
'Odeio táticas, elas me aborrecem'
George Best forjou ainda nos amalucados anos 60 e 70 a doutrina que moldaria as atitudes dentro e fora de campo de jogadores como Renato Gaúcho, Paul Gascoine e Adriano: liberdade desregrada na vida particular, inclusive abusando de vícios incomuns para desportistas, como a bebida, noitadas enrquecidas por orgias opulentas – mesmo em vésperas de jogos –, tudo isso aliado a um rendimento impressionante nos gramados, como se as partidas fossem uma extensão dos prazeres experimentados fora delas.
Em campo, o norte-irlandês se transformou num Garrincha europeu, sobretudo nos anos em que defendeu e carregou o Manchester United, junto de Bobby Charlton, ao topo do futebol de clubes mundial. Não conseguiu, a despeito de tudo isso, classificar seu país a uma Copa do Mundo. Mas compensou a frustração com sequencias de dribles inacreditáveis, enfrentando as tentativas recorrentes de quebrarem sua perna – jogou numa época que as punições para jogadas desleais eram tímidas – com a arrogância e indiferença que dispensava também aos moralistas de plantão; e suportando com dignidade o caminho mais fácil para uma Copa: naturalizar-se inglês.
Por tudo isso, mas principalmente pela lembrança salutar de Felipe Conti, George Best é o segundo convidado das bandas do Além a ser sabatinado na Terça Tisser Entrevista.
Tisserand – O senhor jogou numa época em que a transgressão era uma regra, o Rock, uma febre, sobretudo na Inglaterra, onde bandas como Beatles e Rolling Stones surgiram. As músicas dessas duas bandas, por exemplo, pelos elementos contestadores que elas carregam, serviram de inspiração para o seu futebol, igualmente subversivo?
George Best – Olha, se há alguém que se inspirou em outrem foram eles. Eu sempre fui vanguardista e nunca tive medo disso. Eu tenho certeza que muitos riffs e acordes que (John) Lennon e (Keit) Richards nasceram dos meus pés. Só não os processei porque seria complicado provar que eles verteram as canções me vendo jogar. Aquela canção, Revolution, por exemplo, é a minha cara.
Tisserand – Mr. George Best, quem é, para o sennhor, o melhor jogador de futebol de todos os tempos?
Best – Olha, rapaz, essa pergunta é complicada. Há jogadores que marcaram história em muitos países. Mas nenhum chega perto de mim, e digo isso com toda a modéstia que sempre norteou minhas atitudes e declarações. É aquela coisa: Maradona é bom; Pelé, ótimo. Mas George, ah, o George é Best!
Tisserand – Quem é o George Best no atual cenário do futebol mundial?
Best – Sem dúvida, Best só houve e sempre haverá um. Aliás, aquela época nunca mais voltará. As músicas eram melhores, os jogadores eram melhores e, o mais importante: as mulheres tinham seios de verdade – mas, enfim, estou saindo um pouco do assunto. Não há alguém que me represente nos dias de hoje. O Cristiano Ronaldo poderia tentar, mas está mais preocupado em fazer as sobrancelhas e ensaiar biquinhos para as câmeras; o Kaká chega a dar sono, de tão metódico; e o Messi, além de ser argentino, não tem porte: a evolução não o previlegiou com o tamanho, e a verdadeira presunção requer uma altivez que só a altura concede. Enfim, não me vejo em ninguém.
Tisserand – Para encerrar, o senhor poderia deixar um recado para a guriazada que quer ser como o senhor, vencer no futebol…
Best – Bom, há que se ter talento. Acaso não haja, desista já, e dedique-se a outra atividade, sei lá, vá ser funcionário público! Algumas doses de uísque e meia dúzia de outros vícios, além de orgias descomunais, também são indicadas. Ah, e não esqueçam de ir para a escola: não há entidade que promova um desvio de caráter melhor do que ela. A receita é basicamente essa.
Foto: espn.terra.com.br
Guilherme



“Gastei todo dinheiro que ganhei no futebol com mulheres, carros, bebedeiras e orgias. O resto eu só torrei mesmo.”
Gênio! Dentro e fora do campo!
E hoje a gente vive a ditadura do politicamente correto, portanto será quase impossível surgir um cara tão autêntico e capaz de articular duas frases conexas como Mr. Best.
Muito bala a entrevista! Abraços e aguardando o próximo presun… entrevistado!
É verdade, Felipe, e essa ‘política’ é um saco, pura hipocrisia. O Best era uma mistura de Nietzsche, Garrincha e Liam Gallagher. Ainda bem que o You Tube compensa em parte o fato de não termos nascido há 50 anos para assisti-lo.
Abraço.
Guilherme.
“É aquela coisa: Maradona é bom; Pelé, ótimo. Mas George, ah, o George é Best!”
George “dada maravilha” best