
A bola escondida entre as pernas cambotas
O grande centroavante não precisa fazer o tipo garanhão, boêmio e dono da noite. O grande centroavante não precisa ser ateu, desdenhar de convenções morais ou ser um cobrador de pênaltis competente. O grande centroavante não precisa nem ser o mais boa pinta do time, com o melhor penteado ou dirigir o melhor carro estacionado nas garagens contíguas ao estádio. Não. O grande centroavante só precisa PARECER fazer e PARECER ser tudo isso. E, nessa arte, poucos foram (e nenhum é) maiores que Romário.
Contrariando a altura diminuta, menos de um e setenta, as pernas cambotas e a origem humilde que normalmente condiciona crianças do Jacarezinho e da Penha, bairros que foram o palco da criação de Romário, e de outros tantos guris pobres do Brasil, a serem iniciados precocemente no trabalho, a tomarem nos braços seu quinhão no sustento do lar e palmilhar ruas atrás de moedas, ele venceu. E trilhou seu caminho passando pela peneira num coadjuvante do futebol carioca, o Olaria, ingressando no Vasco e impondo ao Flamengo um jejum de títulos estaduais até sua saída para o PSV, no final da década de oitenta.
Virou o rei de um futebol que já era emergente naquela época e alvoroçou os bolsos do Barcelona. Transferiu-se para a Catalunha, e lá, onde os holofotes eram de proporções colossais comparados aos clubes anteriores, lá se forjou a personalidade que permanece até hoje no imaginário de todos quando se trata do camisa 11: no Barcelona ele reconheceu o tamanho de seu talento, e estendeu o fio da paciência de todos, torcedores, treinador, companheiros de time, alternando rebeldia – baladas e agressões a adversários – e talento – ele certamente é citado em qualquer lista de gols mais bonitos ou qualquer escalação do melhor Barça de todos os tempos – com uma rapidez impressionante. E foi assim, já com a aura maniqueísta, amado ou odiado, dificilmente causando indiferença, que Romário foi convocado por Parreira para resolver as carências da Seleção e trazer a Copa que há 24 anos repelia mãos brasileiras.
Já na estreia do torneio, contra os russos, Romário assumiu o posto e fez o primeiro gol brasileiro nos Estados Unidos. Diferente da seleção que surpreendeu na Eurocopa do ano passado com passes assanhados e bom futebol, a Rússia era uma equipe capenga, que se ressentia dos antigos reforços de países como Ucrânia, por exemplo, de pequenas repúblicas que transformaram, na época da Cortina de Ferro, a União Soviética numa potência, sobretudo, olímpica. A vitória contra Camarões, por três a zero, também foi decalcada com a marca do Baixinho. Mas foi no terceiro jogo que ele confirmou de maneira definitiva sua condição.
Confronto encardido contra os suecos. Estádio coberto. O dia raiava lá fora, mas era impedido de iluminar a partida pela ainda incipiente tecnologia do teto móvel – um ensaio do que viria nas próximas Copas. Talvez a melhor Suécia de todos os tempos pela frente – não consultei nossos antepassados sobre aquele time que levou 5 a 2 na final de 1958. Parreira impaciente no banco. Brolin, Dahlin e Kennet Anderson a todo momento revezavam-se na tarefa de assediar o gol de Taffarel. Até que o último deles, um gringo desajeitado de quase dois metros, apara um lançamento com o lado externo do pé direito, e a bola morre em nossas redes.
Estava na hora de Romário agir. Depois de ameaçar algumas arrancadas tímidas, ele intimou Zinho, que ensaiava mais uma vez aquele balé estéril cunhado por muitos de ‘enceradeira’, a entregar-lhe a bola. Recebeu o passe e iniciou a marcha. Até Galvão Bueno sabia que empataríamos naquele lance. Romário inflou o peito e avançou, sem precisar imprimir grande velocidade. Parecia que os gigantes nórdicos não acreditavam naquela figura que não conseguiria ver por cima dos seus ombros. Quando estava por chegar à grande área, o brasileiro usou da simplicidade, quase um acinte, uma provocação. Bateu de bico, no meio da bola: e até desconfio que tenha saído pra comemorar antes mesmo de Ravelli ser vencido pelo quique matreiro.
Romário fazia com os suecos o que já fizera com a vida de privações na periferia carioca, aquilo que irritava treinadores, torcedores adversários e até alguns companheiros de time: mostrou que é o cara. E iniciou ali, naquele jogo nublado artificialmente, num empate suado, o caminho para sua redenção.
O grande centroavante não precisa ser galã ou dirigir carrões. O grande centroavante não precisa de carisma ou saber discursar aos microfones. O grande centroavante precisa fazer gols. O grande centroavante, desde 1994, precisa ser Romário.
Foto: br.oleole.com
Guilherme

