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Archive for the ‘Guilherme Lessa Bica’ Category

Numa rodada de empates em abundância, pênaltis desperdiçados aos montes e mudanças comedidas na tabela de classificação do Brasileiro, Inter e Grêmio bem que poderiam ajoelhar diante do altar pagão onde residem os exus que regem os destinos do futebol e agradecer pela igualdade tardia reconciliada aos trancos no Olímpico, pela manutenção da invencibilidade longe do pago fiada nas defesas de Muriel no Couto Pereira. Ocorre que são apenas 13 pontos amealhados nos 10 jogos da Dupla, o que distancia ambos dos sonhos de cifras opulentas que o título e a vaga à Libertadores inclinam.     

Lucinha Lins jogaria mais do que ele

O torcedor do Grêmio já não espera um grande jogo de seu time, nada daquelas tabelas envolventes que o São Paulo proporciona, tampouco os dribles circenses reinventados pelos santistas. Não. O gremista encaminha-se ao Olímpico e carrega nas mãos ainda ensebadas da costela – cujo sabor inigualável forçou-o a perscrutar até o último pedaço de carne alojado no osso – um radinho ou mp3, 4, 5, 6… de onde espera ouvir apenas a certeza de que há chances de forçar a barra, empurrar o adversário para sua área, vencer na marra.

A tarde de ontem novamente obrigou o gremista a ensebar os cabelos nas muitas vezes que lamentou os erros, no gol fantasmagórico de Bernardo, no pênalti desperdiçado por Gabriel, nas incongruências ofensivas cuja quantidade não recomendam otimismo em saná-las, nem mesmo na chegada iminente de Gilberto Silva, Andre Lima, Miralles.

Resta ao gremista voltar pra casa aliviado com o gol de empate marcado por Roberson, uma esperança de que ao menos uma promessa ofensiva vingue, transformar as sobras da costela num carreteiro macanudo e adormecer nos braços inóspitos e obscuros do Domingo Maior ou do Dr. Ray, digerindo a janta feito quem abre uma cova com colher de chá ou quebra um muro de Berlim a socos: na lenta dignidade que toda ignorância teimosa encarna.

Já o Inter tem aos menos uma novidade a comemorar. Diante da falta de sofisticação e pouca habilidade em vender o próprio talento de Lauro e da insegurança crônica de Renan, Muriel parece em condições de envergar a 1 colorada. Defendeu como um condenado à pena capital cujo perdão dependesse de não deixar que sua meta fosse maculada. Seria morto, caso isso fosse verdade, haja vista o gol de David. Nada, porém, que diminua uma atuação impecável.

Aliás, até Edson Bastos, o boneco de posto que os torcedores do Coritiba chamam de goleiro, fez boa partida ontem, confirmando ser mesmo uma tarde de arqueiros. O jogo foi igual, chances para os dois lados, dois ataques técnicos envolvendo defesas precárias.

Depois do gol de Gleidson, um improvável gol de Gleidson, chute a la Dinho do meio da rua, faltou culhão aos colorados e sobretudo ao seu treinador, para ampliar um marcador favorável. Pelas atuações esforçdas, pelas defesas de Edson, de Muriel, pela limitação técnica do Coxa e pelo medo de Falcão, o empate prevaleceu com ares de presidente aprovado em pesquisas confiáveis pela população.

Tabela e classificação aqui.

 

Guilherme Lessa Bica

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A primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor

Nem parecia Vasco e Coritiba. Parecia mais uma final encardida de Libertadores, parecia um daqueles confrontos de abalos sísmicos em decisões de Supercopa dos Campeões da América. E eu logo imaginava o River de Franccescoli, o São Paulo de Zetti(!), ainda que a todo momento Luis Roberto me lembrasse tratar-se do Coritiba de Edson Bastos, do Vasco de Alecsandro. E justamente esses dois, um adotado como novo filho pela Redenção, outro confirmado como Eterno vilão do próprio gol, resolveram a contenda com seus peculiares e atrapalhados defeitos e qualidades.

Alecsandro é um carente. Tudo o que ele queria era ser amado pela torcida colorada. Por isso empilhava gols com uma média respeitável no Beira Rio. Nem por isso era mais respeitado do que Valter, jogador cuja média de cachorros quentes do Rosário ingeridos por semana era sempre superior a todos os gols feitos na passagem pelo Inter. O futebol é assim, há algo além da efetividade que funciona como critério para o torcedor avaliar um ídolo. Alecsandro nunca soube o que era esse algo por aqui. Mas achou-o no Vasco, na carente torcida cruzmaltina, nas feridas ainda não cicatrizadas de anos anteriores, na ausência de ídolos.

E foi todo esse carinho, foi toda essa segurança que ajudaram as pernas embaralhadas do Castor a acertarem o chute que errariam caso atuassem pelo Inter. Éder Luis ingressou na área paranaense logo aos 11 minutos e deixou-o com o gol desnudado à frente. As pernas trançaram-se qual carretilha como faziam nos tempos de Colorado, mas a ventura havia mudado de lado, o Vasco abria o placar. Alecsandro redimia-se.

Então Marcelo Oliveira, esse treinador maroto que logo logo estará no comando de um gigante do futebol brasileiro, sacou o longilíneo mas inócuo volante Marcos Paulo e lançou a campo Leonardo, que não é o Fenômeno, mas usa a camisa 18, o que confere sempre a digna condição de substituto imediato do centroavante. Como era esperado, o Albi-Coxa despertou para a final. E a mesma correria desabalada engendrada em herméticos movimentos por todos aqueles jogadores medianos que se viu nas atuações contra Palmeiras, contra os próprios cariocas desfigurados no último domingo, toda aquela pressão insana passou a açoitar a área vascaína. Tanto que, num lançamento incauto da intermediária, Jonas escorou para a trave oposta e Bill, não o Búfalo, empatou a partida de cabeça.

O Vasco parecia trôpego, como inebriado por algum odor nauseabundo, e de fato ainda cambaleava em campo quando Rafinha marchou intrépido pela área adversária e obrigou Fernando Pras a espalmar para o meio da área, em direção a marca do pênalti. Todos sabemos que uma espalmada para o meio da área cobra caro sua existência. E David, a cabeça mais lúcida do meio campo coritibano, imendou de esquerda para virar o jogo.

Quem te viu e quem te vê, hein, rapaz. Você tinha era manias demais

O segundo tempo traria consigo emoções ainda mais fortes, tanto que Luis Roberto – talvez por falta de vocabulário ou por nervosismo mesmo ou ainda numa tentativa de firmar um bordão clássico na mente de quem o assistia tal qual Galvão Bueno e seu “Brasil e Argentina é Brasil e Argentina, amigo!” – não parava de dialogar com o telespectador com um enfadonho Que jogo é esse, povo brasileiro?! E o Vasco marcou logo aos 12 minutos com Éder Luis em noite de Garrincha e Edson Bastos em noite de Eduardo Heuser, e Luis Roberto: Povo brasileiro, que jogo é esse?! E o Coritiba retomou novamente a vantagem aos 20 com Willian em chute de Dinho, e Luis Roberto: Jogo brasileiro, que povo é esse?! E então a partida virou um duelo de Winning Eleven com pré-adolescentes nos controles em esquemas suicidas de contra-ataques inacreditáveis, e Luis Roberto: Jogo, que povo é esse, brasileiro!? E restaram balões equivocados para a área do Vasco, afastados todos com certeza inequívoca para longe dela, restaram múltiplas chegadas vascaínas à área do Coxa, todos armados por Éder Luis, todos desperdiçados por Alecsandro, e Luis Roberto: Jogo, povo, que brasileiro é esse!?

E Alecsandro errou tudo mais o que fez até o fim do jogo. E Edson Bastos não cometeu mais erros. E ainda assim os erros de Alecsandro não puniram o Vasco. E ainda assim os acertos de Edson não redimiram o Coritiba. E estava acabado o Jogo, estava reconciliado um Povo, estavam aliviados todos os Brasileiros que se livravam, enfim, do Luis Roberto.

O outro Roberto, o Dinamite, conquista o primeiro título de expressão desde que assumiu a presidência, o que devolve alguma dignidade à sua gestão em tempos de suspeitas e investigações sobre ela. Rodrigo Caetano comprova o erro e a incapacidade do Grêmio em manter talentos criados em casa por algum tempo no Olímpico. Não é só com jogadores que não sabemos negociar. Mas Alecsandro, é sobretudo ele, o maior vencedor. Tornou-se, enfim, um ídolo. O que nunca conseguiria por aqui.

 

Legendas: Chico Buarque e Vinicius de Moraes

Guilherme Lessa Bica

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Há uma série de conjunções adversativas nas vitórias da Dupla neste domingo. Num primeiro plano, mais perceptível inclusive aos olhos incautos, a fragilidade dos adversários, recém egressos do purgatório maior do futebol brasileiro, a segunda divisão. Num segundo plano, de foco menos saliente e mais borrado, os acertos dos treinadores muito mais oriundos de ausências benfazejas do que de convicções acertadas. De resto, a centelha da esperança volta a surgir no isqueiro alquebrado de Grêmio e de Inter, apesar dos Lins, dos Rodrigos, dos Neys, dos Rafaéis, apesar dos pesares.

Autoaplauso promovido por jogadores do Grêmio

No Olímpico, o Tricolor venceu da mesma maneira débil, insegura e quase casual que garantiu a maioria de seus triunfos desde o início do ano: na doutrina uruguaia que levou o país do Prata à semifinal da última Copa e um filho de sua terra à final da Libertadores deste ano, a correria desabalada, o toco y me voy inábil mas matreiro, a técnica dissimulada na marcha supostamente raçuda. Os gols do espantalho cangaceiro, Junior Viçosa, contudo, admitamos, foram conclusões de tramas envolventes e elaboradas. O primeiro, um cabeceio correto depois de Fernando e Mario Fernandes avançarem pela lateral esquerda bahiana; o segundo, um bate-pronto ao estilo Jonas, mais sorte do que convicção, depois de Escudero e sobretudo Lins envolverem os conterrâneos de Toninho Malvadeza  numa ciranda bela e ladina.

A outra boa notícia versa sobre a zaga gremista. É o segundo jogo sem sofrer gols, o que afirma Saimon como alternativa para o setor, recupera Rafael Marques e reforça a certeza de que Neuton devia carregar a 6 titular desde o início do ano.

Tenso!

O Inter foi até Campo Grande e tirou o Coelho da cartola para aplicar-lhe a devida sova que redime os pecadores, estica lençol, passa um pano de prato na mesa, varre o pátio, enfim, arruma a casa. Falcão finamente freou a sanha européia que lhe comicha as mãos e por certo promove aqueles tiques nervosos que quando enquadrados num close global deve assustar até a dona de casa distraída em seu crochê dominical, escalou quem deveria escalar e venceu com facilidade o América Mineiro.

Oscar provou que não é reserva de D’Alessandro, provou que jogadores de alta categoria podem atuar juntos, mesmo que sejam gêmeos siameses no estilo. O 4 a 2 foi construído quase todo no primeiro tempo, sobretudo no que diz respeito aos rubros. O mesmo Oscar marcou duas vezes e D’Alessandro e Cavenaghi – no que pode ser o prenúncio de que o argentino enfim desembarcou em solo brasileiro – fecharam o placar. O América descontou com Rodriguinho e Alessandro.

Na próxima quarta-feira, São Paulo e Atlético Mineiro fecham a rodada num enfrentamento pela liderança, o que pode alterar o topo do Everest futebolístico brasileiro. Até lá, porém, a verdade é essa aqui.

Guilherme Lessa Bica     

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Refinamento a serviço do Real Madrid

Nome:  Fernando Carlos Neri Redondo.

Idade: 41 anos.

Cidade Natal: Adrogué, Buenos Aires – Argentina.

Clubes: Argentinos Juniors, Tenerife, Real Madrid, Milan.

Títulos mais importantes: Ligas Espanholas (1994/95, 1996/97), Liga dos Campeões (1997/98, 1999/00).

Função: renovar a doutrina forjada em Beckenbauer nos anos 70, cuja teoria outorga ao volante a função de sustentação técnica da equpe, nascedouro maior das jogadas de ataque, e não somente de guardião do próprio gol. 

Estilo: aristocrata liberal. De um refinamento encontrado apenas nos meias de futebol mais elegante – Zinedine Zidane –, provando não haver contradição em privilegiar a técnica atuando numa posição de natureza destrutiva. O caráter monarca do futebol de Redondo rendeu a mesma postura fora de campo. Um exemplo: a resistência à poda das madeixas argentinas que o treinador Passarela promoveu na Copa de 1998. Apenas Redondo e Caniggia desobedeceram. Apenas Redondo e Caniggia mantiveram a rebeldia do rabo de cavalo. Apenas Redondo e Caniggia não foram à França.

Influências: todo defensor que privilegiu o passe lúcido em detrimento do balão estérico – Nilton Santos. Todo canhoto cuja simplicidade genial suplantou a sedução de dribles parnasianos – Gersón. O nome Fernando Carlos já indica alguma herança real, alguma carga genética orinunda de algum reino esquecido nalgum canto do interior argentino para onde deve ter voltado após encerrar a carreira em 2004. 

Relevância: figura central na mudança de paradigam sobre os volantes. Redondo assumia com frequencia a função de meia. Na marcha paciente e persistente que a habilidade incomum para o corpo longilíneo que ostenta permitia, não raro alcançava a área adversária, conciliando os desarmes obrigatórios à função com assistências de camisa 10. O caso mais marcante ocorreu no segundo jogo semifinal da Liga dos Campeões de 1999/00, em Old Trafford. Redondo roubou a bola de um jogador do Manchester, avançou para a lateral da grande área, aplicou um drible desconcertante no zagueiro Berg, algo que mesclou toque de calcanhar e meia lua, até rolar para Raul classifica-los à final. Sir Alex Ferguson, já treinador dos Diabos Vermelhos à época, perguntava para os outros, para si mesmo, para os deuses, as mãos compondo movimentos desconexos como quem pede clemência aos céus: “O que este jogador tem nas chuteiras? Imãs?”

 

Guilherme Lessa Bica

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Ali onde os parentes menos abonados da coruja dormem

O Santos já é campeão da Libertadores. E o fiador maior deste título, é bem verdade que assessorado de perto por um cobrador de faltas e escanteios competente, Elano, por um treinador calejado e vencedor, Muricylha, acompanhado no protagonismo até a metade da competição por um Ganso confuso fora de campo e seguro dentro dele, o fiador maior deste título, resisto o que posso e prolongo o parágrafo porque sei que ele encerrará com seis letras que maculam para sempre a história de La Copa, seis letras que representam a verdade do futebol brasileiro e americano atual, seis letras que sustentam um moicano emo, doses carregadas de pretensão e futebol abundantes, o fiador maior deste título atende pelo nome de Neymar.

E Neymar é a personificação de tudo aquilo que sempre rebaixei à categoria escatológicas do bom futebol, a personificação de arestas dispensáveis e arabescos que prendem a atenção muito mais pela pose do que pela posse da bola, a personificação sulamericana da doutrina fundada em Cristiano Ronaldo: o jogador que divide a atenção na bola com a preocupação permanente com câmeras e ângulos favorecidos.

Ocorre que o neófito da Vila, embora refém das mesmas idiossincrasias no comportamento que reduzem o futebol de jogadores talentosos à mera extensão de suas personalidades controversas, carrega consigo uma herança que nem o Ronaldo gajo, tampouco qualquer outro europeu receberia: a malícia do futebol brasileiro. Há no talento de Neymar qualquer coisa de Romário quando espalma a mão no peito e intima o companheiro a reconhecê-lo como o destino inexorável do passe, há no taleno de Neymar qualquer coisa de Ronaldo quando anuncia numa pedalada premeditada o lado que escolherá para avançar e ainda assim esnoba no arranque a marcação resfolegante e frustrada, há qualquer coisa de Pelé na cabeça erguida, no chute certeiro, aquele que retira goleiros das fotografias mesmo nos lances de bola rolando. Se a elegância de Ganso remete à parcela europeia de nosso futebol, o jogador aristocrata que decide jogos sem macular o uniforme, Neymar encarna com fidelidade o estereótipo do guri que jogaria da mesma forma descalço em campos calvos e inóspitos o que joga nos melhores gramados do mundo, ainda que tenha sido preparado desde o nascimento para as chuteiras, ainda que nunca tenha jogados em praças sem grama, algo que se explica somente em teorias que versam sobre heranças congênitas ou esprituais.

O empate de 3 a 3 na noite de ontem no Defensores Del Chaco reafirmou duas certezas: o Santos será campeão da América e Neymar é jogador de Libertadores. Como deve confirmar-se também, com o devido tempo, jogador de Copa América, Champions League, Mundial de Clubes, Copa do Mundo e qualquer outro torneio deste ou de outro sistema solar. Apesar do moicano emo, apesar de couverizar Cristiano Ronaldo, apesar das arestas. Porque o jogador talentoso, feito escritor de mesma capacidade, anula qualquer idiossincrasia moral com uma obra prima. Neymar está construido a sua.

 

A outra semifinal:

Hoje, às 21h50min  VÉLEZ  x  PEÑAROL

 

Guilherme Lessa Bica

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Todos sabemos que Iarley adentrou o Beira-Rio no último sábado e fez com o Inter o que costumava fazer aos adversários colorados em anos pregressos, confirmando-se como o Ryan “Interminável” Giggs do futebol brasileiro. Sabemos mais: que o Grêmio de mais sorte que juízo do Renato fiou mais uma vez uma vitória sua nos pactos e sangrias macabras cujos poderes selam o gol de Victor e inclinam os adversários a atos incompreensíveis, tal qual gols contra de invulgar categoria. Sabemos disso tudo.

Ocorre que isso tudo se reduz à categoria dos acontecimentos comezinhos, ordinários, à segunda rodada de um campeonato enfadonho de 38 delas e sem final. Enquanto isso, no reformado Wembley, também no sábado, um argentino de 24 anos, radicado na Catalunha desde o limiar da adolescência, fez ecoar as trombetas do apocalipse e sepultou qualquer crença sobre a necessidade dos três volantes no futebol, sobre a cultura defensivista, sobre tudo aquilo que Felipão, Celso Roth, Mano Menezes (pré-cariocalização) tomaram como verdade inequívoca e que eu e tantos outros reverenciamos numa liturgia ortodoxa nos últimos anos.

Uma a uma, Li(e)onel Messi fez tombar todas as certezas que o futebol gaúcho ou o futebol gaúcho que eu idealizei firmou durante décadas. E por mais que eu tentasse apagar o televisor, meus dedos não obedeciam. E por mais que eu desejasse praguejar depois de cada gol ou lance inverossímil do Barça, minha boca insistia nas gargalhadas, e as lágrimas eram todas de alegria, uma alegria perversa, mas verdadeira.

E aí o que me resta depois deste fim de semana é voltar a torcer pelo Grêmio, e aceitar que não se trata mais de futebol, trata-se de paixão, de fidelidade com uma bandeira, da construção de uma identidade e do engajamento em defendê-lo mesmo em terrenos inóspitos. O futebol de verdade, provou o Barça novamente no sábado, tem relação estreita com a beleza, e nesses casos o resultado quase é rebaixado à categoria do coadjuvante, numa utopia de se valorizar o jogo, a habilidade, o conjunto, nunca o placar. É claro que a doutrina de vida ocidental condenaria tal escolha e imporia sobre Barcelona algum embargo econômico ou forjaria armas químicas em seu território para não permitir a repetição de sua cultura romântica em outras localidades. Mas quem não pagaria para ver Messi, Xavi, Iniesta e todos os outros artistas catalães jogarem o que sabem, mesmo sem um placar para quantificar em gols o resultado? Restaria a medida da beleza nos olhos de cada espectador, produto abundante em mágica, contudo impossível de apalpar.

Mas nesta final da Champions ainda havia placar, ainda havia a medida pragmática, ainda havia a medida que sonega o real valor do futebol barcelonista. Restou a Pep Guardiola e seus asseclas, então, reafirmarem que vencem nas duas esferas, que alcançaram um grau de entrosamento tal que, mesmo diante de esquadras de erros escassos, esquadras de movimentos sub-reptícios e positivistas, esquadras pragmáticas, como a do Manchester United, reafirmarem que não há no momento time capaz de anular seu futebol vencedor, sua poesia redentora independente de resultados. Pedro, Messi e Villa fizeram os gols azul-grená. Rooney garantiu a honra dos ingleses no placar clássico de 3 a 1.

As próximas quartas, quintas, os próximos sábados e domingos virão, e com eles mais jogos do Brasileiro. O futebol, contudo, adormece até agosto, quando o Barcelona volta aos campos. Até lá, peço a Renato que não tente fazer seu time jogar futebol, peço a Renato que tente fazer seu time ganhar, tente fazer o que é possível, isso basta. O impossível, desde 2008, apenas um clube consegue. O resto é fidelidade, bandeira, paixão inalienável, mas nunca futebol.

 

Tudo sobre a final aqui.

 

Guilherme Lessa Bica

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Há uma dicotomia de cinco séculos, há um maniqueísmo ancestral, há uma clara confrontação de duas visões de mundo irreconciliáveis nessa final da Champions League entre Barcelona e Manchester United. Há mais, muito mais. Há o calor, a pulsação frenética, a natureza sanguinea de uma Catalunha – região onde fica Barcelona e cuja emancipação é reivindicada nos dias de hoje com o mesmo fervor que os estancieiros levantaram guerra por aqui, em 1835 – representada em detrimento da Espanha. Há, de outra parte, o calculismo enregelado, a sobriedade aristocrata, até mesmo o céu plúmbeo industrial de uma Manchester que prova a cada dia ser a capital inglesa do futebol, ainda que Liverpool e Londres insistam em sonegá-la. Há, portanto, o romantismo azul-grená cujo futebol remete a textos de Cortázar, Faulkner, Raduan Nassar, a prosa que se assanha em bailes promíscuos e libidinosos com a linguagem poética. Dividindo o campo com o pragmatismo vermelho britânico que pouco erra, que engendra construções táticas em claro objetivo de anular o adversário e açoitá-lo, no minuto seguinte, em contra-ataques inapeláveis.

A verdade inexorável, vos digo, é que a decisão em Wembley permite a famosa ‘Nega’ no par ou ímpar, pedra tesoura e papel, jogo da velha ou qualquer outro jogo de azar ou sorte que as duas equipes travam em gramados europeus e que resultou num empate de duas Copas dos Campeões para cada lado na última dezena de anos. Além do favoritismo nascido da natureza alienígena que inventou em seu futebol, o Barça traz consigo as lembranças benfazejas da decisão de dois anos atrás, quando derrotou os Diabos Rubros ainda com o patrício, modelo, gogoboy e quilôMetrossexual Cristiano Ronaldo.

Rooney: o leitão rebelde

Ocorre que o gajo não alinha há duas temporadas o time inglês. O que reinstalou a soberania do maior fiador que o Manchester possui em seu futebol há mais de 20 anos. Alex Ferguson. O escocês de tez rosada, olhos pequenos e ruminação eterna de um chicle – que deve ser o mesmo que o ajudou a largar o tabagismo há uns 150 anos –, o escocês e Sir é o treinador eternoem Old Traford, mago incontestável do terreno lindeiro ao campo, responsável maior pela ascensão de seu time ao panteão de grandes europeus, ou retorno a ele, algo que não acontecia desde as décadas de 60 e 70, décadas de Bob Charlton e George Best.

Para a contenda de amanhã, Ferguson aposta em alguns figurões, ainda que o coletivo seja o craque propulsor da equipe. Van Der Sar – El Maledeto! – encerra a carreira em Wembley; Vidic, zagueiro sérvio cuja frieza remete ao lendário Dolph Lundberg, vive seu melhor momento; Giggs, o interminável, aos 37 anos e com as têmporas denunciando a idade avançada numa coloração cinza claro, distribui assistências com a saúde de um neófito; e Rooney, o leitão rebelde, carrega nalgum canto de seu temperamento explosivo um futebol de mesma proporção, basta saber se ele estará disponível desta vez.

Ferguson, contudo, terá que lidar com algo que está além de nossas vãs compreensões, de nossos cérebros arcaicos e subdesenvolvidos de primatas pouco mais elaborados. O Barcelona sempre carregou consigo a empáfia futebol bem jogado, do passe simples e belo, sempre encampou a doutrina do não-balão. O que Pep Guardiola fez nestes últimos anos à frente da principal bandeira esportiva catalã, porém, foi elevar esse conceito ao seu máximo, torná-lo inviável de se copiar em qualquer outro time do mundo que não tenha sido forjado nas canteiras – divisões de base do Barcelona – quintal mágico onde esses homens de agora são iniciados ainda meninos em matérias pautadas na elegância de Beckenbauer, na inteligência de Kroeff, no chute de Rivelino, na condução de bola de Maradona, na realeza de Pelé.

O Barcelona é a prova de que qualquer garoto, por mais desajeitado que seja, pode aprender os meandros básicos do drible, do passe, do chute, vide Piqué e Valdés. Puyol, é claro, configura-se na exceção para confirmar a regra. Xavi, Iniesta, Busquets e sobretudo Messi, o ET Messi, o ‘QuePorraÉEssaQueEleTáFazendo’ Messi, representam o mais alto grau desta crença. Messi desmancha marcações com a mesma facilidade inverossímil que um homem médio derrubaria uma parede grossa de concreto empurrando-a com cuidado, sem forçar nada, como se a marcação, no caso de Messi, a parede, no caso do homem, aceitassem sua condição coadjuvante, e se rendessem ao futebol mágico do argentino.

Xará de Brizola; futebol de Maradona

A dicotomia, o maniqueísmo, o confronto ancestral entre romantismo e pragmatismo não cessará depois deste sábado. Mas que conceitos serão revistos, certezas cairão por terra, sonhos tombarão esquartejados, suor e lágrimas copiosas derramar-se-ão pelo gramado derradeiro, numa resolução bela e trágica ao mesmo tempo, sobre isso não restam dúvidas. As feridas e as alegrias de qualquer final tatuam-se por tempo considerável na pele daqueles que a acompanham mesmo à distância, protegidos pelo anonimato. As feridas e as alegrias de uma final de Champions League cobram sua memória para sempre.          

 

Tanto a imprensa espanhola quanto a inglesa cravaram as escalações nos pergaminhos heréticos de seus jornais, e asseguram que Pep Guardiola e Alex Ferguson adentram o gramado adestrandro os pupilos abaixo.

Barcelona: Valdés; Daniel Alves, Piqué, Mascherano e Puyol; Busquets, Iniesta e Xavi; Pedro, Villa e Messsi.

Manchester United: Van der Sar; Fabio, Ferdinand, Vidic e Evra; Carrick, Giggs, Park e Valencia; Rooney e Hernandez.

 

BARCELONA  x  MANCHESTER UTD (Amanhã, às 15h45min, “Estádio, Tempo, irmão gêmeo do Maracanã” Wembley, Londres/ Inglaterra)

 

Guilherme Lessa Bica  

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