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O Inter não deu Liga no Equador. Aliás, a única Liga que se deu foi a Deportiva Universitária, agravando a crise entre o Pastor e suas ovelhas, cada vez mais desgarragas. O 3 a 0 foi tão merecido quanto o 1 a 0 da partida no Beira Rio. Resta aos colorados dar aquela lambida zelosa nas feridas que se multiplicaram nas últimas semanas e resolver logo a permanência ou a saída de Tite, para que os vices recém adquiridos não respinguem na liderança isolada do Campeonato Brasileiro.

 

 

A Liga Extraordinária

A Liga Extraordinária

 

Abra suas asas, solte suas feras

Top Gun: ases indomáveis

 

 

Eu vi um menino caindo, eu vi o Taison

A Queda

 

Quasímodo equatorial

Quasímodo equatorial

 

O Crepúsculo dos Deuses

O Crepúsculo dos Deuses

 

Fotos: AP, AFP e Reuters

Exagerou no chiclé de tuti-fruti

Exagerou no chiclé de tuti-fruti

 

Dezenas de milhares de pessoas fizeram pactos tácitos de não espirrarem nem soltarem perdigotos nocivos à saúde alheia, tampouco dividirem copos de refrigerante; e encaminharam-se todos ao estádio Ciudad del Plata para acompanhar o entrevero entre Estudiantes e Cruzeiro. Para a sorte daqueles que não estavam infectados pelo resfriado regado a Tody que anda assombrando as autoridades competentes, o placar permaneceu imóvel até o final do jogo e impediu aqueles abraços calientes do pós-gol e outras manifestações de afeto que o grande momento do futebol gera nos torcedores. Muito disso por responsabilidade de Fábio, arqueiro de Minas, e outro tanto pela inoperância do ataque portenho.

 

O Estudiantes é aquele mesmo time traiçoeiro que quase usurpou das mãos coloradas a Sulamericana do ano passado. A defesa ganhou em lentidão e violência com a entrada de Schiavi, mas segue com a segurança do agora selecionável Andujar e do coleguinha de delegacida de Grafite, De Sábato. A meia cancha toda respira, caminha, arrota, come, dorme e copula sempre sob ordens de Sebastian Verón. Há uma carimbada arbitrária de La Brujita no caminho que a bola faz da defesa para o ataque. E o ataque segue o mesmo, baixo e árido em convicção, com Boseli como centroavante.

 

Pois ontem o Estudiantes fez uma apresentação que explica cada uma das características dos três setores da equipe: defesa sólida e açougueira; meia refém de Verón, assessorado com qualidade menos por Benítez e mais por Perez; e atacantes incapazes de tomar resoluções rápidas.

 

O jeito foi especular o gol de Fábio com bolas paradas e longos lançamentos diagonais de Verón. Logo nos primeiros minutos ele conciliou força e mira na mesma cobrança de falta espalmada pelo goleiro do Cruzeiro a escanteio. Ainda no período inicial o indolente meia Perez recebeu passe enviesado de seu capitão, tabelou com Gata Fernandez e obrigou Fábio a nova intervenção complicada. Ele ainda encerraria o rol dos bons momentos da primeira etapa num voo em câmera lenta para defender um chute parnasiano de Verón, de plástica admirável mas de clara falta de força e serventia.

 

O segundo tempo iniciou até com certo ímpeto do Estudiantes, novas investidas contra a honra de Fábio, mas sempre aplacadas com seriedade pelo guarda-redes de BH. Schiavi testou com força, mas numa altura que facilitou o tapa do goleiro, em escanteio venenoso. Boseli recebeu passe e foi novamente impedido por boa defesa do cruzeirense. Pois chega uma hora, como o ataque gremista já mostrou com competência em 2009, que as pessoas cansam, deixam de acreditar na boa fé da bola em cruzar a linha adversária. E foi o que aconteceu a patir daí com os argentinos.

 

Então os mineiros começaram a dar aqueles escapadinhas de guri travesso que conhece os atalhos pra fugir da surra . Jonathan, Gérson Magrão, Ramires e Kléber ensaboavam-se e escapuliam da marcação de meia idade de Schiavi e De Sábato, e achavam certa liberdade pelas pontas. Tanto que espremeram três chances de gol: o cabeceio cambaleante de Leonardo Silva depois de cruzamento de Jonathan; uma crise de estrabismo em Kléber, o que levou-o a olhar para a goleira e chutar para longe quando Andujar jazia inofensivo e medroso na pequena área; e uma última tentativa de Wellington Paulista, aparando, com força e sem direção, diligente passe de cabeça de Kléber.

 

Tudo terminou por adiar-se para a próxima semana, no estádio Mineirão. O Cruzeiro volta ao Brasil trazendo imaculada sua meta, o que lhe decalca na poupança um adesivo diminuto, mas importante de favorito. O Estudiantes chegará na terra de Tira Dentes com a ambição de arrancar um canino ou outro e afrouxar os molares que começam a aparecer nas bocas cruzeirenses depois do alvissareiro resultado de ontem.

 

Guilherme

O próximo será Nilmar

O próximo será Nilmar

 

Fábio Araujo projeta a final de hoje à noite contra a LDU, rema contra a maré de viúvas de Muricylha e disserta sobre as idas e vindas estáticas de Nilmar no Beira Rio. Tudo isso aqui, em sua coluna no Arena Vermelha.

Florentino Perez

Florentino Pérez, pão e circo com brioches

 

Florentino Perez tem o dom de cativar as massas. Como um Getúlio, um Perón espanhol, nunca economiza empenho e dinheiro quando trabalha na esfera de grandes contratações. Foi assim há quase dez anos, na saga de aquisições milionárias, uma por ano, que encaminhou ao Santiago Bernabeu Figo, Zidane, Ronaldo e Beckham.

 

O regresso ao comando daquele que é considerado pela Fifa o maior clube do Mundo cumpriu com precisão o roteiro ambicionado por Pérez: voltou aclamado por torcedores como cartola de atitudes excêntricas, mas com magnetismo de grandes conquistas – aliás, a última Liga dos Campeões vencida pelo Real Madrid foi sob sua gestão.

 

Assim desembarcaram Karim Benzema, Raúl Albiol, Kaká e Cristiano Ronaldo. Para treiná-los junto dos demais atletas que já compunham o grupo madrilenho, Manuel Pellegrini, técnico chileno de passagem competente pelo Villareal, quando transformou o Submarino Amarelo na terceira força da Espanha, inclusive levando a equipe até as semifinais da Copa dos Campeões em 2006.

 

As contratações somam cifras impensáveis, mas parecem bem razoáveis. Benzema é o herdeiro de Henry no comando do ataque da seleção francesa, jogador de técnica refinada com os pés, ainda que domine a arte da simplicidade, indispensável aos grandes centroavantes. Albiol é um zagueiro versátil, cujo destaque no Valência autorizou-o a ser o substituto de Canavarro, de volta à Juventus. Kaká é sem dúvida a melhor aquisição para dentro do campo. Atleta centrado, decorou todo o discurso responsável que flerta por vezes com a hipocrisia que a mídia tanto exalta, mas é inegável que seu jogo vertical e eficiente não tem paralelo noutro jogador. E Cristiano Ronaldo foi contratado para ser o que Ronaldinho Gaúcho foi no Barcelona: o show man, aquele que extasia torcedores, vende camisas e também tem a coragem para resolver partidas espinhosas.

 

O único entrave que pode murchar o peito inflado de Florentino se chama Raul, e é assessorado em menor escala por Casillas e Gutti. Os espanhois que empilham desafetos com estrangeiros, sobretudo os mais talentosos, desde os tempos de Beckham e Ronaldo. Mas é verdade também que Raul não é o mesmo de há dez anos, já está cansado, acostumando-se com o banco de reservas, além de apartado há um bom tempo da Fúria. Florentino deve ter mesmo um caminho mais tranquilo e vencedor nesta nova passagem.

 

Guilherme

Afronta a filial

Afronta a filial

Claudio Duarte do Alfredo Jaconi

Claudio Duarte do Alfredo Jaconi

 

O gol é o orgasmo do futebol, conta o ditado de filosofia futebolística. Acrescento que um Clássico seria um Barba, Cabelo e Bigode. Sempre tem um ingrediente a mais. Por estas e mais outras que o TFC abre campanha para que a Terra da Fanta Uva tenha o clássico Ca-Ju na Série C 2010.

 

Confesso que será uma honra para mim, centrifugar comentários sobre as constantes desventuras da Papada Alvi-verde rumo ao estrelato entre as equipes da terceira força da Nação.

 

Para que isso ocorra, o Juventude deu um grande passo ao sofrer nova derrota, desta vez para a Ponte Preta, no Estádio Moisés Lucarelli, por míseros 3 a 0. Com o resultado adverso, os apreciadores de macarronada subiram na tabela e ingressaram novamente no G-4 (aderindo à campanha Ca-Ju na Série C, o TFC analisa a tabela de modo inverso, para facilitar o entendimento dos leitores).

 

Mesmo com uma brilhante campanha, o incompreendido treinador Zé Teodoro foi demitido após sofrer a quarta derrota fora de casa, em quatro jogos. E ele estava fazendo o seu papel, pelo menos na visão de todos os colorados que consultei: foram quatro derrotas, um empate e apenas duas vitórias. Digníssimo de Série C.

 

A grande mudança proposta pela diretoria da Papada é trazer o Cláudio Duarte Verde, Ivo Wortmann. Se nada der errado, ele será anunciado o terceiro treinador do ano no Juve, amanhã a tarde. Mais do mesmo e seguimos fortes na campanha rumo a Série C. Com ele, virão o auxiliar Marcelo Mabília, ex-atleta, e o preparador físico Luis Antonio Inarra.

 

Próxima Chinelada

A próxima partida ocorre na noite de hoje, contra o Campinense, fora de casa. A tendência é que o time treinando pelo interino James Freitas leve outro sacode e avance ainda mais em direção ao subterrâneo da tabela.

 EDIT - A partida foi 1 a 0 para o Campinense, gol aos 44 minutos da segunda etapa.

O único algoz que poderá colocar água no chope do colunista Tisserânico que vos fala, é o atacante Zézinho – não, caro leitor, não é o atleta que bateu o pênalti nos minutos finais em Pato Branco – mas no momento, ele integra a seleção brasileira de menores, dificultando a vida da direção verde que já alimenta um certo temor com a possibilidade de enfrentar o Caxias no ano que vem.

 

Por enquanto, passadas algumas rodadas, o Papo segue fazendo a sua parte, conquistando 33% de aproveitamento e com saldo negativo de quatro gols.

 

O ditado Ah, azar é do goleiro, lá pela Serra Gaúcha não funciona: o arqueiro se mandou embora pra São José dos Campos.

 

Campanha rumo à Série C

23/5_ Juventude 2×0ABC

30/5_ Brasiliense 2×0 Juventude

2/6 _ Juventude 0×1 Paraná

12/6 _ Fortaleza 3×2 Juventude

19/6 _ Juventude 1×0 Bragantino

26/6_ Juventude 1×1 Vila Nova-GO

4/7 _ Ponte Preta 3×0 Juventude

 

Força, Juve! Para o bem da belíssima terra da Fanta Uva: Ca-Ju na Série C 2010.

 

Fabio

Editor do TFC fazendo ponta em Senhor dos Anéis

Editor do TFC fazendo ponta em Senhor dos Anéis

 

Os editores do TFC, figuras míticas que atravessaram os séculos revisando pergaminhos, evoluiram com a criação e modernização da imprensa e entraram pelo Tisserand na era digital, adornados daquela barba branca e hirsuta, tal qual o Lima Duarte na novela das oito, apreciam a samaritana arte da benevolência. Para demonstrá-lo de forma mais explícita, comprometeram-se em publicar semanalmente uma escala breve mas digna dos próximos textos e seus respectivos conteúdos e autores.

 

Nos dias de hoje e amanhã, por exemplo, a Serra Gaúcha e uma constelação europeia serão os temas maiores.

 

Fabio Araujo inicia ainda hoje sua peregrinação de superstições, mandingas e outras magias negras para que o Juventude não volte nunca mais à Série A, numa série de crônicas de dar calafrios nos verdes de Caxias.

 

E amanhã Guilherme Lessa Bica esquadrinha a segunda geração dos galácticos do Real Madrid e a vocação populista de Florentino Pérez.

 

Equipe TFC

O par de times que compõe a dupla Grenal cumpriu na tarde e no entardecer do domingo sua recente sina de irmãos gêmeos, ainda que, agora, bivitelinos: vitórias indiscutíveis de placares diferentes, diante de adversários em igual situação calamitosa na tabela de classificação. Os resultados, além de colocarem o amor próprio de torcedores e jogadores lá no alto – fazendo-os até esquecer por um momento as acachapantes derrotas da semana passada – devolvem a liderança ao Inter e aproximam o Grêmio dos quatro que miram La Copa em 2010.

 

Grêmio 4 x 1 Atlético Paranaense

Olha só, olha o sol

Olha só, olha o sol

 

Os números, ao contrário do que alguns pragmáticos podem pensar, são mesmo relativos. Veja a situação do Grêmio: antes de tomar aquele sacode do Cruzeiro no Mineirão, inflava o peito, pigarreava para limpar a garganta e anunciava para quem quisesse ouvir a invencibilidade de meia dúzia de jogos, metade dela com empates. Depois daquele jogo, as vitórias de despediram de Autuori, e cada resultado igual entrou para a estatística negativa de uma sequência de seis jogos sem vencer.

 

Eis que o Altético Paranaense, time que novamente flerta de forma periclitante com o rebaixamento este ano, aparece na vida gremista. E uma vitória de 4 a 1 devolve ao Olímpico o sabor de um triufno. Pois agora o empate suado em 2 a 2 contra o Cruzeiro muda de lado, e passa a compor uma invencibilidade pequena, mas importante na trajetória de um time que busca reabilitação e identidade.

 

Sobre os gols, todos saíram de jogadas trabalhadas. Os dois de Maxi confirmam a vocação de La Barbie para a definição dentro da grande área. E os dois de Herrera permitem aos gremistas vislumbrarem uma dupla que não é brilhante, mas pode render muitas vitórias em idioma castelhano.

 

Náutico 0 x 2 Inter

 

Cambitos dourados

Cambitos dourados

 

Enquanto isso, o Inter encontrou a recuperação no terreno baldio que os recifenses chamam de gramado, no Estádio dos Aflitos. Depois de um primeiro tempo que reproduziu as atuações precárias de partidas anteriores – cujo apogeu foi o pênalti desperdiçado por D’Alessandro – e de parte do segundo tempo abatido pela mesma apatia, Tite lançou a campo Andrezinho e Alecsandro.

 

A partir daí o colorado encravou a bandeira vermelha no círculo central e passou a ser dono e senhor das movimentações da partida. Num escanteio cobrado por Andrezinho, Nilmar escorou com a simplicidade que o lance pedia e abriu o placar. E para tranquilizar a torcida rubra do sul e afundar de vez o Náutico no mangue maldito da zona de rebaixamento, o menino dourado do Beira Rio selou o resultado com um segundo e belo gol.

 

Nas demais peleias da rodada, Celso Roth deu mais um tapa na cara da lógica e empatou com o lanterna Botafogo em um gol, o que lhe custou a liderança, de posse momentânea (Se Deus, Exu, Alá e Buda quiserem. E eles querem!), como já referido, do Inter. E São Paulo e Cruzeiro, esquadras reincidentes em boas colocações nas últimas temporadas, perderam novamente e começam a embaçar as vistas e enxergar com certa dificuldade o pelotão de frente, o que pode custar caro num futuro não muito distante. Ao menos, para o Capitão América, há uma Libertadores logo ali.

 

Resultados

Santo André 1 x 1 Barueri

Santos 1 x 0 Sport

Flamengo 2 x 1 Vitória

Atlético-MG 1 x 1 Botafogo

Goiás 1 x 0 Cruzeiro

Grêmio 4 x 1 Atlético-PR

Coritiba 2 x 0 São Paulo

Náutico 0 x 2 Internacional

Avaí 0 x 3 Palmeiras

 

Classificação

Internacional 20

Atlético-MG 18

Vitória 16

Palmeiras 16

Flamengo 14

Barueri 14

Goiás 14

Santos 13

Grêmio 12

Corinthians 11

Santo André 11

Coritiba 10

Cruzeiro 10

São Paulo 10

Fluminense 10

Sport 8

Náutico 8

Atlético-PR 8

Botafogo 7

Avaí 7

 

Fotos: Terra

 

Guilherme

Pegando no tranco

Pegando no tranco

 

 

Foto: alvarelio.blogspot.com

Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

 

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

 

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

 

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

 

Por que perdemos, na Suíca, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

 

*Crônica de Nelson Rodrigues, assombrado pela atuação de Pelé no Santos 5×3 América, de 25 de fevereiro de 1958, no Maracanã, pelo Torneio Rio-São Paulo. O texto foi publicado originalmente na Revista Manchete.  

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