Depois de um longo hiato, volto a publicar uma crônica da série A Melhor Copa. A figura central, Diego Armando Maradona, e sua extinção precoce, ao menos para um garoto de nove anos que recém fora apresentado ao seu futebol. Os outros textos da série podem ser conferidos aqui.

Canhota sem paralelo
Aos nove anos, invejava os canhotos. Ambicionava ainda ser jogador, e tinha, de fato, para um guri dessa idade, algum talento. O sonho de vingar no futebol esmoreceu junto de tantos outros, mas minha relação conflituosa com aqueles que chutam de canhota permaneceu. O canhoto é um torto, ainda que simétrico. Dependente crônico de uma só perna, mas tão hábil com ela que dispensa a utilização da outra – andaria como saci caso fosse possível. Lá em 1994, havia Carlos Miguel surgindo no Grêmio; Neto começava um regime de engorde cujo final seria a aposentadoria; e Sávio aparecia no Rio com suas pernas frágeis de dribles tenazes. Mas o maior de todos eles finalmente deixaria de habitar somente meu imaginário mirim. Aquele que conhecia apenas pelos relatos de meus pais e tios estaria em campo naquela Copa, para temor e despeito de meus parentes ainda assustados com o Mundial da Itália: Diego Armando Maradona, o 10 argentino, de lembranças trágicas para Lazaroni.
Aquela Argentina o tinha como maestro. Um maestro rebelde, onipresente, egocêntrico, embrenhado em escândalos com entorpecentes, mas de futebol superior a quaisquer ou eventuais desvios de caráter. E foi assim que Maradona conduziu seus asseclas nas duas primeiras partidas. A estreia, mesmo que sempre nervosa, era uma baba. Os gregos ainda estavam longe de formar o time eficiente e maduro que venceu a Euro de 2004. Os portenhos, por outro lado, ruminavam ainda o vice campeonato de 1990, sedentos por chegar a uma inédita terceira final consecutiva – o que não conseguiriam e, para desespero deles, nós o faríamos em 2002. O 4 a 0 saiu naturalmente, inclusive com uma bucha de Maradona, depois de troca de passes insiuante, como só os argentinos – maledetos! – sabem fazer.
O jogo seguinte já trazia consigo uma carga maior de dificuldade. Não se sabia, como ainda não se sabe ao certo, o que esperar de uma seleção africana. Os nigerianos estreavam em Copas, e como todo jovem, não sabiam dosar suas forças, entregavam-se desde o primeiro minuto de forma inequívoca. Assim abriram o placar e ameaçaram derrotar os argentinos. Mas quem acompanha futebol sabe que a fadiga precoce compromete qualquer time. Nem os talentos de Okocha e Anikashi souberam lidar com o cansaço. E Caniggia virou o jogo, sempre coordenado por Maradona.
Ao final desse embate, um silêncio trepidante perpassou as salas, os bares, qualquer espaço social brasileiro. Maradona voltara. Renascera das cinzas ainda não completamente cicatrizadas de quatro anos antes. Acima do peso, mais lento, com alguns litros de álcool e quilos de entorpecentes a mais transitando no sangue, mas sem jamais perder a presunção que identifica os craques.
Então a cena que realmente ficou nítida em minha memória aconteceu. Como tantos outros brancos do primeiro mundo que o haviam estendido a mão supostamente amiga para logo abandoná-lo no meio da selva antropofágica da imprensa, nos tempos de Napoli e Sevilha, uma enfermeira de cabelos loiros e pele alva, com ar inofensivo, como todas as enfermeiras têm, conduziu com zelo Maradona ao teste de dopagem. Acabava ali o sonho argentino de ser tricampeão. No mesmo dia ou no seguinte, a Fifa anunciava que ele utilizara Efedrina, substância encontrada em remédios para acelerar o metabolismo, cuja finalidade seria diminuir aqueles visíveis quilos de sobra.
Ainda assisti ao jogo entre Argentina e Romênia pelas oitavas de final. Hagi, Monteanu, Popescu, Dimitrescu e o restante daquela competente seleção romena fizeram troça de um time órfão. Confesso que até torci pelos argentinos, possivelmente por perceber que não passariam às quartas, que mais um degrau, talvez o maior deles, não era vencido, mas fora extirpado de nosso caminho. A Romênia, de Hagi, outro canhoto que merecerá uma crônica dessa série, cairia diante da Suécia, e o enlace feliz do enredo todos conhecem. Mas uma frustração nasceu em mim naquele dia. A partir dali, descobri que ninguém passa impune à morte futebolística de um grande craque.
Guilherme


eu tinha talento pra ser jogador tbm…
o joelho que matou….
baita texto.
Bah velho! Vi todos os jogos da Argentina nessa Copa… Foi uma tristeza mesmo… E digo isso por gostar de futebol, e de craques da magnitude de Dieguito, sem essas idiotices de rivalidade fabricada pela mídia.
Ele vibrando e depois chorando nas oitavas, contra a Romênia, ao lado da esposa numa espécie de tribuna do estádio, é uma das cenas mais marcantes desta Copa pra mim. Poderíamos ter visto uma semifinal entre Brasil e Argentina, Romário versus Maradona.
Um duelo que ficará apenas na imaginação…
Baita texto véio, abraço!