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Posts Tagged ‘Universidad Católica’

Não há desculpas possíveis para o fiasco protagonizado pelos clubes brasileiros na noite de ontem. Os quatro times que entraram ostentando a bandeira verde, amarelo, anil e branco, fizeram relembrar um tempo remoto, quando as transmissões televisivas da Libertadores eram escassas, a violência em campos portenhos, abundante, os calções pareciam lavados por uma máquina incompetente e obstinada em encolhê-los e as  camisas não absorviam o suor, o que compunha uma paisagem grotesca sob as axilas dos mais suarentos, a famosa fatia de pizza. Estou falando dos anos 60, 70 e 80, prestimoso leitor, décadas amplamente dominadas por argentinos e uruguaios em La Copa; décadas em que, além da empáfia aristocrata que resiste, o povo do Prata ainda tinha os bolsos cheios de dólares.

Ocorre que os bolsos do Prata esvaziaram. E ocorre ainda mais: não se perde apenas para os times do Prata. Perde-se para chilenos, colombianos, paraguaios. Perde-se com mediocridade e convicção, caso do Grêmio; perde-se com surpresa: casos de Inter e Cruzeiro; perde-se, por fim, por falta de culhões, caso do Fluminense.

 

O estrangeiro

E eu querendo ser campeão da Libertadores

Renato Portaluppi é gremista. Mas Renato é, acima de tudo, um ator. E carioca. E atores, como todos sabem, são vaidosos. Sobretudo os cariocas. Então, que os deuses do futebol despejem alguns raios na cabeça daquele estrangeiro bebedor de água de coco e adorador de praias belas e mulheres quentes. Porque eu quero para comandar meu time alguém mal humorado, conservador, defensor da família e temente a Deus. Já estou de saco cheio, e sei que não invoco essa raiva só, daquelas caretas à beira do gramado traduzindo expressões que, se verbalizadas, diriam “E eu ainda fazendo o favor de treinar o Grêmio”, toda vez que Fernando acaricia a bola com a canela ou Lins pratica aquela modalidade que somente ele pratica em campo, mas que certamente não se trata de futebol.

E foi novamente essa a contribuição de Renato à beira do gramado, no Chile. Escalou o time que as lesões, a miguelice e as outras razões para ausências permitiram escalar, mas sempre, inexoravelmente, do primeiro ao último minuto, vazava os olhos, amparava as mãos na cintura, simulava um sorriso amarelo e transparecia a mesma má vontade que qualquer carioca transpareceria caso fosse obrigado a exilar-se no inverno gaúcho em detrimento das benesses fluminenses. Alguém, por favor, informe a Renato que não há obrigação nenhuma, compre sua passagem de volta e traga para a casamata tricolor um homem sério, de preferência, de bigodes.

O jogo? Partida morna, o Grêmio organizado e limitado, administrando o empate, nos melhores momentos refém de Douglas, Mario Fernandes e Viçosa, sistematicamente atrapalhados, é claro, pelos tumores malignos Gilson e Rodolfo. A Católica? Um time de futebol. Zaga regular, mas segura. Um camisa dez insinuante e habilidoso, Cañete, e, sobretudo, um centroavante – Lucas Pratto – como deve ser: corpulento, técnico e de boa impulsão. Venceu o melhor time. Um a zero.

 

Falcão, o campeão dos campeões*

Beira Rio emula Centenário

No princípio, foi Oscar. Uma infiltração repentina, o gol inesperado, um prenúncio de goleada. Então se perscrutou a escalação colorada: os mesmos quatro defensores, os mesmos cinco meio-campistas, o mesmo atacante solitário em brava luta contra a zaga adversária. E em cada pigmento vermelho daqueles onze uniformes o fantasma do bigode invisível pairava. Em cada contra-ataque do Peñarol, cada gol perdido pelo Inter, e não foram muitos na primeira etapa, o que aumentava a desconfiança, o sarará de beiços salientes pela falta de bigodes era relembrado pelos milhares que acorreram ao Beira Rio.

Sobreveio a etapa derradeira, e com ela uma sucessão de etapas derradeiras. No princípio, foi Alejandro Martinuccio, um argentino com pinta de uruguaio que fatiou a defesa rubra e feriu o ângulo de Renan como há muito não se via fazer com tamanha convicção. E foi já nesse momento que as máscaras começaram a cair e as trombetas do apocalipse iniciaram sua melodia aterradora. Cinco minutos mais tarde, o golpe de misericórdia. O mesmo Olivera que eliminou Adenor Tite, o Bacchi, com a La U de Montillo na Sulamericana de 2009, o mesmo centroavante comprovou que nasceu para jogar no Grêmio e fazer gols no Inter, e lançou de vez o querosene que faltava para inflamar a chama de tradição do Peñarol, fazer renascer o amarelo e preto de cinco Copas e três Mundiais e decretar o dois a um definitivo.

Resta-nos a melancolia da decisão provinciana. Dois Grenais fadados ao fracasso. Aos perdedores, talvez um novo técnico, o que me impele a torcer por dois empates e uma digna derrota nos pênaltis. Aos vencedores, a obrigação de caçoar do rival aos cochichos, sob pena de ouvir gargalhadas caso algum torcedor por de trás das fronteiras gaúchas surpreenda sua alegria ingênua e comezinha.

 

Guilherme Lessa Bica

 

*Homenagem nonsense a Sylvester Stallone

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