhas, pelas pernas ainda curtas e insuficientes para ocupar o seu quinhão no campo. Giggs não sabia se marcava ou armava: absteve-se das duas tarefas. E o máximo que Ronaldo fez até o final foi ensaiar caretas e pequenos esgares que acentuam ainda mais sua inerente arrogância.

 

Homem não chora (Pssss!)

Homem não chora (Pssss!)

 

O segundo tempo arrastou-se incrivelmente com uma letargia que se costuma ver nas fases preliminares da Champions, jamais numa decisão. Nem os ingressos de Tevez e Berbatov animavam os diabinhos cabisbaixos. O primeiro lance interessante foi a tentativa adolescente de Ronaldo acertar uma bola, jogada a campo pelo banco catalão quando a partida já estava reiniciada, no treinador adversário. Ali, naquela iniciativa, ele iniciou uma série de infortúnios ingleses que prosseguiu na agachada ridícula de Evra, evitando um lançamento de Van der Sar e entregando a bola a Puyol, e alcançou seu apogeu no lançamento diagonal de Xavi para Messi e a perícia incomum do argentino no cabeceio que definiu o placar final.

 

 

O Diabo era, enfim, sepultado. Messi sacramentava a condição de melhor do mundo e resolvia, dez meses antes da data prevista, a eleição da FIFA a seu favor. O Barcelona promove uma ode a equipes perdedoras das quais é herdeiro (Brasil de 1982, Holandas de 1974 e 1978) e mostra que se pode vencer com alguma frescura. E a alguns quilômetros dali, no Vaticano, Ratzinger certamente ensaiou um trocadilho em alguma das línguas que domina, sobre o Diabo ser derrotado na terra de Deus.

 

Fotos: espn.com.br

 

Guilherme

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Carótida prestes a explodir

Carótida e adversários prestes a explodir

 

Cristiano Ronaldo é um inconformado. Aos 43 minutos do segundo tempo, jogo e confronto semifinal da Champions League contra o Arsenal resolvidos a favor de seu time, dois gols dos três que o Manchester marcara na partida feitos por ele, o português se posiciona para cobrar uma falta de distância pretensiosa. Marcha para a bola, prende o pé e vê o chute se perder longe do gol do já resignado Almunia. O que faz Ronaldo? Grita, esperneia, se lamenta como se daquela falta dependesse a classificação de seu time. E não foi só ali que ele fez isso.

 

Quando chegou ao Manchester, apontado como substituto de David Beckham, Ronaldo não parecia que ia dar conta. A pouca idade, dezoito anos, as firulas em excesso e a preocupação recorrente em fazer caras e bocas para as câmeras, tudo sinalizava para um genérico português de Robinho. Mas duas sumidades do futebol cruzaram seu caminho, e certamente ensinaram a arte do inconformismo: Alex Ferguson e Luiz Felipe Scolari. Desde que começou a trabalhar com ambos, Ronaldo caminhou com passos seguros para ser o melhor do mundo. Ambos convenceram-no de que precisaria correr muito mais, chutar muito mais, treinar muito mais do que Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Zidane, por exemplo, se quisesse chegar lá. E ele quis.

 

Por que o Manchester está na final?

 

Um time bem ajustado, com jogadores competentes e um deles com coragem para resolver pode ser um time campeão. É o caso do Manchester. E não é o caso do Arsenal, derrotado ontem por 3 a 1. Fabregas, Adebayor e Van Persie, teoricamente os craques dos Gunner’s, não sabem fazer isso. É verdade que o time de Londres acaba de contratar o russo Arshavin – impedido de atuar ontem porque já jogou na primeira fase pelo Zenit –, e a partir daí começa a formar uma equipe forte para a próxima Champions.

 

Mas aí recairíamos em previsões longínquas e precipitadas. A única certeza sobre tudo isso é que o Manchester está novamente na final da Copa dos Campeões.

 

Curte aí os melhores momentos do jogo.

 

 

Aos cinco e sessenta

 

Que horas são, Papai Papudo?

Que horas são, Papai Papudo?

 

No outro entrevero, que repartiu o gramado londrino de Stamford Bridge, o Barcelona avançou ao jogo decisivo em Roma. Pouco adiantaram a superioridade do Chelsea, a postura amedrontada, mas eficiente, que novamente amordaçou Messi, Eto’o e Henry, tampouco as jogadas criadas e desperdiçadas por Drogba.

 

Essien marcou para os Blues, logo no início, e o placar permaneceu apenas com o gol dele até os 47 minuntos do segundo tempo. Quando as esperanças catalãs já esmoreciam e Papai Papudo já se despedia da criançada, Iniesta vestiu a fatiota de vilão do dia e empatou o jogo, decretando a eliminação dos donos da casa, visto que o marcador do confronto de ida não teve gols.

 

Iniesta: o cara que fez o Barça se livrar de Deco

Iniesta: o cara que fez o Barça se livrar de Deco

 

Manchester e Barcelona se encontram dia 27 de maio, na terra de Nero, Augusto e Marco Aurélio para resolver quem é o melhor time da Europa.

 

Fotos: Ronaldo: telegraph.co.uk; Bozo e sua turma: picasaweb.google.com; Iniesta: elcalccioblog.it.

 

Guilherme

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