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Posts Tagged ‘Bar do Moacir’

* Este texto trata-se de uma obra de ficção.

As gélidas mesas metálicas rubras expostas ao sol porto-alegrense acolhem as dezenas de garrafas de cerveja, que estão, em sua imensa maioria, vazias. As cadeiras dos tempos do Geisel permanecem vigorosas e seguras, apesar da aparência melancólica. A calçada, que muito provavelmente deve ser asseada diariamente com vassouras de bruxa, servia de assoalho para tocos de cigarro, o que tornava a áurea do ambiente lúgubre e densa.

 

Ali, dezenas de colorados permanecem por horas que antecedem o jogo, embriagando-se e entorpecendo-se, com a crença de que estão naquele local por vontade própria. Na verdade, todos estão aprisionados na Clausura dos Espíritos Vermelhos. O ambiente, quase em frente ao Estádio Beira-Rio, é conhecido pela alcunha de Bar do véio Moacir.

 

Somente quem pisou ali, sabe do que estou falando. Ao adentrar, as pernas começam a formigar, a respiração, descompassada, deixa-nos com ar ofegante e os detentores do poder sagrado serenamente dominam nossos sentidos. A partir daí, quase que mecanicamente, todos começam a consumir poções alcoólicas bem acima do nível permitido para quem será motorista horas mais tarde. Mas não é só isso.

 

Uma anciã de aparência amarga, olhar profundo e intimista, te atende sempre da mesma forma: quase hipnotizante. Os cabelos grisalhos, escorridos até as costas, fazem me lembrar das mulheres que foram jogadas a fogueira, há algumas centenas de anos. É ela que comanda o ritual sagrado de domínio das mentes vermelhas. Apesar de semblante ingênuo, ela nos prende por horas e horas, nos arremessando doses homeopáticas de sua poção mágica. Muitos não conseguem se desvencilhar e acabam assistindo ao jogo ali, enfeitiçados pela Clausura, sem entrar no Gigante.

 

Mas ela não age sozinha.

 

No último domingo, o super-star Tim Maia apareceu cantarolando os seus famosos hits, ganhando acalorados aplausos dos detentos vermelhos. Quando ele terminou de cantar, faltavam poucos minutos para começar o jogo, mas todos permaneciam ali, inertes, como se não tivesse nada ocorrendo do outro lado da Avenida.

 

Por sorte, consegui escapar.

 

Mas não vi muita coisa. Só o gol do Taison e sua saída raivosa para o banco de reservas. Creio que ele estava revoltado, pois queria ficar por mais tempo aparecendo na TV da Clausura e ser docemente vigiado pela malévola anciã. Esta sim, nem o Tite tem coragem de tirá-la de seu posto. Por horas, carregando sua toalhinha branca, tratou com carinho seus aprisionados vermelhos até a chegada das estrelas cobrindo com galhardia a capital de todos os gaúchos em mais uma noite de outono.

Fabio

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