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Posts Tagged ‘Maxi López’

A personificação do Aurora

Aurora: mais facinho que a Amy depois de um trago

 

O Aurora foi ontem aquela mulher cambaleante em final de festa que os caras em jejum sexual em alta e censuras morais em baixa arrastam para quartos obscuros e abusam de sua receptividade. O Aurora foi ontem aquele bêbado inconveniente que sempre habita aniversários de criança e provoca os sóbrios mais fortes que ele a o surrarem impiedosamente. Sabe que está fragilizado pela condição ébria, mas – e tome contradição – é impelido pelo mesmo líquido que o enfraquece a dar cabeçada em ponta de faca, a se inflar da magia que engrandece os corajosos. E o Grêmio fez o que se deve, nesse caso: mandar-lhe uma sova bem dada, aquietá-lo. Na verdade, quase: os três a zero arrastados estiveram longe de violentar os bolivianos: não passaram de umas palmadinhas distraídas

 

Mas uma resolução é inegável: os gremistas respiraram ares mais limpos. Há mais de um ano não se criava uma atmosfera de tanta harmonia e apoio irrestrito ao time. Mesmo nas jornadas mais competentes de Celso Roth, uma nuvem de desconfiança avizinhava a Azenha, prostrava-se logo ao lado, relembrando a biografia desafortunada do treinador, seus fracassos maiores que seus sucessos e a certeza de que aquela sequência de bons resultados era um acidente, um produto perecível.

 

O curioso é que o Grêmio jogou para o gasto. Fez sua apresentação menos convincente, não criou tanto quanto nas três primeiras partidas. Victor e o restante da zaga não sofreram com o ataque subdesenvolvido do Aurora. Adílson desarmou com facilidade os meias – embora sejam latentes alguns exageros recorrentes cometidos pelo neófito volante. Makelelê e Fábio Santos não comprometeram. Souza, mais uma vez, destacou-se. E Herrera ainda precisa emagrecer um pouco, ainda que autor de um passe pra gol. Sim, eu sei, faltaram dois. Mas esses merecem parágrafos próprios.

 

Primeiro, o capitão. Tcheco parece cansado. Já não tem a mesma velocidade e disposição do maestro daquele time que chegou à final da Libertadores há dois anos. Tcheco não é um craque. Tem domínio e acerta passes como meia, chuta como um atacante, mas sempre correu como um quarto zagueiro. O que o transformou num jogador fundamental e decisivo foi o preparo físico na ponta dos cascos e a clara noção de suas limitações – qualidade rara entre atletas. A provável chegada de Renato é um sintoma que a minha desconfiança é compartilhada pela direção. E o banco de reservas passa a ser uma ameaça concreta.

 

Agora, Maxi BBB López. Ele não ganhou um milhão ontem, não comeu a Francine, não é o mais novo melhor amigo do Pedro Bial, mas, finalmente, começou a se tornar titular do Grêmio. Afora algumas rusgas mal resolvidas com a bola, o argentino mostrou que sabe jogar futebol. Apesar do aspecto de meia de rede da seleção feminina de vôlei russa, ele ensaiou jogadas assanhadas com os pés e confirmou virtudes importantes para um jogador de sua estatura. O salto e o cabeceio de olhos abertos: tapa de misericórdia no traseiro dolorido dos filhos de Cochabamba.

 

Os outros dois gols, para variar, foram de zagueiros e em bola parada: Rafa Marques e Réver. Resquícios de um tal Celso Roth, que aos poucos vão se dissipar com oxigênio renovado que venta por hora no Olímpico.

 

Daqui a uma semana, tem mais. Na aldeia de Neruda, Allende e do fantasminha, açougueiro e ditador camarada Pinochet, contra La U: aquela do goleiro e mágico ilusionista Miguel Pinto.

 

Foto da Amy: 94fm.com

 

Guilherme

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Quem diria, hein, Roth. Três atacantes

Quem diria, hein, Roth?! Três atacantes!!!

 

Celso Roth candidatou-se, ontem à noite, a ser campeão da Libertadores. Num arroubo de ousadia jamais registrado em sua prolongada, árida de títulos e onerosa carreira, o técnico do Grêmio utilizou de um raciocínio lógico – sabidamente mais eficaz do que invencionices no futebol – e, diante de uma superioridade irreversível do Grêmio sobre o esforçado Zequinha, reforçou seu ataque com um jogador a mais do que o usual: computando, ao todo, três deles. Claramente amedrontado por ter colocado na partida o centroavante argentino Maxi López e deixado no banco o craque Makelele, Roth assistiu ao Tricolor aplicar a maior goleada do ano, comemorou discretamente o gol desajeitado do castelhano com cabelo de Rainha dos Baixinhos e suportou, inclusive, a torcida gritando seu nome ao final do confronto de derradeiro placar 6 a 1. 

 

E o 6 a 1 não foi acidental. Aos vinte e seis segundos de jogo, Tcheco anunciava que a goleada viria. Sentou o pé na entrada da área do São José, depois de jogada bem construída por Fábio Santos e Alex Mineiro – curiosamente, jogadores que ainda oscilam entre boas e desastrosas atuações. Mas, logo, logo o São José empataria o jogo num acidente de percurso. Ou não. Pode-se classifica-lo como um procedimento previamente acertado. Já que o Uh, Fabiano pode atuar até no União, de Rondonópolis, e, mesmo assim, quando este enfrentar o Grêmio, ele vai dar um jeito de marcar um gol. Trata-se da mais pura e incontrolável implicância. Um carma. Algo que compete a esferas espirituais. E, sobre as quais, por prudência e certo respeito ao sobrenatural, não opino.

 

O restante do jogo serviu para recuperar a confiança de jogadores e da relação entre Roth e a torcida. Jonas, o pior atacante de todos os tempos da última semana, fez dois. Léo marcou pelo segundo jogo consecutivo. Fábio Santos aparou de cabeça um cruzamento do marciano Ruy e tomou a dianteira no entrevero com Jadílson pelo corredor esquerdo da equipe. E a cereja do bolo: com um e noventa de altura, cabelos loiros e uma espécie de relação promíscua de atração e retração com a bola, Maxi López, fechou a contagem.

 

Maxi Mize-se

Maxi Mize-se

 

Ah, faltou explicar porque Roth candidatou-se a ganhar o principal torneio futebolístico do Novo Mundo depois de ontem. Fácil: porque, pela primeira vez, refutou o caminho decorado e confortável de suas convicções. Pela primeira vez, violentou a certeza de que deve resguardar sua equipe com pelo menos cinco jogadores eminentemente marcadores. Mandou aquela comunidade do orkut intitulada Volantes de Contenção, que certamente foi criada por algum admirador dele, às favas. Promoveu um auto-estupro necessário. E, o mais grave, gostou. Pois certamente notou que a torcida clamou seu nome, que o gol de Maxi coroou sua escolha em colocá-lo no jogo, mantendo o operário Makelele no banco.

 

O Grêmio, no fim, só ganhou mais um jogo. A torcida, na verdade, despediu-se mais aliviada do que feliz. Mas, Celso Roth, Ah, Celso Roth descobriu a América.

 

Fotos: a de Roth, dum canto obscuro do Google. A de Maxi, de José Doval/Grêmio.net

 

Guilherme

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