Agosto 17, 2008

Cavalo Gaúcho - Parte Final

Como o Guilherme iniciou com as palavras chaves enviadas pelo Leandro, trocamos a seqüência, e eu encerro.

 

* Lembrando que os contos interativos serão intercalados com as postagens cotidianas do Tisserand.

 

Parte Final 

              É de conhecimento popular que o termo Cavalo Paraguaio se dá as equipes que despontam com folga no início de uma competição e, aos poucos, vão perdendo fôlego. Figueirense, Paraná e alguns outros menores sabem bem como funciona. Mas o que tem isso há ver com o Grêmio? Nada.

Ou melhor, quase nada.

O Cavalo Gaúcho, como diria o companheiro Guilherme, é time copeiro. Joga com raça castelhana, alma castelhana, torcida castelhana e etc. castelhana. E ainda assim, é Gaúcho. Com direito a Hino Rio-grandense todo jogo.

            Em 2008, pela primeira vez na Era de pontos corridos, largou bem - muito bem. O que, coerentemente, levanta a hipótese de ser Cavalo Paraguaio, apesar de não ter histórico “paraguaiense”.

Até acredito que o Tricolor não seja um Cavalo Paraguaio, mas o seu treinador é. E quem tem Celso Roth não se empolga.

 

Fábio

 

Agosto 15, 2008

Cavalo gaúcho

Iniciando as postagens interativas, um conto com as palavras: Grêmio – Cavalo paraguaio – Segunda divisão.

A tribo colorada (de nome Inter) comemorou de forma precipitada a derrocada dos azuis (de nome Grêmio). Uma temporada desastrosa, de dias nebulosos, levou-os ao inferno (de nome Segunda Divisão).

Logo tudo se ajustou como deve. Os azuis regressaram ao seu devido lugar, à frente, inclusive, dos colorados.

O futebol aguerrido, forjado na força em detrimento da técnica, de idioma castelhano, dos azuis, chegou aos ouvidos colorados e demais tribos como o espanhol de um incauto cavalo paraguaio: ledo engano. 

Para surpresa e temor da tribo vermelha e das tribos restantes, o cavalo era gaúcho; e especialista em cobrir egüinhas rubras e frescas à beira do rio.

Guilherme

Agosto 5, 2008

Interatividade

 O Tisserand está sendo atualizado com intervalos de tempo acentuados e, com isso, os acessos caem bastante, o que nos deixa triste.

Buscando uma interatividade com você, leitor - que ainda busca novos textos neste espaço - temos uma sugestão: deixe nos comentários três palavras-chave para que façamos um conto a partir delas. Eu farei a primeira parte e o Guilherme encerra. (ex. Futebol – Brasil - Atacante)

No aguardo,

Fabio

Julho 30, 2008

Novo Trabalho

Nós, do Blog Tisserand, estamos participando do blog Futebol Diário, com atualizações diárias durante a semana.

Contamos com a visita de vocês.

www.futeboldiario.wordpress.com

Tisserand

Julho 1, 2008

O manual do misantropo

Michel Houellebecq é uma metralhadora, um serial-killer literário, como definiu Juremir Machado da Silva. Não há concessões para ele. Não há, como nunca deve haver e como, infelizmente, estamos acostumados a ver entre os medíocres, o menor resquício de pena na literatura dele. Apenas sentimentos nobres sobrevivem em seus textos. O que há, e em robusta quantidade, é amor - seja na ausência (Velada), na busca (Insinuada) ou na reflexão (Explícita) sobre ele. O mesmo amor que adensa as obras de Dostoievski, Neruda e Cortázar. Quem passa os olhos pelos romances do francês misantropo pode experimentar tudo, exceto a indiferença. Ninguém que tenha coragem de dizer o que Houellebecq diz, tem direito a ela. Ninguém.  Extensão do domínio da luta (1994), seu primeiro livro, comprova isso.   

A história é narrada por um francês de trinta anos, bem empregado no ramo da informática, solteiro (um casamento frustrado às costas), mais, solitário - como todos nós, segundo Houellebecq. A narração trata, na realidade, da decadência deste homem - ou, mais especificamente, da decadência de uma geração; ou, ainda mais especificamente, a decadência de uma espécie: a entidade homem. As liberdades conquistadas, sobretudo a partir da segunda metade do século vinte, são expostas como marco inicial de uma letargia afetiva e social nas reflexões do protagonista. Há liberdade para comer quantas muheres ele quiser; para ganhar quanto dinheiro lhe contentar; para experimentar todas as sensações que a luxúria lhe apetecer. Mas isso não basta. E a exposição é simples: ”A sexualidade é um sistema de hierarquia social”. Tanto no campo sexual quanto no financeiro, há quem triunfe, mas há quem decline. O narrador vence financeiramente, mas fracassa com sobras em relação ao sexo. O trabalho o entedia, a publicidade o segrega, as mulheres o ignoram e as ilusões dos vinte anos ressecaram. Por isso as assertivas soam como o monólogo de um espectador amargurado. O que é, de fato, uma definição simplista. Mas quem melhor do que um espectador para julgar ou analisar algo, já que os protagonistas estão sempre cegos de tanta luz?

Contudo, é Raphael Tisserand, colega de trabalho do narrador, figura que encarna a antítese do ideal estético atual - baixo, gordo, atarracado, calvo e de uma feiúra comovente -, que ascende como principal personagem ou personifica com maior propriedade a derrocada dessa geração. Também empregado de informática, bem remunerado, carrega uma castidade forçada pela repugnância que causa nas mulheres. Apesar dos dissabores que a vida de três decadas lhe acumulou, ele não desiste, e cumpre com empenho o papel de lutar até o fim, até mesmo quando não acredita mais que vá encontrar algo de bom.   

Houellebecq manipula e analisa o homem, a espécie, com a mesma compaixão e seriedade que o narrador manipula e analisa Tisserand: cientistas que apegam-se a suas cobaias. É isso que pode causar tanta estranheza e revolta numa primeira leitura; mas não resiste a uma nova passada de olhos. É um romântico travestido de pragmático, como outros tantos gênios literários. Embora muitos não queiram enxergar, ele já garantiu um lugar cativo na história da literatura. Pode-se odiar, ofender, maldizer, criticar Houellebecq. Silenciar sobre ele, jamais.

Quem se interessar pela escrita cáustica do francês, pode aproveitar para adquirir os outros três romances dele, posteriores ao Extensão: Partículas Elementares, Plataforma e A possibilidade de uma ilha.  

Guilherme

Junho 24, 2008

Primeira Impressão

 A Revista experimental do Curso de Jornalismo da Unisinos, produzida pelas turmas de Redação Experimental em Revista – no qual me incluo - traz nesta edição “Preocupações” como tema principal.

 

 

 O lançamento, realizado na noite de segunda-feira, 23, teve apresentação ao piano do meu colega Rafael Tourinho Raymundo; apesar de quase ninguém prestar atenção, ele deu show. Mais detalhes no Portal 3 e no Link Publicações.

 

Dando prosseguimento nas postagens, o texto Eterno, enviado para o site Centenário do Inter. Quem tiver tempo e gostar do texto, dê seu voto no site. É rápido e fácil.

 

  

Eterno

  

Existe uma máxima que argumenta a seguinte tese: o ser humano, ao saber que sua morte está prestes a chegar, vê um filme dos momentos mais importantes de sua vida. Comigo foi diferente. Explico: em meados de abril de 2001, voltava de Farroupilha acompanhado de minha família, e resolvemos dar uma pausa para um lanche, numa padaria beira de estrada, em São Leopoldo. Logo após entrar, percebo uma movimentação estranha e, antes de esboçar qualquer reação, sinto um revólver nas minhas costas.


- Fica parado que tu vai morrer, seu filha-da-puta de merda, me dá a grana e a chave do carro que vou te matá.

Naquele momento tinha a certeza que não sabia o verdadeiro sentido da palavra medo. Olhava para o lado e via meus familiares apavorados com olhos marejados, tremendo. Esperando a bala perfurar a paleta, vejo o filme começar a passar: via o Inter sendo campeão de verdade, comemorando com a massa vermelha e pensava, ah, pensava… Aqueles instantes foram mais revoltantes, pois sabia que não tinha vivido aquilo. Seu ladrão de merda, tu não tá vendo que eu não posso morrer ainda?, pensei em dizer, apenas pensei, e continuei vendo o Inter erguer uma taça de verdade – jamais imaginaria que seria do Mundial FIFA – até que, após roubar nossos pertences, ordenaram que contássemos até 50 em voz alta, de olhos fechados. No 17, começava a entender que não iria morrer. E ficava feliz com isso.

 

 
Passaram-se os anos e o amor incondicional pelo nosso Colorado crescendo cada vez mais. Voltei a lembrar desse episódio na partida final em Yokohama, quando o Ronaldinho se preparou para cobrar aquela maldita falta: o medo voltou. Mas tinha a certeza que não morreria sem ver o Inter Campeão. Depois daquele lance, recordo pouca coisa. Nada mais seguraria o nosso Inter.

 Hoje, mais calmo, analiso os fatos por outra vertente. Naquele assalto, ocorreu uma coisa óbvia: assim como em todos os momentos importantes da minha vida, o Inter estava ao meu lado. Foi assim com meu primeiro time de botão, meu primeiro gol com aquelas bolas-bexiga do Inter, o primeiro gol na escola e meu primeiro jogo no Beira-rio. Foi o hino colorado que cantei, quando tive medo ao descer no Elevador do Beto Carreiro World; cantei quando meu avô gremista morreu e, novamente, quando perdi um emprego. Até quando fui assaltado de novo e o ladrão me deixou uma passagem de volta pra casa. Dê-lhe, Celeiro de Ases. Foi enaltecendo o Inter que comecei a soltar piadas-cantadas para minha noiva; e são as músicas da Popular que canto quando escrevo os textos motivadores do Consulado de Guaíba; ou quando saio atrasado pro trabalho; ou a passeio; ou andando de carro; ou quase sempre - pelo menos uma vez por dia. 

Para selar esse amor insaciável, com a proximidade do Centenário, em abril desse ano tatuei o símbolo do Colorado nas costas, que me acompanhará até o dia de minha morte. Quero dizer, assim como todos os colorados, o meu Amor pelo Inter irá muito mais além dessa vida. É Eterno.


Fabio

 

 

Junho 15, 2008

Aparências

Na realidade isso tudo que tu vê aqui, essas roupas, esse corte de cabelo, o relógio, as tuas botas, esses programas ridículos aí na tevê, essas comédias românticas: nada disso tem a menor importância, falo pra ela. Érica coloca a mão sob o queixo e levanta as sobrancelhas sem me perguntar o porquê daquela frase estranha que dissera, não queria parecer burra. Ela sempre evita parecer burra. Para as outras pessoas funciona. Para mim, não. Mas nunca revelo isso. Porque se revelasse, teria que confessar também que o que importa mesmo, a única coisa que realmente importa é essa expressão dela, que mistura entrega e desconfiança, misto de guria intrigada e mulher madura. E a boca rosa dela, sempre acolhedora, que me fascina.  

Mas eu voltei a falar que essa vida que tu leva, essa atucanação pelos motivos equivocados, guria, não te encaminha pra lugar nenhum, tu vai acordar daqui a trinta anos e enxergar no outro lado do espelho uma tia frustrada, do outro lado do balcão  um cliente insatisfeito do escritório e do outro lado da mesa o maridão ávido de cerveja e farto de sexo: talvez um jardinzinho florido traga algum atenuante: tu pode virar florista e decorar interiores. Faço uma pausa quando ela desmorona a cara de sabida e começa a parecer temerosa com minha profecia; acalmo Érica com um beijo e ficamos abraçados por um tempo. Já deve ser tarde da madrugada. E não temos sono.

Leio muitas coisas nos olhos da Érica, nos gestos e no tom da voz. Ela não me fala nada. Conheço pouco de sua família, mas sei que nutre sentimentos paradoxais que mesclam orgulho e medo quando pensa nos pais: orgulho pelas pessoas corretas que são; medo de ficar igual a eles. Pais teoricamente ainda apaixonados depois de vinte e cinco anos de casamento, casal devotado a criar os filhos, sobretudo Érica, a mais velha: gastaram uma grana com um colégio decente, cursinho de primeira linha e faculdade privada - a displicência de Érica não autorizou-a a se dedicar à federal. Trabalharam desde novos, casaram-se novos, e só depois de duas décadas e meia começam a viver de verdade, sair do país em viagens turísticas por paisagens exóticas. Algo não está certo nisso. Parece que subvertem aquela que deveria ser a ordem natural. Eu apenas penso. Jamais falaria para Érica. E nem precisa. Ela também deve chegar a essa conclusão.

Érica ameaça falar. Fico olhando para ela. A silhueta farta nas ancas, o rosto cansado, o cabelo encaracolado sobre meus ombros. Provoco seu discurso e peço que não me esconda nada. Fala, Érica, o que tu acha que é importante então? Ah, eu acho que é tá junto de quem a gente gosta, porque ninguém quer ficar sozinho mesmo, dá pra ver na cara dessa galera toda que tá na noite um vazio, eu vejo, eles preenchem esse vazio fodendo, mas ainda resiste algo, ela fala e prossegue, alguma coisa falta: e é isso que eu procuro. Érica examina minha reação, gosta de me ver surpreendido e reinicia: e o que vai ser importante também? Tu não quer que eu veja um cliente chato do outro lado do balcão? Quer que eu faça o quê? Não há como ganhar dinheiro tomando ceva na beira da praia, eu tenho que fazer o que estiver ao meu alcance, por mais entediante que seja; mas por enquanto eu prefiro ficar aqui contigo. Isso basta.  

Ela se aproximou e ronronou algo imperceptível, o perfume que emana de sua pele é reconhecido pelo meu olfato: e isso desarma qualquer um. O cara pode ser ateu, niilista, libertino, misantropo e poligâmico convicto: basta que uma boca como essa, que agora verbaliza frases de carinho para mim, peça para que vire católico, humanista, fiel e monogâmico, e o mesmo cara vai concordar com uma devoção ecumênica livre de titubeios. E a vontade nessa hora é dizer que a amo, confessar que ainda quero casar com ela, entregar-me a todos os costumes e (des)prazeres da vida burguesa, ter filhos, até plantar florzinhas cheirosas em nosso jardim e deixar para começar a viver de verdade depois de uma certa idade, quando nossos filhos estiverem encaminhados na vida, doutores da sociedade: Eu te amo, Érica!    

Mas aí eu ia parecer clichê. E sempre evito parecer clichê. O que funciona com as outras pessoas. Com a Érica, nunca.

Guilherme 

Junho 10, 2008

Ela

 

“Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.”

Pablo Neruda

 

 

            Sabe aqueles dias que, apesar da alvorada ensolarada, parecem ser turvos e enevoados. Mesmo com os cânticos dos pássaros, a única vontade que tenho é continuar dormindo esperando a chegada do meio-dia para almoçar e pensar que o crepúsculo está prestes a anunciar o fim de mais um dia angustiante. Saco. Mesmo assim, levanto. Ao movimentar os membros superiores para cima, procuro estralar os ossos – pouco calcificados na infância – que estavam retesados, após descansar pouco menos de três horas de sono.  O movimento só não foi completo, pois quando estava quase no ápice olhei-me no espelho e veio a raiva do mundo. Por quê tão feio? Ah, e não me venha dizer que não ocorre isso com você, porque ocorre sim. Acho que é normal. Ou não. Vou para a cozinha, busco a Zero e leio as manchetes para me manter informado. Tou cagando se o Busatto foi burro e o Feijó um pau-no-cú antiético. Parafraseando o Wander, Queria é ser bonito, mas eu não consigo.

 

            E fico com esse sentimento de culpa até umas 11 horas, momento em que começo a me preocupar com os problemas realmente relevantes e vejo que o dia será bem pior do que imaginava. Filhos, uma das coisas que mais queria na vida, tenho; uma esposa fiel, meiga, que me ama, tenho; um título mundial FIFA, tenho; realização profissional, tenho; porque diabos então, deixo ser inebriado, sucumbindo nesse degradante e retrogrado mau-humor. Chega seis horas, penso. Quero ir embora desse antro de malévolos que dão um dedo pra botar no meu rabo, ou no deles. Antes de ir embora, sou agraciado com um a Portuguesa ganho, Gustavo, te fu. Pff.

 

            Era pra ser um dia caído no esquecimento. Mas ela estava lá, no meu ônibus, puxa. Com os caracóis caindo até o ombro, balançando com o vento de forma sincronizada com o piscar tímido dos seus lindos olhos cor de mel. O sorriso dela é único. Tenho certeza que ela não sabe disso. Sorri um sorriso encantador. Queria dizer para ela. Olha moça, devias ter orgulho desse sorriso, que em menos de dois minutos tira o meu mau-humor, deixa-me enlevado, contemplando tua silhueta com devoção. Dizer que tu és linda, a mais linda, cairia na vala comum. Tu mereces mais.

 

Eu tenho minha esposa, tu deves ter o teu, mas fico feliz de estar aqui. Apenas a te olhar. E digo-te, só sei de uma coisa: Queria ser agraciado todos os dias com o teu belo, meigo e sincero sorriso, cheio de mistério; seria o fim dos meus dias de mau-humor.

 

Fabio

Junho 4, 2008

Volta

O Tisserand ganha nova morada. Para quem já conhecia, não apenas a roupagem foi alterada, mas novos recursos são adicionados. Os textos mantêm o formato e as experimentações já tão utilizadas no antigo endereço. A nova organização só esbarra na anarquia pela qual os autores primam seus textos, ou não. Para começar, um conto/monólogo/lamento: Volta, de Guilherme Lessa Bica.

 

 

 

Volta, moço. Não tá fácil sem tua presença. Essa praia imensa, as areias balançadas pelo vento que não cansa nunca de cantar a tua falta. Ainda me pego esperando à porta quando o sol cora as plantas mais altas do jardim e depois logo morre me deixando só, emprestando um pouco de luz às telhas, antes de se despedir. Já tem tanto tempo que partiu, me perco nas contas e nas lembranças. Bastava cuidar o portão por essa hora que ouvia teu passo cauteloso, como se arrastasse e distendesse minha saudade por uns bons segundos derradeiros, provocando-a, para que meu carinho ganhasse em calor ao tocar teu rosto, ao roçar tua pele morena, e minha voz era oprimida por esse estado presente teu, era a presença em demasia que me alimentava em adundância e avidez.

 

Não trabalhamos em nada que nos comova, agrade ou enobreça. Eu sei. Nunca juntamos aquelas moedas que anunciam à sociedade a prosperidade do casal. Não temos nem teremos herdeiros - nenhuma provocação a qualquer deus nessa escolha de não contribuir para a perpetuação da espécie, apenas uma questão de coerência com esse amor consumista. Jamais seremos lembrados nas décadas posteriores a nossa morte. E isso não tem a menor importância, moço. A tua presença, aquela presença em demasia, me basta. E essa existência auto-sustentável, essa dependência simples requer um entendimento que as outras pessoas não possuem. Nem seria leviana a ponto tentar explicá-la. Como poderia ilustrar esse medo que encontra meu peito quando vejo teus olhos; nada que anuncie um perigo físico ou uma temeridade pela minha vida, mas uma morte deliciosa, uma entrega que amedronta pelo simples fato de requerer-me toda: teus olhos de poeta chileno me despem numa piscadela.

 

E é despidos que derrotamos todas aquelas convenções: as moedas perdem valor quando os corpos nada vestem e nada deles elas podem comprar; o tu empregado, o tu número no crachá, subordinado, morre, e renasce dono de uma nova morada, lúbrica e espaçosa, mas de uma abstração tamanha que reuniria as terras todas desses senhores que outorgam para si a condição de ricos, sem jamais alcançarem um quarto de teus intentos; a posteridade é eliminada da mesma forma, nos adonamos do tempo, outra - ou a maior - das abstrações e dos enganos, e guardamos o passado, o presente e o futuro dos dias em nossos corpos em horizontal: quando deitada, a ampulheta não escorre grãos. Deixemos as lembranças, os odores e os sons que produzimos para estes móveis obedientes e silenciosos, para esta casa acolhedora.

 

Mas isso tudo espera. A morte aguarda paciente a vida acontecer e terminar. Assim como eu espero tua volta, moço: resignada e atenta. Logo anoitece, e não quero adormecer novamente só. O vento sempre canta durante a madrugada, é compositor inquieto e provocador. E quando me vê abandonada, a única canção que lembra é a melodia da tua ausência.

 

 

Guilherme

 

 

Maio 18, 2008

Complexo

Ela diz:
Cara, tu é muito complexo.
Ao que respondo:
Que nada,
dê-me cá um amplexo!

Guilherme