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O Chiliquento e o Esquentadinho

O Chiliquento e o Esquentadinho

 

O Grêmio perdia por 3 a 0, resultado digno de choro copioso e desesperança crônica, tragicamente irrecuperável – nem na atmosfera de literatura fantástica que admite ao Olímpico o poder de iluminar viradas inacreditáveis. Eis que aos 34 minutos do segundo tempo – hora que inclusive agnósticos e ateus apelavam para os pai nossos e ave marias decorados e jamais esquecidos da saudosa época de coroinhas – Souza se vestiu de grunge, disse que era Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, e rasgou o refrão a plenos pulmões: Oh, I’m still alive!!!

 

O fato, a despeito dos gols sofridos e marcado, do imbróglio racista ou não envolvendo La Barbie (e que certamente vamos comentar nos próximos dias aqui no Tisserand), é que eu realmente não esperava o Grêmo que vi no primeiro tempo. A zaga sólida, rebatendo grande parte dos cruzamentos. Os volantes recolhendo com perícia os rebotes defensivos e acionando Souza e Tcheco, cujos espaços encontrados na meia-cancha permitiam promover estocadas esporádicas ao ataque.

 

Foi assim nas duas vezes em que nosso centroavante Zen Budista Alex Mineiro aprimorou sua técnica infalível de perder gols, numa furada digna de vergonha alheia e no recuo de cabeça para Fábio. Mas a chance mais cristalina foi perdida justamente pelos pés que depositávamos maiores esperanças. Maxi López honrou o sangue latino, dividindo como se deve, desarmando o zagueiro e saindo em marcha apressada em direção a bola, cortou o último defensor e deslocou com calma o goleiro do Cruzeiro. Mas deslocou demais. A bola beijou a trave, saiu do campo e nos convenceu de que a noite não reservaria muitas alegrias.

 

Quando já andávamos pelos 37 minutos, Kléber recebeu passe mais livre que adolescente arteira, filha de pais negligentes, e encontrou, num cruzamento a la Arce, Wellington Paulista. Leo não chegou a tempo, e o atacante cabeceou como o manual Jardeliano aconselha: olhos abertos, firme e para o chão. O que me permite afirmar que nem Victor pegaria aquela bola.

 

Até aí tudo bem. O time estava seguro, cofiante, o gol fora fruto de uma jogada tradicionalmente eficaz do adversário e da limtação de Fabio Santos. Mas o começo do segundo tempo transformou a partida num pandemônio. Logo aos três minutos, Wagner recebeu passe de um escanteio na solidão que jamais se pode permitir a um jogador canhoto. Porque os canhotos, como todos sabem, são figuras oblíquas, matreiras e dissimuladas, sempre ludibriando os pobres marcadores destros com sua inerente marcha torta, coisa de magia negra ou pacto demoníaco. Enfim, ele avançou para a meia lua da grande área e chutou despretensioso, na direção da Turma do Fedor. Tcheco se vazou nas calças e a bola passou desviando por entre suas pernas, enganando o incauto goleiro Marcelo, a esta altura impassível e no lado contrário da bola. A casa começava a cair.

 

A partir daí o Cruzeiro virou a seleção da Espanha (Não quando joga contra os Estados Unidos!), invertendo o jogo em lançamentos insinuantes, arriscando dribles com a confiança dos vencedores, promovendo linhas de passes de corar o gremista espectador. Num dos estouros de paciência da zaga Tricolor, Fabinho aparou o cruzamento de uma falta com um meneio tranquilo, visto que livrara-se de toda e qualquer marcação. O 3 a 0 nos cumprimentava com um aceno aterrador.

 

A situação teria piorado muito se o chileno Henrique Osses não imitasse Romário e saísse com uma fisgada. No espaço de tempo entre a despedida do árbitro e o ingreso de seu substituto, O Grêmio se organizou, acalmou os ânimos e o Cruzeiro resolveu diminuir o ímpeto, administrar o resultado.

 

Todos sabemos, caro leitor, que isso nunca dá certo. E daí surgiu a esperança maior dos gremistas, o gol marcado com maestria por Souza, a falta que deixou Fábio paralisado sob a meta, a chama que hoje é de vela de bolo de criança, mas que pode se transformar num Fogo de Chão bagual e acalorado na próxima quinta. Porque, mesmo que alijados, maltrapilhos e maltratados, ainda respiramos, ainda estamos vivos!

 

* ‘Eu ainda estou vivo’, refrão da canção Alive, do Pearl Jam.

 

Foto: Clic Esportes

 

Guilherme

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Grêmio e San Martin

Grêmio e San Martín

 

Enquanto Boca Juniors, São Paulo, Cruzeiro, Palmeiras e Nacional forjam trincheiras, acumulam mantimentos e armam a cavalaria para peleias inomináveis e mortais contra homens feitos, conhecedores da Latino América, nas oitavas da Libertadores, o Grêmio cuida de uma criança de cinco anos chamada Martín, com fama de Santo, mas futebol de pagão. Como qualquer equipe obstinada a comandar a América, o Tricolor invadiu o berçário alheio e derrotou o menino em seu próprio pebolim: 3 a 1. Gols de Maxi López, dois, e Souza, para variar um pouco. Mas, como bom pescador que é, o Martín descontou: tento do pugilista e centroavante colombiano Arsuaga.

 

A partida começou à feição do Grêmio. O San Martín atirava-se ao campo adversário e se descuidava de brechas na própria defesa, como qualquer jogador da NBA que pegou um jens emprestado do Romário e insiste em puxá-lo até a cintura, descobrindo, obviamente, as canelas. Pois numa dessas distrações, Souza deixou o marcador deitado e chutou firme de canhota para abrir o placar.

 

O gol não animou o Grêmio. Ao contrário: a criança Martín deixou o campo, e um adolescente rebelde e assanhado entrou em seu lugar, como esses que costumam se eleger presidentes bolivarianos. O meio-campo do Grêmio transformou-se em território peruano e os cruzamentos repetidos à exaustão foram premiados ao final do primeiro tempo. Arsuaga aplicou o drible em Fabio Santos no mesmo toque em que dominou um lançamento longo e envolvente, e completou, no toque seguinte, maculando as redes de Victor.

 

Os 45 minutos iniciais terminavam como deveriam, em enfadonha igualdade: de um lado, um adolescente corajoso, mas incapaz de cuidar do próprio nariz; de outro: um adulto medroso, mas sábio sobre as coisas da vida.

 

Pois Marcelo Rospide deve ter umedecido os jogadores com aquela mijada amiga durante o intervalo, digna das grandes mudanças de comportamento. Porque logo aos 25 segundos de reingresso ao jogo, Souza confirmou a condição de jogador mais importante do Grêmio na Libertadores e alçou a bola até a cabeleira luzidia de Maxi López. O argentino adiantou-se à zaga e escorou para o gol.

 

Esse foi pra ti, Vanda!

Esse foi pra ti, Wanda!

 

O resultado já era satisfatório, mesmo que a atuação não correspondesse. Estava encaminhada a vaga, até uma derrota por 0 a 1 no Olímpico faria o Grêmio avançar às quartas. Mas ainda faltava um gol. Jonas recebeu belo passe de Ruy e trotou para a linha de fundo, simulou um cruzamento e driblou o marcador, um peruano displicente, jogando a bola para dentro da área, antes que ela cruzasse a linha de fundo. Lá estava, como sempre, Maxi López. Ali, naquela cabeçada, ele deve ter finalmente assustado quem torce contra os azuis. Porque não foi simplesmente um gol. Foi um gol de centroavante que domina a arte da bola aérea. Um gol de centroavante que há muito tempo não se via na Azenha. O 3 a 1 estava decretado. E a partir daí, Martin ficou sonolento, como qualquer criança que tenta acompanhar as conversas de adultos que se estendem pela madrugada.

 

 

Mais importante que ter encaminhado a classificação. Mais importante que ter a convicção de que é melhor do que os possíveis adversários nas quartas, Caracas ou Deportivo Quenca. Mais importante que tudo isso, é a afirmação de um triângulo que permite aos gremistas sonharem alto: Victor, Souza e Maxi López. As mãos, o cérebro e as pernas (e a testa também) – respectivamente – do Grêmio nessa Libertadores.

 

Fotos: Gurizada: quebarato.com.br; Maxi: abril.com.br.

 

Guilherme

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