Na realidade isso tudo que tu vê aqui, essas roupas, esse corte de cabelo, o relógio, as tuas botas, esses programas ridículos aí na tevê, essas comédias românticas: nada disso tem a menor importância, falo pra ela. Érica coloca a mão sob o queixo e levanta as sobrancelhas sem me perguntar o porquê daquela frase estranha que dissera, não queria parecer burra. Ela sempre evita parecer burra. Para as outras pessoas funciona. Para mim, não. Mas nunca revelo isso. Porque se revelasse, teria que confessar também que o que importa mesmo, a única coisa que realmente importa é essa expressão dela, que mistura entrega e desconfiança, misto de guria intrigada e mulher madura. E a boca rosa dela, sempre acolhedora, que me fascina.
Mas eu voltei a falar que essa vida que tu leva, essa atucanação pelos motivos equivocados, guria, não te encaminha pra lugar nenhum, tu vai acordar daqui a trinta anos e enxergar no outro lado do espelho uma tia frustrada, do outro lado do balcão um cliente insatisfeito do escritório e do outro lado da mesa o maridão ávido de cerveja e farto de sexo: talvez um jardinzinho florido traga algum atenuante: tu pode virar florista e decorar interiores. Faço uma pausa quando ela desmorona a cara de sabida e começa a parecer temerosa com minha profecia; acalmo Érica com um beijo e ficamos abraçados por um tempo. Já deve ser tarde da madrugada. E não temos sono.
Leio muitas coisas nos olhos da Érica, nos gestos e no tom da voz. Ela não me fala nada. Conheço pouco de sua família, mas sei que nutre sentimentos paradoxais que mesclam orgulho e medo quando pensa nos pais: orgulho pelas pessoas corretas que são; medo de ficar igual a eles. Pais teoricamente ainda apaixonados depois de vinte e cinco anos de casamento, casal devotado a criar os filhos, sobretudo Érica, a mais velha: gastaram uma grana com um colégio decente, cursinho de primeira linha e faculdade privada - a displicência de Érica não autorizou-a a se dedicar à federal. Trabalharam desde novos, casaram-se novos, e só depois de duas décadas e meia começam a viver de verdade, sair do país em viagens turísticas por paisagens exóticas. Algo não está certo nisso. Parece que subvertem aquela que deveria ser a ordem natural. Eu apenas penso. Jamais falaria para Érica. E nem precisa. Ela também deve chegar a essa conclusão.
Érica ameaça falar. Fico olhando para ela. A silhueta farta nas ancas, o rosto cansado, o cabelo encaracolado sobre meus ombros. Provoco seu discurso e peço que não me esconda nada. Fala, Érica, o que tu acha que é importante então? Ah, eu acho que é tá junto de quem a gente gosta, porque ninguém quer ficar sozinho mesmo, dá pra ver na cara dessa galera toda que tá na noite um vazio, eu vejo, eles preenchem esse vazio fodendo, mas ainda resiste algo, ela fala e prossegue, alguma coisa falta: e é isso que eu procuro. Érica examina minha reação, gosta de me ver surpreendido e reinicia: e o que vai ser importante também? Tu não quer que eu veja um cliente chato do outro lado do balcão? Quer que eu faça o quê? Não há como ganhar dinheiro tomando ceva na beira da praia, eu tenho que fazer o que estiver ao meu alcance, por mais entediante que seja; mas por enquanto eu prefiro ficar aqui contigo. Isso basta.
Ela se aproximou e ronronou algo imperceptível, o perfume que emana de sua pele é reconhecido pelo meu olfato: e isso desarma qualquer um. O cara pode ser ateu, niilista, libertino, misantropo e poligâmico convicto: basta que uma boca como essa, que agora verbaliza frases de carinho para mim, peça para que vire católico, humanista, fiel e monogâmico, e o mesmo cara vai concordar com uma devoção ecumênica livre de titubeios. E a vontade nessa hora é dizer que a amo, confessar que ainda quero casar com ela, entregar-me a todos os costumes e (des)prazeres da vida burguesa, ter filhos, até plantar florzinhas cheirosas em nosso jardim e deixar para começar a viver de verdade depois de uma certa idade, quando nossos filhos estiverem encaminhados na vida, doutores da sociedade: Eu te amo, Érica!
Mas aí eu ia parecer clichê. E sempre evito parecer clichê. O que funciona com as outras pessoas. Com a Érica, nunca.
Guilherme