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Posts Tagged ‘Conto’

Conto livremente inspirado em Mulheres de Atenas – canção do Chico Buarque – publicado na Mojo Books. É só clicar aqui para ler.

 

Guilherme

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 O Tisserand está sendo atualizado com intervalos de tempo acentuados e, com isso, os acessos caem bastante, o que nos deixa triste.

Buscando uma interatividade com você, leitor – que ainda busca novos textos neste espaço – temos uma sugestão: deixe nos comentários três palavras-chave para que façamos um conto a partir delas. Eu farei a primeira parte e o Guilherme encerra. (ex. Futebol – Brasil – Atacante)

No aguardo,

Fabio

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The Nose

* Conforme anunciado aqui no blog, participamos da Antologia “Vôo Independente 6” da Associação Gaúcha de Escritores Independentes. Para quem não teve oportunidade de comprar o livro (quem quiser, avise no comentts), aí vai o meu conto, dividido em duas partes. Mesmo para quem já leu o livro, vale a pena conferir, pois aqui no TISSERAND, o texto está na íntegra, sem os cortes de Edição da AGEI. Boa Leitura.

Parte 1

O azul cerúleo acompanhado de vapores condensados na atmosfera em gotas de dimensões muito reduzidas emoldurava o ambiente. Era um suntuoso dia de verão, daqueles que, ao final da tarde, os despretensiosos raios solares deixam de resplender e iluminar as ruas, convidando uma garoa preguiçosa a lhes fazer companhia e aguardar ternamente a visão singular da construção do arco-íris. Ele nem liga. Segue a caminhada, depois de mais um desgraçado dia de labor. Rafael De La Crus. Com S. Responde sempre, ríspido, ao ver escreverem seu nome errado. Rapaz jovem, cabelos castanhos na altura das orelhas assimétricas, que acabam por ser esquecidas, devido ao caroço protuberante no nariz, o qual lhe rendeu diversas alcunhas pejorativas na infância. As duas últimas quadras atravessou sem olhar para os lados, confiando fielmente na sua esguelha, ou melhor, não parou desejando sentir um frio na região abdominal e tornar um pouco mais relevante a pacata noite de sexta-feira que estava por vir. Chegou em casa seis e meia. Abriu uma Skol. Riu do tilintar da lata, e, sem perceber, acabou embaraçado de estar ali bebendo sozinho, sem uma comemoração especial. Ligou a tevê, zapeou os canais com certo desprezo, findando as mudanças justamente na emissora que condenava. A chamada da novela das oito o derrubou. “A Bunda da Negrini!”. Ergueu o copo de requeijão com a galhardia de estar segurando uma taça de cristal do mais desejado champagne, e após um afônico “Tim-Tim” sorveu o líquido de uma vez, deixando o copo sobre a mesa, apenas com uma espuma esbranquiçada e o cheiro de álcool acabou por lhe obscureceram as vistas e o aroma de início de trago o fez companhia em seus sonhos libertinos.

Era um rapaz decente. Comedido em suas atitudes, esforçado, e, até certo ponto, culto. Contudo, executava o novo labor, conseguido há alguns meses, a contragosto, não dando o melhor de si. O trabalho de oito horas por dia o angustiava. Considerava um atraso. Obcecado por livros, esbanjava apurados conhecimentos em literatura, o que não acrescentava em nada no emprego de vendedor de artigos importados, – de baixo custo, destinados às classes y e z – , comandado pelo Valdir: um empresário pangaré, quarentão, de bigode com fios alongados e negros, pouco mais de um metro e sessenta e cinco de altura, e noventa e oito quilos. Grande parte destes na barriga. Deslumbrado como novo-rico, despejava todas as segundas e quartas um olhar soberbo com um irritante ar de superioridade frente a seus clientes, diga-se de passagem, os responsáveis pela sua enlevada ascensão. Quando ia, era certo que reclamava de De La Crus. Ao pisar no soalho encerado da entrada principal, o comerciante o procurava. “The Nose, já com essa cara de sonso de novo…Vamo trabalha”, resmungava. Apesar de maldoso, o apelido agraciado na primeira semana de trabalho foi visto com bons olhos por Rafael. Era fã do Gogol. Ele nunca diria isto ao Pança. Jamais entenderia. E o pior: poderia inventar outro apelido. Arrumando os pacotinhos de abridores de vinho, discursava contra a ignorância, divagando suas inquietações rompendo contra os princípios da empresa, e assim o tempo corria como um guepardo no auge de sua virilidade. “Que árdua é essa vida de escravo do Pança. Atrás dessa falsa felicidade tem de haver um monstro. Um explorador filho da puta. Acha que estás me fazendo um grande favor ao jogar sobre o balcão migalhas de notas de dez reais, completando meu ordenado de menos de 400 pilas. Um dia, alguém chega aí e dá um tiro. Não eu. Ele merece apenas a minha indiferença. Mas aquele ordinário há de ouvir. Acha que sou piá. Posso ter vinte e poucos e não me sustentar, para a felicidade dele. O decadente, entretanto, é a sombria vida que leva dentro do seu próprio vazio. Triste vida é a sua, que enche o rabo de dinheiro, explora uma parcela da população que não tem acesso ao conhecimento, e prega que traz a eles a felicidade. Covarde. Não quero que o matem. Ao menos tomar um pau. Isso poderia”. Antes que algum bem-feitor abraçasse a causa do Nose, ele acordou, pouco mais de dez e meia.

Tshik. Abriu mais uma Skol. Enquanto bebia compulsivamente, arriscou uma olhadela pela fresta da veneziana da cozinha e vislumbrou uma noite um tanto nebulosa e pouco estimulante para uma investida na madruga porto-alegrense. Separou outra lata, vagarosamente foi à sala de estar, acomodou-se na poltrona do papai, e folheou desconcentradamente uma edição de “Diário de um louco”, de bolso. A tonturinha não deixava se prender na beleza do texto. As letras embaralhavam-se e os pensamentos libidinosos esvaíam-se com volúpia e logo imaginava-se com uma loira ao seu lado, executando carícias instigantes e acabava por deixá-lo rijo. Precisava sair e arranjar uma guria. Desistiu da leitura, foi ao quarto trocar de roupa. Vestiu uma camisa de flanela, justa em demasia, deixando explícita uma pequena saliência na barriga ressaltando a vida de acomodado. Colocou uma calça jeans, das novas, reservada para ocasiões especiais, avisou a mãe que iria sair, pegou o carro do pai, abriu mais uma lata e se foi. Rindo sozinho.

Fabio

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